Túlio D'angelo
Túlio D'angelo
Túlio D’angelo é advogado e empresário. Já ocupou relevantes cargos na administração pública e privada. Optou pelo ramo da coquetelaria e alimentação e hoje está à frente do Bar Palito e do Chopp Bolacha. Também é o curador da Galeria São Vicente, na Praç
PAPO DE BALCÃO

A morte horrível do 'negloni'

Um clássico atravessado por caricaturas, memes e personagens que transformam repertório em pose e posse

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Poucos drinks carregaram, por tanto tempo, a aura de elegância e vanguarda quanto o Negroni. Nascido em Florença e atribuído ao conde Camillo Negroni, ele sempre foi mais do que uma mistura de três ingredientes. Era um sinal de repertório. Um gesto discreto de quem sabia onde estava e o que queria beber.

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Durante anos, pedir um Negroni dizia muito sem precisar dizer nada. Não era sobre status explícito, era sobre escolha. Amargo, direto, sem concessões. Um drink sustentado pela força do Campari, pelo papel do vermute e pela espinha dorsal do gim. Elegância líquida, simples e precisa.


Mas o tempo não costuma ser gentil com aquilo que vira símbolo demais.


O Negroni ganhou o mundo, saiu do balcão e entrou no feed. Virou foto, virou estética, virou linguagem. E, como quase tudo que atravessa esse caminho, começou a se distorcer. Em algum momento, beber Campari, algo tão interessante e cheio de identidade, passou a carregar um certo ar cafona. Não pela bebida em si, mas pelo personagem que começou a se formar em torno dela.


Tudo já não ia bem, mas, quando o “calvo da Campari”, um sujeito excreto que ganhou espaço nas redes destilando misoginia travestida de opinião, aparece venerando o amargor como se fosse sinal de superioridade, foi só ladeira abaixo. Não há sofisticação possível quando o discurso é raso e excludente. Melhor nem citar mais. O estrago já está feito.


E então a realidade resolveu colaborar com a ficção.


Em meio às investigações envolvendo o Banco Master, surgiram mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro. Em uma delas, ao se comunicar com a namorada usando a chamada “língua do L”, o drink aparece escrito como “negloni”. Um detalhe pequeno, quase banal, mas carregado de simbolismo.


Ali, talvez sem querer, está o retrato perfeito dessa transformação. O Negroni, que já foi sinal de refinamento silencioso, reduzido a uma palavra deformada em uma conversa privada de alguém que representa justamente o tipo de elite que confunde poder com gosto.


É um curto-circuito cultural. O drink não mudou. Mas tudo ao redor dele mudou demais.


A popularização trouxe visibilidade, mas também trouxe ruído. O excesso de imagem esvaziou o significado. O que antes era escolha virou código. E, pior, um código muitas vezes apropriado por quem menos entende o que ele representa.


Talvez o “negloni” seja isso. Não um erro inocente, mas um sintoma. Um clássico atravessado por caricaturas, memes e personagens que transformam repertório em pose e posse.


Nos bares de verdade, no entanto, pouca coisa muda. O Negroni segue sendo servido como sempre foi. Medido, equilibrado, respeitado. Não depende de quem o cita errado, nem de quem tenta usá-lo como símbolo de qualquer coisa além do que ele é. Ele não pertence à burguesia, ele pertence ao bar e ao bom bebedor.


Talvez essa morte horrível seja apenas superficial. Porque o Negroni de verdade continua vivo. E, como todo clássico, sobrevive justamente quando o barulho passa.

Receita de Negroni clássico para lembrar o que importa:

  • 30ml de gim
  • 30ml de vermute rosso
  • 30ml de Campari
  • 1 fatia de casca de laranja

Em um mixing glass com gelo, adicione todos os ingredientes. Mexa bem até atingir boa diluição e temperatura, não tenha medo. Coe para um copo baixo com gelo novo. Finalize com a casca de laranja, expressando os óleos.

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No fim, o problema nunca foi o drink.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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