Renata Rocha
Renata Rocha
Arquiteta por 20 anos e padeira há quase 10, Renata Rocha fundou a Albertina Pães Especiais, em Belo Horizonte, onde pesquisa fermentação natural e escreve sobre gastronomia e as delicadas tragédias e prazeres de quem trabalha com comida.
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Tudo quebra

Precisamos falar sobre a parte mais difícil de se ter um negócio no ramo da gastronomia

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Não, não são as constantes pesquisas para se manter atualizado sobre tendências do mercado de A&B, nem as longas jornadas para criar e padronizar uma receita. Não é ainda o fato de termos sido surpreendidos com a necessidade de se desenvolver uma súbita habilidade para as artes da dramaturgia e assim poder roteirizar e atuar vídeos potencialmente viralizantes no Instagram, tampouco as adivinhações que temos que exercitar diariamente para prever uma produção suficiente, que não gere desperdícios e nem escassez. Pensou que o maior desafio é atrair clientes e manter um fluxo de caixa saudável? Também não.

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Nem em meus mais rebuscados sonhos de montar minha querida padaria, eu poderia prever o que de fato significa gerir um negócio desse tipo. Te digo: ser dono de restaurante nada mais é do que consertar coisas que quebram e gerenciar pessoas.

Se o meu whatsapp brilha antes das 7 da manhã já é prenúncio de uma das duas situações: ou alguém não vai trabalhar hoje ou alguma coisa parou de funcionar na loja. E dessa forma vamos desenvolvendo uma casca grossa contra palpitações cardíacas e ataques de ansiedade e entendendo que sim meu caro, essa é a sua nova vida e é preciso fazer do limão uma limonada.

Com o tempo, a gente aprende inclusive a identificar o problema antes mesmo de abrir a mensagem. Existe um tipo específico de “bom dia” que não engana ninguém. Ele vem curto, direto, quase sem pontuação. Não é um bom dia de verdade, é um aviso.

Graças a muita consciência social, valorização do trabalho e uma pitada boa de sorte, hoje conto com uma equipe absolutamente brilhante que está comigo para o que der e vier. Esse é assunto para outro texto e não existe mágica nessa equação: identifique talentos, remunere bem, permita o descanso adequado de pelo menos 5x2, e valorize o papel de cada um nessa engrenagem.

Mas voltando à mensagem de whatsapp às 6 da manhã, nem mesmo uma equipe excepcional como a minha está imune a dores de dente, ônibus quebrado ou criança doente. Quando um de nós se ausenta, um lindo movimento de força tarefa acontece para que a roda siga girando e considerando que todos trabalham com igual dedicação, ninguém se sente lesado e quase sempre fica tudo bem.

O problema mesmo, para mim, são as máquinas. Para quem não sabe a unidade monetária de equipamentos de padaria gira em torno de 10 mil reais. Qualquer equipamento, por menor e mais simples que seja, vai sempre custar, 1, 2, 3 ou 10 dessas unidades. E essas máquinas estragam diariamente, em um revezamento permanente com outros itens de menor valor e igual importância como torneiras, sifões, lâmpadas, reatores e roldanas.

Existe sempre alguma coisa prestes a parar. Quando não para, ameaça. Faz um barulho estranho, esquenta além do normal, demora mais do que deveria. E você aprende a conviver com essa instabilidade como quem convive com uma dor crônica leve, que ainda não te impede de andar, mas está sempre ali lembrando que pode piorar.

Quase sempre, a luta para conseguir um técnico é algo que me faz sentir em um concurso de TV tipo “The Bachelor”. Os técnicos estarão em permanente atendimento em outros serviços mais complexos que o seu e marcarão um horário, porém, nunca chegarão. E você irá ficar esperando, enquanto sua produção está inviabilizada na expectativa de que, dessa vez, essa máquina vai funcionar.

Ao chegar, você oferece cafezinho, piada e bolo, tentando parecer muito simpático para que, quem sabe, ele te escolha como cliente preferido e passe seu número pessoal para emergências. Depois de umas 10 visitas bem remuneradas, vocês finalmente criam um vínculo e você começa a acreditar que é especial. Mas não se iluda, meu pequeno empreendedor, ele passou o whatsapp para todos.

Ainda assim, quando ele chega, existe um pequeno alívio. Ele abre a máquina, mexe em coisas que você não entende, testa, fecha, liga de novo. E então vem a frase que você precisa ouvir: agora vai funcionar. E você acredita, você precisa acreditar. Porque naquele momento a alternativa seria admitir que não existe controle nenhum, e isso é incompatível com a quantidade de responsabilidade que você carrega. Então você escolhe acreditar.

Fecha a padaria um pouco mais leve. Confere tudo, dá aquela última olhada nas câmaras, nos fornos, no que ficou organizado para o dia seguinte. Vai embora com a sensação rara de que, talvez, amanhã seja um dia mais simples.
Dessa vez vai funcionar.

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Até que, às 6:00 da manhã, o whatsapp acende: “Bom dia. A porta da padaria não quer abrir...”

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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