Tenho 17 anos, estou prestes a ingressar na faculdade de jornalismo - que sonho há muito tempo - e vou dar o meu primeiro voto para presidente. A escolha foi feita com base na minha própria vivência até aqui, que não é muita, convenhamos, mas o suficiente para eu saber que é um direito adquirido e que devo exercê-lo, nas palestras que assisti junto à União Nacional dos Estudantes (UNE), meu desejo de um país onde as oportunidades sejam iguais e, por óbvio, minha identificação com a classe à qual pertenço: trabalhadora.
Voto com a esperança de mais empregos formais no país, salários melhores e mais oportunidades de educação. De onde me vejo votar, orgulhosíssima com meu primeiro título de eleitor e muitos sonhos, me vejo no futuro: escrevendo, tomando decisões, dona de mim mesma. Podendo fazer o que eu quiser. Mais feliz, confesso. Mas a gente sempre se imagina mais feliz, não é mesmo? Não seria uma fabulação de uma amanhã se fosse tão dura. Aos 17 anos, gosto de acreditar que minha escolha na urna eletrônica e a minha escolha no vestibular marcam um futuro promissor e próspero.
Daqui, quase 25 anos depois, não imaginaria o que me aguardaria. Penso que escolhi a profissão certa e o desejo de reportar coisas históricas rapidamente se converteu em realidade: um golpe, impeachment, eleições, mais golpe, pandemia, muita literatura e um realismo mágico de deixar qualquer aprendiz de Gabriel García Marquez e Isabel Allende estarrecidos. Na curva para este domingo (4/10), em que votaremos, novamente, para presidente, governador, senadores e deputados estadual e federal, temos vislumbres dessa realidade misturada à fantasia que faz qualquer escritor e/ou roteirista sentir inveja.
Eu sinto, mas não muita. Porque uma coisa é estar com minha saia de tule em um bar bebendo Cosmopolitan e fingindo viver a vida que Hollywood me vendeu: eu posso ser minha própria Carrie Bradshaw, ter minha coluna no jornal - é tão verdade que você está lendo ela agora, agorinha - sonhar com meu Mr. Big a qualquer momento, comprar sapatos caros (mentira! meus delírios de consumo são outros), outra coisa é saber que, aqui do lado, ameaçam, todos os dias, os nossos direitos e, entre eles, talvez os dos mais importantes: o direito ao voto.
Imagino que porque passei tempo demais assistindo Sex and the City, mas existe uma Carrie Bradshaw dentro de mim que gostaria de começar esta coluna diante do computador, com uma pergunta: quando foi que nós, mulheres, começamos a acreditar que os direitos conquistados pelas que vieram antes de nós estariam garantidos para sempre?
And just like that… Cheguei aos 41 anos.
Entre uma pauta sobre a extinção dos jumentos brasileiros, um reality show e a bravura para existir num corpo gordo que ocupam este espaço, vez ou outra, venho aqui falar mais diretamente. Na semana passada, meti curadoria de festa literária com Vorcaro, Epstein e os direitos sobre os corpos das mulheres. Parece algo que não é muito dito aqui, mas, se você reparar bem, desde que escrevo nesta casa, em 2021, tenho recorrido, quase que semanalmente, aos autores, autoras e exemplos do cotidiano para dizer do horror que é habitar um corpo de mulher nestes tempos e como estamos à mercê de tudo que decidem por nós: do que vestimos, comemos a quem escolhemos para nos representar legislativa ou executivamente neste país. Inclusive, quanto menos mulheres, melhor - não sou eu que estou dizendo, claro, mas todo sistema que estamos inseridos e que estou a criticar agora.
Veja bem. Não ando boa do juízo. Já fui melhor, inclusive em ordenar as ideias por aqui. Vou e volto ao passado e não sei exatamente do que dizer. Fico a pensar: preciso mesmo, a essa altura, quase outubro de 2026, escrever sobre posição política? Não é evidente que saibam a minha? Porém, às vezes, me sinto obrigada a dizer o que parece óbvio.
