Tiago Baumfeld
Tiago Baumfeld
Ortopedista Especialista em Pé e Tornozelo. Doutor em Ortopedia pela UFMG.
PÉ & TORNOZELO

Fisioterapia bem feita é tratamento, não complemento

Muitas lesões podem melhorar sem cirurgia quando existe um programa bem feito de fortalecimento, mobilidade, controle de carga e retorno progressivo à função

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Durante muito tempo, a fisioterapia foi vista por muitos pacientes como uma etapa secundária do tratamento ortopédico. Algo que vinha “depois”, quase como um complemento à consulta médica ou à cirurgia. Essa visão ainda é bastante comum. O paciente opera, recebe alta, volta ao consultório e pergunta: “Agora preciso fazer fisioterapia?”. A pergunta revela uma ideia equivocada: a de que a cirurgia resolve o problema principal e a reabilitação apenas acelera a recuperação.

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Na prática, não é assim. Em grande parte dos casos ortopédicos, a fisioterapia não é complemento. Ela é parte central do tratamento. Uma cirurgia tecnicamente perfeita pode ter resultado ruim se a reabilitação for mal conduzida. Da mesma forma, muitas lesões podem melhorar sem cirurgia quando existe um programa bem feito de fortalecimento, mobilidade, controle de carga e retorno progressivo à função. A qualidade da recuperação depende muito mais desse processo do que se imagina.

O corpo humano não recupera função apenas porque a dor diminuiu ou porque o exame de imagem melhorou. Recuperar função significa voltar a andar bem, subir escadas, correr, trabalhar, praticar esporte, ter equilíbrio, força e confiança no movimento. Isso exige treino. Exige repetição. Exige progressão. Exige alguém acompanhando a resposta do corpo e ajustando o caminho quando necessário.

Na ortopedia, é comum tratarmos estruturas: osso, tendão, ligamento, cartilagem, músculo. Mas o paciente não vive em partes separadas. Ele vive em movimento. Uma fratura consolidada não significa automaticamente uma marcha normal. Um ligamento reconstruído não garante controle neuromuscular adequado. Um tendão cicatrizado não recupera força sozinho. A fisioterapia entra justamente nesse espaço entre a cicatrização do tecido e o retorno real à vida.

Isso fica muito claro no pé e tornozelo. Pequenas limitações de mobilidade podem mudar completamente a forma de caminhar. Uma perda discreta de dorsiflexão do tornozelo pode sobrecarregar o joelho, o quadril, a coluna ou o outro pé. Uma musculatura fraca pode gerar insegurança em terrenos irregulares. Uma propriocepção ruim após entorse pode aumentar o risco de novas lesões. O problema inicial pode até estar resolvido, mas o corpo continua funcionando mal.

Também é comum o paciente interpretar fisioterapia como um conjunto de aparelhos, choquinhos, gelo, calor ou massagens. Essas ferramentas podem ter lugar em algumas fases, especialmente para controle de dor e edema. Mas fisioterapia de qualidade vai muito além disso. Ela envolve avaliação funcional, definição de metas, fortalecimento específico, treino de equilíbrio, ganho de mobilidade, educação sobre carga e preparação para atividades reais do paciente.

Um corredor não precisa apenas deixar de sentir dor. Precisa voltar a correr com segurança. Um idoso não precisa apenas cicatrizar uma fratura. Precisa recuperar autonomia para sair de casa, subir degraus e evitar quedas. Um trabalhador não precisa apenas receber alta médica. Precisa retomar sua função sem medo e sem compensações que criem novos problemas. Cada objetivo exige um plano diferente.

Por isso, protocolos genéricos costumam falhar. Dizer que todo paciente deve fazer as mesmas dez sessões, com os mesmos exercícios e no mesmo ritmo, é ignorar a complexidade da recuperação. Idade, condicionamento físico, tipo de lesão, cirurgia realizada, dor, medo, qualidade muscular e rotina de vida interferem diretamente na reabilitação. Dois pacientes com o mesmo diagnóstico podem precisar de caminhos completamente diferentes.

A comunicação entre médico e fisioterapeuta também é fundamental. Quando essa integração não existe, o paciente fica perdido entre orientações desencontradas. Um profissional libera carga, outro restringe. Um pede fortalecimento, outro teme sobrecarga. O paciente, inseguro, acaba fazendo menos do que deveria ou mais do que poderia. A boa reabilitação depende de uma equipe falando a mesma língua.

A fisioterapia bem feita ajuda justamente a respeitar esse equilíbrio. Ela não deve ser nem excessivamente medrosa, mantendo o paciente parado por tempo demais, nem agressiva a ponto de ultrapassar a capacidade de recuperação. O bom fisioterapeuta sabe dosar estímulo. Sabe quando progredir, quando recuar e quando insistir. Isso é tratamento, não detalhe.

Claro que nem toda fisioterapia é igual. Assim como existem cirurgias bem e mal indicadas, existem reabilitações bem e mal conduzidas. O paciente precisa de acompanhamento individualizado, metas claras e participação ativa. Fazer exercícios de forma automática, sem progressão e sem relação com o objetivo funcional, raramente entrega bom resultado. Reabilitar é reconstruir capacidade, não apenas cumprir sessões.

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Valorizar a fisioterapia não diminui o papel do médico nem da cirurgia. Pelo contrário. Melhora o resultado de tudo que foi feito antes. Uma boa indicação, uma boa técnica cirúrgica e uma boa reabilitação fazem parte da mesma história. Quando uma dessas etapas falha, o paciente sente.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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