Pisada pronada: vilã ou exagero comercial?
Sem algum grau de pronação, o pé seria muito mais rígido e menos eficiente
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Poucos termos se popularizaram tanto no universo da corrida, das academias e das lojas de tênis quanto “pisada pronada”. Em algum momento, muita gente passou a acreditar que pronar era quase um diagnóstico. O corredor fazia um teste rápido na esteira, recebia a classificação de pronador, supinador ou neutro e saía convencido de que precisava de um tênis específico, uma palmilha corretiva ou algum tipo de intervenção para evitar lesões.
A ideia parece simples: se a pisada está “errada”, ela precisa ser corrigida. O problema é que o corpo humano raramente funciona de maneira tão binária. A pronação não é, por si só, uma doença. Pelo contrário, é um movimento natural do pé, necessário para absorver impacto e adaptar o corpo ao solo durante a marcha e a corrida. Sem algum grau de pronação, o pé seria muito mais rígido e menos eficiente.
O exagero começa quando qualquer pronação passa a ser tratada como defeito. Durante a caminhada, o pé toca o solo, acomoda-se, distribui carga e depois se transforma em uma alavanca mais rígida para impulsionar o corpo. A pronação participa justamente dessa fase de adaptação. Ela ajuda a dissipar energia e a reduzir o impacto transmitido para tornozelo, joelho, quadril e coluna. Portanto, dizer que alguém “prona” não significa necessariamente que exista algo errado.
O que pode ser problemático é o excesso de pronação, a pronação mal controlada ou a pronação associada a dor, instabilidade e sobrecarga. Essa diferença é fundamental. Existem pessoas com pé plano e pronação acentuada que nunca sentiram dor. Existem corredores com pisada considerada neutra que vivem lesionados. A relação entre tipo de pisada e lesão é muito mais complexa do que o marketing costuma sugerir.
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Na prática clínica, é comum encontrar pacientes preocupados porque descobriram que têm “pisada pronada”. Muitos chegam acreditando que precisam corrigir isso imediatamente, mesmo sem sintomas importantes. Essa ansiedade frequentemente nasce de avaliações simplificadas, propagandas de tênis ou orientações genéricas. O risco é transformar uma variação normal do movimento humano em problema médico.
Isso não significa que a pisada deva ser ignorada. Em alguns casos, ela importa muito. Pacientes com dor no arco do pé, tendinopatia do tibial posterior, fascite plantar, sobrecarga medial do tornozelo ou deformidade progressiva podem se beneficiar de uma avaliação cuidadosa da mecânica do pé. Nesses contextos, palmilhas, mudanças de calçado, fisioterapia e fortalecimento específico podem fazer grande diferença. O erro está em aplicar a mesma solução para todos.
Palmilhas são um bom exemplo. Elas podem ser extremamente úteis quando bem indicadas. Podem redistribuir carga, melhorar conforto, reduzir sobrecarga em regiões dolorosas e ajudar no controle de deformidades. Mas também podem ser desnecessárias quando usadas apenas para “corrigir” uma pronação assintomática. Pior ainda: quando mal indicadas, podem gerar desconforto, alterar a mecânica de maneira inadequada ou criar dependência sem resolver a causa do problema.
O mesmo raciocínio vale para os tênis de controle de movimento. Durante anos, muitos corredores foram orientados a escolher calçados com base exclusivamente no tipo de pisada. Pronadores deveriam usar tênis mais rígidos e estruturados. Supinadores deveriam buscar mais amortecimento. Neutros poderiam usar modelos convencionais. Essa lógica ainda existe, mas hoje sabemos que ela é insuficiente. Conforto, adaptação, histórico de lesões, volume de treino e resposta individual ao calçado são variáveis tão ou mais importantes.
Talvez o grande problema seja a busca por uma explicação única. Quando alguém sente dor, é natural querer encontrar um culpado claro. A pisada pronada virou esse culpado conveniente. Ela aparece no teste, pode ser mostrada em vídeo, parece objetiva e permite oferecer uma solução. Mas a dor musculoesquelética raramente nasce de um único fator. Ela é quase sempre resultado de uma combinação entre anatomia, força, mobilidade, carga, recuperação e comportamento.
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Então, a pisada pronada é vilã ou exagero comercial? A resposta honesta é: depende. Ela pode ser relevante em alguns pacientes e irrelevante em outros. Pode contribuir para sintomas quando associada a fraqueza, dor, deformidade ou sobrecarga. Mas não deve ser tratada automaticamente como defeito. Pronar é normal. O que precisa ser avaliado é se aquela pronação está causando problema naquele contexto.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