Votei em todas as eleições presidenciais da minha vida adulta - ou ainda quase adulta, como narrei acima. Construí uma carreira. Virei jornalista, escritora, professora. Fiz mestrado. Escrevi livros. Aprendi a pagar boletos e a ter crises existenciais. Tomo remédio tarja preta há anos. Sou um clichê quando se pensa em representação feminina contemporânea. Amei errado. Chorei por homens que certamente não mereciam uma crônica, quanto mais uma lágrima - mas escrevi sobre alguns aqui, inclusive. Troquei de roupa cinco vezes para sair de casa. Aprendi a ficar sozinha. Aprendi a gostar disso também. E continuei votando. E voando.
Parece banal escrever isso, mas não é.
Não escrevo para pedir que outra mulher faça a mesma escolha que eu. Meu voto não precisa ser o seu para que eu queira que o seu continue sendo seu
As brasileiras conquistaram nacionalmente o direito ao voto em 1932. São apenas 94 anos. Em 2026, nós somos 83.877.126 eleitoras e representamos 52,84% de todas as pessoas aptas a votar no Brasil. Somos maioria, mas, ainda assim, menos de um século depois daquela conquista, voltamos a encontrar no debate público gente discutindo se mulheres deveriam votar, dizendo que mulheres “votam mal” ou propondo substituir o voto individual pelo chamado voto familiar. Essas manifestações motivaram, inclusive, uma representação recente no Tribunal Superior Eleitoral. Não existe hoje uma proposta prestes a abolir o sufrágio feminino no Brasil. Existe algo que considero suficientemente grave por si só: voltou a ser possível dizer em voz alta que talvez uma mulher não devesse escolher por si mesma. Isso me assusta.
Conheço essa lógica e é a mesma que passa séculos nos explicando quais lugares podemos ocupar, o tamanho que podemos ter, quanto podemos falar, quanto podemos desejar, quanto podemos ganhar, o que podemos fazer com nossos corpos e até que ponto nossas escolhas realmente nos pertencem.
Audre Lorde sabia que não existe “mulher” como uma experiência única. Quando criticou um feminismo incapaz de levar seriamente em conta raça, classe, sexualidade e idade, Lorde estava exigindo que a diferença não fosse tratada como inconveniente, mas como fonte de potência política.
Lélia Gonzalez fez algo indispensável no Brasil: obrigou o feminismo a olhar para o país que efetivamente existia. Para uma sociedade em que racismo e sexismo não funcionam em salas separadas e em que essa articulação produz violência particularmente contra mulheres negras.
Gloria Anzaldúa escreveu a partir das fronteiras. Sua consciência mestiça recusava identidades simples e binárias e pensava raça, gênero, sexualidade, língua e pertencimento como territórios que se atravessam.
Eu gosto dessas mulheres porque nenhuma delas me oferece um feminismo confortável e penso que, diante da ameaça do voto, do nosso voto, do nosso direito ao voto, evocá-las me traz algum tipo de alento, quase como uma conversa, em que podemos dialogar, através das próprias obras e nos aproximar mais de um mundo livre do que uma Gilead, como escreveu Margareth Atwood ou mesmo de uma Acorn ou Bolota, de Octavia Butler.
Justamente por isso que, quando penso no meu voto aos 17 anos, não consigo separá-lo da mulher que sou aos 41, nem meu Cosmopolitan do meu copo d’água.
Suponho que o mais me assuste nem seja ouvir alguém defender que mulheres não deveriam votar. É perceber o quanto conseguimos nos acostumar a ouvir isso. A ideia aparece num corte de podcast, vira postagem, rende comentário, meme, indignação por algumas horas e, no dia seguinte, seguimos rolando a tela.
Em 2026, há influenciadores dizendo que mulheres “votam mal” e discursos propondo substituir o voto individual pelo chamado “voto familiar”. Não é uma hipótese que inventei para esta coluna: essas manifestações ganharam circulação suficiente para motivar uma representação no Tribunal Superior Eleitoral.
