A guerra dos amadores
A guerra de Trump já está sendo paga pelo contribuinte, mas não só. Nem ele, nem seus assessores consideraram as sérias consequências econômicas
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No 15º dia da guerra, no último sábado (14/3), Donald Trump pediu socorro a países europeus e à China para reabrir o Estreito de Ormuz. Mostra o amadorismo do presidente americano. Era óbvio que para começar uma guerra com o Irã seria necessário pensar em como neutralizar a arma estratégica do país, o controle do estreito.
O maior risco global no curto prazo tem nome: Donald Trump. Ele toma decisões por impulso, sem estratégia e sem planejamento. Está cercado por assessores inexperientes, que agem mais com motivações ideológicas ou por impulso, como Pete Hegseth, Secretário de Defesa; e Marco Rubio, Secretário de Estado. Toma decisões sem analisar seus efeitos colaterais, com dados ultrapassados ou parciais e erra muito.
Foi um dado desatualizado que levou ao erro mais grave da guerra: o bombardeio de escola para meninas no Irã, em que morreram 160 crianças. O equívoco se converteu em crime humanitário. A guerra contra o Irã comprova esse quadro de amadorismo. Animado pela facilidade com que sequestrou o ditador venezuelano Nicolás Maduro, atacou o Irã sem motivo defensável, subestimou a reação iraniana e não tinha plano para o estratégico Estreito de Ormuz. O ataque foi objeto de muitas mudanças de rota e declarações tão mentirosas e improvisadas quanto a própria ação militar. Começou com o objetivo de derrubar o regime, enfraquecendo-o com os bombardeios e levantando a população contra ele. Não deu. Ficou animado com a morte de Ali Khamenei, doente e debilitado, e de outras lideranças. Não avaliou a hipótese de haver substitutos prontos para assumir.
A guerra serve aos interesses de Benjamin Netanyahu, que se aproveita do pretexto para ampliar territórios ao norte, no Líbano, após ter avançado a sudoeste, em Gaza; e a oeste, na Cisjordânia. A expansão não garante a segurança de Israel, nem estabiliza a região. Ao contrário, alimenta a hostilidade árabe-palestina contra os israelenses. Ajuda apenas Netanyahu a se manter no poder, movendo o regime de Israel mais para a direita e para a autocracia.,
Trump e Netanyahu enfrentarão eleições adversas este ano. Nos Estados Unidos, em novembro, estará em jogo a maioria governista que garante a ele imunidade na sua trajetória autocrática. Ele pode perder. Já há indicações de problemas em estados tradicionalmente republicanos, seja porque democratas ameaçam tomar cadeiras republicanas em alguns distritos, seja porque os republicanos escolhidos nas primárias estão contra suas políticas e podem formar um centro independente, propenso a votar com os opositores. Em Israel, regime parlamentarista, o próprio cargo de primeiro-ministro estará em questão nas parlamentares de outubro. Humores em guerra são voláteis: criam solidariedade, mas, dependendo do andamento, aumentam a oposição. O que ajuda Netanyahu é a falta de uma liderança que promova a união.
O novo modo de guerra é cruel e impreciso. Ele evita tropas no chão e recorre a bombardeios com mísseis e drones, em muitos casos guiados por inteligência artificial. Minimiza as vítimas no lado dos atacantes, e massacra civis no outro lado. É uma guerra de demolição indiscriminada, como se viu em Gaza, continua-se a ver na Ucrânia e está acontecendo no Irã e no Líbano. O número de vítimas civis inocentes, muitas delas crianças, mulheres e idosos, é desproporcional ao alcance de objetivos militares.
No plano global, as consequências econômicas se acumulam. Há ameaça de crise de suprimentos em várias cadeias importantes. A produção de chips semicondutores, que depende do gás ultrapuro do Qatar, está em risco porque o fornecimento foi interrompido. O bloqueio do Estreito de Ormuz, afeta não apenas a matriz energética dos países, porque os navios dos maiores produtores precisam desta rota, mas também alcança a cadeia de fertilizantes, nitrogenados e hidrogenados, atingindo a agroindústria, no Brasil e nos Estados Unidos. A pressão inflacionária do combustível aumenta em todo o mundo. Os países adotam políticas distintas para lidar com a crise econômica, adicionando mais uma fonte de desequilíbrios na economia mundial. Trump levantou as sanções contra a Rússia, liberando o fluxo do petróleo russo. Abandonou a Ucrânia à própria sorte, isolando-se mais da Europa.
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A guerra de Trump já está sendo paga pelo contribuinte, mas não só. Chegou nas bombas de gasolina e nas prateleiras dos supermercados. Nem ele, nem seus assessores consideraram as sérias consequências econômicas de suas decisões. A alta da inflação piora o quadro eleitoral para Trump. Sua política interna é um desastre, para usar uma expressão que ele saca contra os outros. A sua política externa não é menos desastrosa. O mundo já enfrenta riscos existenciais de médio e longo prazo. Mas, o risco mais imediato é o próprio Trump e os aliados que ele vê se espalharem mundo afora. Todos políticos despreparados e de vocações autocráticas. Como escreveu a historiadora Barbara Tuchman sobre a guerra do Vietnam, estamos assistindo, mais uma vez, à marcha da insensatez.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
