Na porção leste da cidade de Jerusalém, o que hoje é tido como a Cidade Velha, já foi por muito tempo um lugar de importância única para judeus, cristãos e muçulmanos. Desde os tempos do imperador Constantino I, o local da Igreja do Santo Sepulcro é identificado como o lugar tanto da crucificação quanto do túmulo de Jesus de Nazaré. Há cerca de 1993 anos, data estimada da crucificação de Jesus, aquele lugar ficava fora dos muros da cidade.

São muitos os povos que, ao longo da história, já dominaram aquela porção de terra de forma irascível. Há sete dias, no Domingo de Ramos, o cardeal Pierbattista Pizzaballa foi impedido pela polícia local de acessar a Igreja do Santo Sepulcro, apesar de buscar fazê-lo de maneira que cumpria as restrições impostas pelo governo israelense em decorrência da guerra em curso. Pizzaballa é o principal representante da Igreja Católica Romana em Jerusalém.

Em uma nota oficial conjunta, o cardeal afirmou que se tratou de uma decisão “desproporcional” e “fundamentalmente falha”, a qual resultou no fato de que “pela primeira vez em séculos, os líderes da Igreja foram impedidos de celebrar a Missa de Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro”. De lá para cá, garantias foram dadas para que os líderes católicos voltassem a ter acesso ao seu lugar de culto e veneração, que é ainda mais significativo nessa semana do ano.

A Páscoa tem sua origem entre os hebreus e se transformou em uma das duas maiores festas cristãs (ao lado do Natal), relembrando libertação de diferentes formas de escravidão. É a passagem de uma estação à outra, transição permanente da vida; é também uma celebração das melhores continuações da vida, como aquela que se dá pela sucessão das gerações. Data otimista, pode ser vista como a persistente possibilidade de superar frustrações e dores, nos convidando a reconstruir e aceitar o tempo, superá-lo sem o amaldiçoar, com seus diferentes tons de pensamento.

O Estado não fornece caráter a ninguém. Ou se chega nele justo, ou é perder tempo ter esperança em ver a lei melhorar alguém. Pois é a pessoa, essa sim, que pode melhorar se quiser. É só observar que vivem melhor os povos que sabem moderar e equilibrar simpatia e antipatia pelas pessoas, pelas coisas e pelo dinheiro, sem ousar humilhar ninguém. Agindo assim é possível pensar que a personalidade quente do fogo se equilibra diante da simpatia refrescante da água. Como em Dom Quixote, no qual Cervantes embaralha similitudes e analogias para descrever sua busca pela representação dos sonhos e desejos da humanidade.

São arbitrárias a classificação das pessoas e a ilusão de enquadrá-las em sistemas jurídicos perfeitos. A razão é muito simples: o ser humano tem segredos que não sabemos decifrar. Como Salomão veria uma época de desonestidade de governantes, legisladores e juízes?

Não é somente nas fábulas e histórias infantis que são infinitas as formas de ordenar e descrever as coisas do mundo. Por isso, qualquer tentativa de classificá-lo exige prudência e humildade. Em tempos em que considerações econômicas e de segurança se tornam absolutas, corre-se o risco de entregar a outros dimensões essenciais da vida, como os vínculos humanos e os ritos que lhes dão sentido.

A ampliação de estados de exceção, as leis do dinheiro, as restrições por necessidades reais de segurança, leis feitas para terroristas ou desonestos, acabam sendo usadas para punir pessoas de paz, honestas.

As diferenças entre povos e crenças são muitas, mas não justificam a erosão de práticas que reforçam a convivência respeitosa. O que nos distingue não é suficiente para nos separar. Ao contrário, são as relações compartilhadas de forma compreensível que tornam possível a vida em comum.

Reforçar distinções, bloquear perímetros, cercear ritos, desconfiar de todos e tudo, é um erro. Em tudo na vida é indispensável um elemento Páscoa. Pouco adianta leis duras e dirigidas que reforcem o prestígio dos ilegais, de vida mais badalada do que a vida honrada dos legais.

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O ativismo político e religioso – fundamentalismo de autoridades e criminosos – não é uma característica só das religiões. Reinterpretar as dimensões dos atributos divinos, o sentido da revelação e da fé, pode nos reaproximar da necessidade de paz. As escrituras sagradas – Torá, Bíblia, Corão - não são livros de um acordo, mas de uma intenção. A vocação humana para fugir da solidão e viver em coletividade não é um fato efêmero, como deveria ser o crime e o arbítrio. Por que não passa o tempo do insensato e da insensatez? Pessoas, coisas e situações são apenas variações de nós mesmos. O sentido da Páscoa está dentro de cada um.

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