A ameaça começa justamente aí: não quando um direito desaparece, mas quando a possibilidade de fazê-lo desaparecer deixa de nos parecer absurda. Antes de se retirar um direito, pode-se tentar diminuir seu valor. Ridicularizá-lo. Transformá-lo em assunto debatível. Dizer que mulheres não sabem escolher, que votam pela emoção, que deveriam acompanhar a decisão do marido, que talvez a família devesse ter uma única voz. A cientista política Tatiana Vargas-Maia chamou atenção justamente para esse processo de normalização: repetir suficientemente o questionamento ao voto feminino pode habituar as pessoas à própria ideia de que a democracia não precisa funcionar como funciona hoje.
Porque retirar de uma mulher o voto não seria apenas impedir que ela escolha um presidente. Seria devolver a ela um lugar político que conhecemos muito bem: o de alguém sobre quem se decide, mas que não decide. E é isso que torna tão perturbadora a ideia do “voto familiar”. A família parece uma palavra amorosa até que alguém precise decidir quem fala por ela. Historicamente, quando uma família recebeu uma única voz política, essa voz não foi distribuída igualmente entre seus integrantes: experiências de voto familiar no século 20 atribuíram esse poder ao chefe da família, definido como homem.
Talvez seja por isso que eu me recuse a tratar tudo isso como provocação de internet. Tenho 41 anos e passei a vida adulta aprendendo que nenhum direito das mulheres deveria depender da certeza de que os homens ao nosso redor serão razoáveis o suficiente para preservá-lo. Eu quero o direito de votar mesmo quando voto diferente do meu pai, do meu companheiro, do meu irmão, do pastor, do patrão e de qualquer homem que esteja convencido de saber o que seria melhor para mim. A democracia começa justamente nessa pequena insolência: diante da urna, uma mulher não representa a vontade de sua família. Representa a si mesma.
Meu voto tem classe. Sou filha da classe trabalhadora.
Meus pais não tiveram as mesmas oportunidades de estudo que eu tive, mas fizeram da minha educação um projeto familiar muito antes de eu compreender o tamanho daquele esforço.
Depois vieram o diploma de jornalismo, o mestrado, os livros, as salas de aula, as viagens, os festivais literários, esta coluna. Durante muito tempo, histórias como a minha foram contadas usando uma palavra da qual desconfio cada vez mais: mérito.
Como se eu tivesse escalado uma montanha sozinha, mas isso não é verdade. Além das pessoas que lutaram abrindo caminhos, tivemos as políticas públicas. Há sempre uma infraestrutura invisível sustentando aquilo que depois chamamos de conquista individual.
Talvez por isso a política nunca tenha sido abstrata para mim. Política é o preço da comida. É o salário. É o preço de qualquer coisa numa barraca de uma festa supostamente popular. É a universidade que uma filha de trabalhadores consegue frequentar. É a Jéssica e não o Fabinho (qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência) na faculdade pública. É ter creche para poder trabalhar. É não morrer porque decidiu terminar um relacionamento. É receber o mesmo salário por um trabalho equivalente. É decidir se quer ser mãe. É poder andar na rua. É ter tempo para descansar. E é entrar sozinha numa cabine eleitoral e ninguém poder escolher por você.
Meu voto ganhou Lélia. Ganhou Audre. Ganhou Gloria. E, por que não?, ganhou Carrie Bradshaw também
Meu voto envelheceu comigo e que bom.
Aos 17 anos votei em Lula. Aos 41, vou votar novamente. Talvez seja a última vez, nunca sabemos. Mas é sempre uma delícia.
Não escrevo isso para pedir que outra mulher faça a mesma escolha que eu. Meu voto não precisa ser o seu para que eu queira que o seu continue sendo seu.
Essa talvez seja a parte mais importante desta coluna.
Eu escolho Lula em 2026 a partir da minha história, das minhas prioridades e também daquilo que sua candidatura registra como compromissos: ampliação da rede de enfrentamento ao feminicídio, fiscalização da desigualdade salarial e políticas de autonomia e proteção das mulheres, entre outras propostas. O programa está registrado no TSE e pode - e deve - ser lido, comparado e cobrado.
