O corpo também é uma escola: o que aprendemos quando saímos do lugar
Em Mestres das Kebradas, Giselle Paulino percorre Etiópia, Índia e periferias brasileiras para mostrar que aprender também é se deslocar - e que corpos, territórios e experiências produzem conhecimentos que a escola tradicional insiste em não reconhecer
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Minha primeira lembrança sobre corpo aconteceu na escola. Aquela regular mesmo. Que a gente passa a maior parte da vida, trancafiados, aprendendo sobre tudo, inclusive sobre a vida, quem queremos ser e quem não desejamos ser jamais. Ali, aos quatro anos, entendi que meu corpo, como existia, não era bem-vindo ao prazer das brincadeiras infantis em grupo. Imagino, depois de muito divã e um longo percurso na psicanálise, na academia (ou nas academias, tanto de fazer exercício físico, quanto pesquisa), que tal lembrança me empurrou às margens: existenciais, da vida, das quebradas do mundo, do saber que não está, obrigatoriamente, confinando, em caixas, em formatos pré-determinados, em mestres titulados - muito embora eu ostente meu título com firmeza e algum orgulho - e nos deslocamentos que me permito fazer.
Dia desses, entre idas e vindas e meu tempo passado no carro, na estrada, caí numa mesa literária que alguém dizia que o não pertencimento era um excelente lugar para estarmos, haja vista que ele nos obrigava a pensar sob outras perspectivas e criar novos lugares. Isso me acompanha e provoca desde então, especialmente depois que li e reli o livro da Giselle Paulino, o “Mestre das Kebradas”.
Nas páginas da própria história, Giselle me fez pensar que há viagens que fazemos quando compramos uma passagem e há outras que começam muito antes, quando alguma coisa dentro do corpo avisa que já não dá para permanecer no mesmo lugar. Tem sido assim comigo. Tem sido assim com ela. Ler o livro foi como me enxergar sob outro - ou outros - olhares.
Penso que essa seja uma das coisas mais bonitas na "reportagem poética sobre aprender com as margens”, subtítulo da obra, que antes de ser um livro sobre Etiópia, Índia, periferias brasileiras ou educação, é um livro sobre deslocamento. Sobre o que acontece quando um corpo sai do lugar - geográfico, social, intelectual, afetivo - e se permite aprender com aquilo que encontra pelo caminho.
Na zona rural da Etiópia, Giselle chega como "estrangeira”. Antes mesmo de descer da caminhonete, é reconhecida pelo corpo: pela pele, pela roupa, pelo cabelo, pela presença. As crianças a chamam de faranji, palavra usada para estrangeira. Naquele instante, o corpo que viajava para observar se torna também objeto de observação. Ela deixa de ser apenas quem olha e passa a ser olhada.Gosto de pensar nessa cena como uma espécie de chave para todo o livro, porque o corpo nunca chega sozinho a lugar nenhum.
Ele carrega memória, origem, classe, gênero, raça, idade, marcas, desejos, medos, privilégios, feridas. Carrega aquilo que sabemos e também aquilo que ainda não sabemos que sabemos. Carrega o lugar de onde viemos e, muitas vezes, o lugar que nos disseram que deveríamos ocupar. E então ele se move. Viajar, nesse sentido, é também desorganizar o corpo.
É permitir que os pés encontrem outro chão, que os olhos encontrem outras paisagens, que os ouvidos escutem línguas que não compreendemos, que a boca experimente sabores desconhecidos, que a cabeça precise abandonar algumas certezas. Em Mestres das Kebradas, a própria autora descreve como a experiência de estar em trânsito fazia seus pensamentos ganharem movimento, ritmo e outra perspectiva. É um livro sobre corpos em trânsito.
O corpo da pesquisadora que atravessa continentes. O corpo do agricultor que permanece na terra e conhece suas estações. O corpo das crianças que correm pelas ruas. O corpo das mulheres que sustentam comunidades. O corpo dos educadores que inventam outras formas de ensinar. O corpo periférico que transforma o próprio território em espaço de aprendizagem. Corpos que não necessariamente viajam para produzir deslocamento.
