Paulo Delgado
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A vida espetacular de Kennedy

Com tal carrossel de controvérsias, certo que a saúde dos EUA está mesmo nas mãos de um político polêmico.

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“Eu sou meu próprio espetáculo” é uma tradução livre de frase do filósofo Sêneca para dizer que vive melhor quem não precisa da aprovação dos outros para suas atitudes. A mais famosa família aristocrática e católica dos Estados Unidos, cuja vida é de glória, glamour, tragédia, sofrimento e influência, e que espalhou pelo mundo um número sem fim de Kennedy e Jacqueline como nome de batismo, está mais uma vez no poder. Robert Francis Kennedy Jr, o RFK Jr, é o atual secretário de Saúde dos EUA.

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Foi derrotado como candidato independente para a presidência da república nas eleições passadas. É sobrinho de John F. Kennedy, assassinado em 1963, quando era presidente. É filho do senador por Nova York Robert F Kennedy, procurador-geral no governo do irmão, também assassinado, em 1968, quando fazia campanha para ser indicado candidato a presidente.


A irmã mais velha dos dois nasceu com uma deficiência mental e foi submetida a lobotomia que a pôs internada a vida toda. O irmão mais velho morreu em operação como piloto de guerra. A segunda filha, dos nove filhos de Joseph P. Kennedy, avô de RFK Jr, morreu como passageira de um avião que se chocou contra os Alpes franceses. Perdeu primos, tias e parentes em acidentes de carro, avião, esqui, suicídio, overdose e doenças, precocemente. O assassinato do tio e do pai são duas tragédias relacionadas à violência e à irracionalidade política, dentre tantas outras, que marcam a vida da família.


Nada disso justifica – como se nas passagens do Velho Testamento Deus tivesse incluído os Kennedy nas broncas que deu em Moisés e Abrahão – chamar de “maldição Kennedy” a sequência de fatos trágicos que envolve a vida da dinastia mais charmosa dos EUA e que há mais de 80 anos influencia e emociona a vida do país.


Numa época sem seriedade como a atual, a história dos Kennedy serve de alerta para os políticos que não tratam o poder de forma transitória, nem compreendem os limites humanos da prosperidade material e da popularidade. É também um sinal de alienação do Estado que não gosta de falar de suas faltas e erros e culpa o cidadão e a sociedade por suas insanidades. Autoridades que falam de justiça, mas a justiça não vive nelas. Governantes que falam de suas dádivas, dadas por interesse não por bondade. Legisladores que fazem leis, mas não as cumprem.


A dor e o sofrimento que acompanha todos os excessos permite concordar com o pensamento clássico da antiguidade greco-romana, período muito mais culto do que o atual: é o acaso que governa a vida, não a sabedoria. Ninguém herda a iniquidade de ninguém, pois o que impede a autoconsciência e a autonomia do indivíduo é a intemperança de querer mais e nunca se contentar com o bastante.


Voltando a RFK Jr, o secretário de Saéde, espontaneamente controverso, contra a ciência e dono do próprio nariz. Durante a campanha eleitoral passada, ele falou de uma anormalidade médica que atingiu sua memória provocando confusão mental. E que foi “causada por um verme que se espalhou pelo meu cérebro, comeu uma porção dele e morreu”. Culpou a África, América do Sul e Ásia – onde parasitas são muito comuns, disse – para onde viajou várias vezes a trabalho sobre meio ambiente sendo infectado numa viagem dessas.


Na semana passada, voltou a chamar a atenção ao formular uma tese inédita sobre o caráter antisséptico da privada suja. Disse que não tem medo de vermes porque, embora “limpo” há mais de 40 anos, usava drogas no passado em assentos do vaso sanitário de qualquer banheiro onde estivesse. Por isso é imune a doenças. Organizações e grupos de saúde que já queriam sua cabeça antes da posse por ele ser contra o uso de vacina, agora querem sua demissão por ter sido viciado. E aumentou a dor de cabeça dos seus críticos: falou mal do paracetamol e defendeu uma dieta restritiva para com seu cardápio mudar as diretrizes nutricionais dos norte-americanos.


A Organização Mundial de Saúde confirma as estimativas de que mais de 1 bilhão de pessoas podem estar infectadas com parasitas que invadem o corpo humano e podem gerar doenças novas ou já conhecidas. E é cientificamente confirmado que vacina é necessária e comida com corante e processada não é bom. A nova dieta “Coma Comida de Verdade” (Eat Real Food) libera a gordura saturada. Encrenca certa: a política dos alimentos reais vai enfrentar duas guerras: a da obesidade e da indústria de alimentos.

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Com tal carrossel de controvérsias, certo que a saúde dos EUA está mesmo nas mãos de um político polêmico. Tão certo quanto Robert Kennedy Jr muito sofreu na vida, razão tem a rainha Luísa, da Prússia: Quem nunca comeu seu pão com lágrimas?

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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