Outras mulheres chegarão a conclusões diferentes. Democracia é também isso.
O que não aceito é que voltemos a discutir se uma mulher deveria ter o direito de chegar a conclusão alguma.
Talvez Carrie Bradshaw não formulasse exatamente assim. Provavelmente haveria (mais) um Cosmopolitan sobre a mesa e sapatos muito mais caros nos pés.
Mas penso muito nela também.
Porque Sex and the City, com todas as suas limitações e contradições, colocou quatro mulheres adultas diante de milhões de pessoas falando sobre uma pergunta que continua profundamente política: que vida uma mulher tem o direito de escolher para si?
Casar ou não. Ter filhos ou não. Transar ou não. Construir uma carreira. Ganhar dinheiro. Envelhecer. Recomeçar. Ficar. Ir embora.
Há escolhas infinitamente mais difíceis para mulheres que não dispõem dos privilégios daquelas personagens - e é justamente aí que Carrie precisa sair de Manhattan e sentar à mesa com Lélia Gonzalez, Audre Lorde e Gloria Anzaldúa. Aí entra nosso realismo mágico, com Nossa Senhora, a fé dos brasileiros, as ruas tomadas e só aquele desejo de liberdade.
Leia Mais
Porque liberdade sem raça é incompleta. Liberdade sem classe é incompleta. Liberdade sem corpo é incompleta. Liberdade sem considerar sexualidade, território e diferença é incompleta. E, sobretudo, liberdade sem condições materiais para exercê-la corre o risco de virar apenas uma palavra bonita.
Domingo eu vou votar
As mulheres são 52,84% do eleitorado brasileiro e, ainda assim, seguem dramaticamente sub-representadas: a ONU Mulheres registra que ocupam apenas 17,2% das cadeiras da Câmara dos Deputados e 18,5% do Senado. Às vésperas desta eleição, a organização colocou entre suas prioridades a paridade política, o combate à violência política de gênero e raça, a igualdade salarial, políticas de cuidado e o enfrentamento à violência contra mulheres.
No domingo, 4 de outubro, haverá 158,7 milhões de brasileiras e brasileiros aptos a escolher presidente, governadores, senadores e deputados. Eu estarei entre eles, mas gosto - e quero - de pensar especialmente nas mulheres.
Na que votará pela primeira vez, na que levará a filha, na senhora que já votou em mais eleições do que consigo contar, na mulher negra, na indígena, na trabalhadora doméstica, na empresária, na sapatão, na mulher trans. Na mãe. Na mulher que nunca quis ser mãe. Na religiosa. Na que não acredita em Deus algum. Naquela que votará exatamente como eu. E naquela que discordará completamente de mim.
Ainda sim, vá votar.
Não porque eu saiba qual deve ser o seu voto, não sei. Mas porque houve mulheres antes de nós que viveram num Brasil em que essa pergunta sequer lhes pertencia.
Tenho 41 anos. Votei em Lula pela primeira vez aos 17. (E já disse isso, eu sei).
Quase 25 anos depois, entrarei novamente numa cabine eleitoral e escolherei o mesmo nome para presidente. Só que não serei a mesma mulher.
Meu voto envelheceu comigo. Ganhou livros, trabalho, boletos, raiva, feminismo, decepções, privilégios reconhecidos, consciência de classe, contradições e perguntas. E ganhou, especialmente, a chance de existir porque existe, ainda que capenga, uma democracia.
Meu voto ganhou Lélia. Ganhou Audre. Ganhou Gloria. E, por que não?, ganhou Carrie Bradshaw também.
Talvez seja isso que eu queira proteger quando defendo com tanta força o direito de uma mulher votar. Não apenas o direito de apertar alguns números numa máquina.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
O direito de uma mulher olhar para o mundo, olhar para a própria vida e dizer: quem decide o que eu penso sobre tudo isso sou eu. E depois de tudo, votar de acordo.
