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O fanático do Estado Islâmico (EI) treme à presença da liberdade, veste-se como um enigma, faz pouco caso dos trajes da primavera. Busca a direção de novas fronteiras para suprir sua falta de espontaneidade, fiel ao enredo de outros tempos: antes de ele piscar, eu o fuzilo. Nada sabe do talismã contido no coração da mulher. A incapacidade espiritual de compreender raças e credos diferentes é enfermidade própria do ânimo do terrorista. Senhores de vastas porções de terra nos domínios dos desgovernos da Síria e Iraque, avançam sobre a Turquia.
Imagens de satélite mostram a mobilização terrestre das tropas turcas perto de Elbeyli, cidade na fronteira com a Síria. Tanques estão posicionados aguardando a desesperada ofensiva do EI como reação ao bombardeamento aéreo de suas posições por forças da Otan.
Poucos dias atrás, aviões americanos passaram a atacá-los a partir da base aérea turca de Incirlik. As ações miram um perímetro triangular cujos vértices são as cidades sírias de Azaz, Jarabulos e Aleppo. Por hora, as imagens certificam que as forças terrestres estão em posição de defesa, mas, agora, com apoio da Turquia, o horizonte é a invasão terrestre da Síria. Passo fundamental para estancar de vez a sangria desenfreada levada a cabo por esse grupo pisa-flores, que fez da paixão pelo controle do pensamento do outro a doença da sua alma. O fanático islâmico renova na era atual o mal instalado na fronteira que separa há milênios o Ocidente do Oriente.
A Turquia já abriga 2 milhões de refugiados sírios, número que deve crescer 25% até o final do ano. O país, com sede em Ancara, tem sua capital cultural em Istambul, cidade que é parte situada na Ásia, parte na Europa. Majoritariamente muçulmano, o país é uma república secular e em boa parte de sua costa, no Mar Egeu, as pessoas têm hábitos tão relaxados como em qualquer outra riviera europeia.
Hagia Sophia, Igreja do Deus da Sagrada Sabedoria, ícone máximo de Istambul desde quando a cidade se chamava Constantinopla, já foi local de culto de cristãos e muçulmanos em períodos diferentes de sua milenar história. Kemal Ataturk, reformador fundador da Turquia moderna e secular, após a dissolução do Império Otomano no final da Primeira Guerra Mundial, num gesto de sabedoria decidiu transformar a Hagia Sophia em museu.
Corre hoje um processo para sacralizar novamente o templo como mesquita, inclusive para protestar contra o papa Francisco, que considerou genocídio o assassinato em massa de armênios no princípio do século 20 perpetrado por forças otomanas. A raiva oficial turca contra o papa estimulou a aceleração do processo de tornar a Hagia Sophia novamente um lugar de culto muçulmano. O mal absoluto sempre encontra frestas, nas infantilidades dos homens com poder, para penetrar.
Mevlut Cavusoglu, chanceler turco, esteve como convidado no Fórum do ASEAN, em Kuala Lumpur, na semana que passou. O encontro estava tomado por espinhosos temas, como a tentativa de reaproximação entre as duas Coreias e o envio de armamento pesado dos EUA para a região, entre outros. Mas, nas margens do encontro, a crise no Oriente Médio mostrou sua urgência. Também presentes como convidados, lá estavam John Kerry, Wang Yi e Sergey Lavrov (chanceleres dos EUA, da China e da Rússia, respectivamente). Muito se conversou e decidiu sobre os próximos passos para cima do Estado Islâmico. O mundo oficial islâmico precisa dizer qual a interpretação do islamismo que apoia e parar de brincar com o obscurantismo nefasto.
Durante o último Ramadã, mês sagrado dos muçulmanos, terminado no fim de semana de 18 de julho, o mundo vivenciou dois extremos da interpretação e aplicação da fé islâmica. Uma, objeto de maior destaque, foi o ataque terrorista em uma praia da Tunísia contra turistas majoritariamente ingleses. No outro extremo, a decisão por parte do príncipe saudita Alwaleed bin Talal de doar sua fortuna pessoal de US$ 32 bilhões para filantropia.
Oriundo do mais conservador estado islâmico, Alwaleed sempre foi visto como um estranho no ninho. Aliás, o sujeito é bem excêntrico em diversos aspectos, mas sua decisão de ajudar a construir pontes que aumentem a compreensão intercultural e a criar um mundo mais tolerante e inclusivo é digna de aplausos. Alwaleed anunciou sua decisão notando que “filantropia é uma responsabilidade pessoal e parte intrínseca da minha fé islâmica”.
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Cada época histórica tem a sua própria interpretação do que é o mal. O fanatismo islâmico, como todos os outros em todos os tempos, nunca edificará templos de extrema gratidão e longevidade. Nem, jamais, jardins de interesses harmoniosos.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
