Sérgio Abranches
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COLUNISTAS

O artifício da terceira via

O PSD tem que se desvencilhar do bolsonarismo e lutar para passar ao segundo turno contra ele. Se persistirem inseguros, perdem mais uma vez

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O PSD quase encontrou o seu caminho pela centro-direita para substituir o PSDB. Mas, por enquanto, está a meio-caminho. Depois que Kassab viu se dissipar a possibilidade de ter Tarcísio de Freitas como candidato da centro-direita e com a aparente irredutibilidade da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ele se moveu em direção a três outros pré-candidatos: os governadores Eduardo Leite, Ratinho Jr. e Ronaldo Caiado. Mas, Ratinho Jr, e Ronaldo Caiado – recém-filiado – não se enquadraram ainda no figurino da centro-direita. Eduardo Leite é o único que pareceu disposto a se espremer entre Lula e o bolsonarismo.

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Em entrevista ao programa Estúdio I, Leite disse que a candidatura do PSD ficaria entre o PT e o bolsonarismo e se opõe internamente a conceder indulto a Bolsonaro. É a única posição que dá futuro ao PSD. Caiado persiste na ideia do indulto. O governador do Paraná não estava no programa conduzido por Andreia Sadi. Em entrevista a O Globo, evitou defender o indulto. É um começo. Este é um tema que não aceita ambiguidade. Caiado também elencou o bolsonarismo entre as forças da centro-direita. O séquito de Bolsonaro não pertence a ela e sim à ultradireita, que tem Donald Trump como sua principal figura global.

Faz toda a diferença incorporar ou não o bolsonarismo à centro-direita. Quem faz esta inclusão se redefine como ultradireita, porque, até que entregue o prometido projeto para o Brasil, o bolsonarismo é doutrinariamente mais forte do que a terceira via, que não tem personalidade e programa doutrinário definidos.

Ao admitir o indulto, assume a principal bandeira do bolsonarismo e se confunde irremediavelmente com ele. Na entrevista, algumas das ideias de Caiado cabiam na terceira via, mas não o indulto.

O modo de disputa presidencial no Brasil se desfez com a ruptura de 2018. O sistema que coordenou e organizou a disputa político-eleitoral entre 1994 e 2010 tinha dois eixos: o presidencial e o parlamentar. O presidencial é bipartidário, por força do segundo turno. O parlamentar, que forma as coalizões presidenciais no Congresso, é multipartidário e fragmentado.

Mas, mesmo no primeiro turno, desde 1994, PSDB e PT conquistavam em torno de 80% dos votos. A “terceira via” tinha teto de 20%, somente alcançado por Marina Silva (Rede Sustentabilidade). A primeira eleição direta para presidente, em 1989, foi fragmentada no primeiro turno. Collor e Lula somaram apenas 44,6% dos votos.

Entre 1994 e 2010, o menor percentual obtido por PT e PSDB, juntos, foi de 69,64%. José Serra teve votação muito baixa, de apenas 23,2%, dividindo o voto com Anthony Garotinho (17,87%) e Ciro Gomes (11,97%). A partir de 2006, PT e PSDB voltaram ao patamar de 80% dos votos no primeiro turno. Para o PSD, o lugar do PSDB é o caminho para a segunda via.

Em 2018, o PSDB sumiu. Teve 4,76% dos votos. Bolsonaro e Fernando Haddad somaram 75,31% dos votos, Ciro Gomes, concorrendo pelo PDT, dividiu o voto da esquerda e teve 12,47% das preferências. Lula e Bolsonaro polarizaram a disputa de 22 e concentraram 91,63% dos votos do primeiro turno. É muito pouco provável que este resultado do bolsonarismo se repita com Bolsonaro condenado e preso.

O eixo da disputa presidencial continua sem uma alternativa consistente ao PT. O PSD pode ocupar a posição do PSDB e reorganizar o eixo presidencial, comandando, novamente, a formação de governo e oposição. Minha hipótese é que esta reorganização, com o campo da centro-direita fora da órbita do bolsonarismo, seria pré-requisito para redefinir o escopo das emendas parlamentares e reconquistar o poder de agenda sobre a execução orçamentária pelo Executivo. Seria de interesse tanto do PT, quanto da centro-direita.

Mas, para cumprir este papel, o PSD tem que se desvencilhar de todos os vínculos com o bolsonarismo e lutar para passar ao segundo turno contra ele. Se persistirem inseguros, imaginando que precisam cortejar o bolsonarismo no primeiro turno, perdem, mais uma vez, a capacidade de usar a terceira via como par trampolim para se tornar a segunda via, disputando com o PT e reduzindo o bolsonarismo ao que ele de fato é: uma corrente extremista.

Tarcísio de Freitas se recusou a abandonar o ex-presidente e preferiu manter sua adesão fiel ao bolsonarismo. Caiado é veterano no plano nacional, já foi constituinte, senador e candidato à presidência, sabe se adaptar. Ratinho Jr. não tem razões locais ou nacionais para fazer como Tarcísio. Sobretudo para Ratinho Jr, que ensaia seus primeiros passos no cenário político nacional, como Leite, a oportunidade para consolidar uma personalidade política própria é voltar-se para a centro-direita e esquecer em definitivo o bolsonarismo.

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Lula continuará sendo o favorito em qualquer circunstância e o provável vitorioso. O cenário o favorece. Mas, passando ao segundo turno sem o voto do bolsonarismo e obtendo boa votação final, o PSD se consolidaria como o substituto do PSDB e poderia ser mais competitivo em 2030, resultado que ajudaria a despolarizar o ambiente político e daria novo vigor à democracia.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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