O futebol e o pertencimento
Vamos atentar para os fenômenos grupais que levam a massa a esse comportamento tão apaixonado. As massas não pensam, agem com paixão, como turba enlouquecida
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O Brasil perdeu. Saiu da Copa. E nós, brasileiros, ficamos com um sorriso amarelo, desbotado, sem graça. Acabou para nós desta vez. Imediatamente, nos unimos no desalento e passamos, ainda uma vez, todos juntos, a desejar que então fosse a Noruega a campeã. Preferível perder para o melhor! Também não deu.
Resta torcer para que não sejam nossos “arqui-inimigos”, los hermanos, os que receberão, enfim , a taça da vitória. É o que corre no boca-a-boca, não parece improvável. Mas futebol é assim, cheio de surpresas. Que vença o melhor e ponto.
E assim vamos seguindo a Copa, depois da amarga derrota que para um pentacampeão é uma decepção, ainda mais que vivemos no país do futebol. Mas, que seja, não há o que fazer. Então, vamos atentar para os fenômenos grupais que levam a massa a esse comportamento tão apaixonado.
Há duas semanas, comentei sobre a raiz dos fenômenos de grupo, segundo Freud, com toda propriedade, sobre como nos unimos em torno de um líder, uma ideia, um amor ou o ódio. O que nos une em um só pensamento e vontade numa identificação vertical e horizontal.
Verticalmente, nos ligamos em torno de um líder com capacidade de amealhar simpatias, isso não quer dizer que seja bom. Pode ser péssimo. Já vivemos o bastante para nos lembrarmos de Hitler, que amealhou milhões a concordarem com o extermínio de um povo.
O pastor americano Jim Jones orquestrou o trágico evento em Jonestown (1978), na Guiana, levando ao suicídio coletivo de 918 seguidores, dos quais cerca de 300 eram crianças. Nunca esqueçamos ou deixemos de nos horrorizar por isso.
É como se estivessem todos hipnotizados. Possuídos por um ideal comum. Individualmente, não chegariam a isso. A identificação em massa os fez agir como se fossem um, colados nessa massa densa, de inseparáveis. O mesmo acontece na política, que dividiu os brasileiros em dois blocos, tornando amigos inimigos. O ódio correndo solto e abertamente. Parece que perdemos o bom senso democrático.
São assim os fenômenos de grupo. Produzem um tipo de cola que nos une horizontalmente numa fraternidade, identificados horizontalmente com os iguais e verticalmente com o que nos captura. As massas não pensam, agem com paixão, como turba enlouquecida.
São capazes de alienar o indivíduo, que abre mão da responsabilidade e pratica atos que jamais assumiria. O fanatismo por um líder, uma ideia, uma crença, seja lá o que for, nos retira a capacidade de conviver com as diferenças. Isso empobrece. O respeito à diferença é a democracia.
Como vimos, são milhões de brasileiros assistindo aos jogos aflitos, sofrendo, à beira de um ataque de nervos. É o que o futebol causa. E justificado pelo prazer desfrutado pelo sentimento de pertencimento, um forte vínculo comum.
Como disse Freud, em “Psicologia das massas e análise do Eu” (1921): “Não há dúvida de que existe em nós algo que, ao percebermos sinais de uma emoção em outra pessoa, nos inclina a cair na mesma emoção”.
Concluo citando um pedacinho do excelente artigo publicado no Farofa Filosófica: “Sofrer pelo time é, no fundo, sofrer por nós mesmos. É sofrer pelas nossas próprias buscas de pertencimento, reconhecimento e vitória em um mundo que, muitas vezes, nos nega tudo isso no dia a dia. O futebol nos oferece um espaço simbólico onde essas emoções podem ser vividas intensamente. Talvez seja justamente aí que possamos aproximá-lo de outro conceito importante de Freud: asublimação. Nela, impulsos profundos – como a agressividade, a rivalidade e o desejo de afirmação – encontram uma forma socialmente aceita de expressão. Em vez do conflito real, noventa minutos de jogo. Em vez da guerra, a disputa em campo... Talvez seja por isso que um gol, às vezes, pareça dizer muito mais do que o placar”.
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Muito bom, não poderia ser mais claro!
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