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Às vezes, permanecer também é uma forma radical de movimento. Seu Biliso, agricultor etíope que praticamente nunca saiu de sua comunidade, conhece profundamente a terra em que vive. Aprendeu seu ofício de geração em geração, testemunhou transformações ambientais, reconhece os sinais da chuva e do vento, planta, colhe, alimenta sua família. Seu corpo carrega um arquivo que não está numa biblioteca.
É aí que o livro começa a mexer numa ideia que parece tão óbvia que quase nunca questionamos: quem tem autorização para ser chamado de mestre?
Porque fomos ensinados a imaginar o conhecimento como algo que acontece principalmente da cabeça para cima.
Na sala de aula, senta-se. Na universidade, pesquisa-se. No livro, lê-se. Na prova, responde-se. Mas e o corpo? O corpo também pensa.
Pensa quando dança. Quando cozinha. Quando planta. Quando constrói. Quando cuida. Quando reconhece uma mudança no tempo. Quando sabe o caminho de volta para casa. Quando percebe que alguma coisa não está bem antes que a cabeça consiga explicar.
O próprio livro desloca a ideia de escola para lugares onde normalmente não a procuraríamos. A “kebrada e suas inteligências” aparecem como salas de aula; uma escola debaixo de um viaduto se transforma em espaço de aprendizagem; jovens trabalham com as mãos na terra; encontros acontecem em rodas, viagens, comunidades e territórios. É uma pedagogia do movimento. E isso importa especialmente quando falamos de diversidade.
Porque diversidade não é apenas colocar corpos diferentes no mesmo espaço. É permitir que esses corpos produzam conhecimento a partir de suas próprias experiências.
É reconhecer que um corpo negro pode carregar saberes que não foram escritos nos livros. Que um corpo periférico conhece estratégias de sobrevivência, criação e comunidade que muitas teorias acadêmicas demoraram décadas para nomear. Que corpos indígenas e quilombolas guardam relações com território, natureza e ancestralidade que não deveriam precisar ser traduzidas para uma linguagem acadêmica para serem consideradas inteligência.
E que existem ainda tantos outros corpos — gordos, velhos, com deficiência, dissidentes de gênero e sexualidade, corpos que fogem aos padrões de produtividade, beleza e comportamento — que passam boa parte da vida sendo ensinados a ocupar menos espaço.
Talvez aprender com as margens seja também aprender a devolver espaço aos corpos. Não apenas deixá-los entrar. Mas deixá-los permanecer. Criar. Falar. Dançar. Discordar. Ensinar. Mudar a arquitetura da sala.
Em uma das passagens mais fortes do livro, a autora questiona por que pessoas capazes de transformar seus territórios não são escutadas e por que a educação reconhece apenas quem carrega um “pedaço de papel” nas mãos. Se aquele território produz tantos saberes, pergunta ela, por que não considerá-lo uma universidade?
Talvez porque reconhecer essas pessoas como mestres obrigue a gente a rever o que entende por inteligência e também porque corpos em movimento são perigosos para sistemas que dependem de corpos imóveis.
Um corpo que se desloca muda de perspectiva. Um corpo que ocupa muda o espaço. Um corpo que dança inventa outra gramática. Um corpo que atravessa uma fronteira descobre que aquilo que parecia natural era apenas uma regra.
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Um corpo que sai da margem e chega ao centro pode descobrir, inclusive, que talvez o centro não seja um lugar tão interessante assim.
Por isso me interessa tanto pensar Mestres das Kebradas a partir da ideia de corpo em trânsito. Porque o deslocamento de Giselle não acontece apenas entre países. Ela se desloca entre posições: de jornalista a pesquisadora, de observadora a participante, de quem pergunta a quem precisa escutar, de quem procura respostas a quem aceita conviver com perguntas.
O livro, inclusive, nasce de uma recusa à ideia de separar completamente a experiência pessoal da investigação. A autora assume que aquilo que sente, vive e experimenta também faz parte do conhecimento que produz.
E talvez isso seja uma provocação importante para qualquer conversa sobre diversidade: não existe conhecimento sem corpo. Todo conhecimento é produzido por alguém.
Por um corpo situado em algum lugar do mundo, atravessado por uma história, uma língua, uma cultura, uma classe, uma raça, um gênero, uma memória.
O problema é que alguns corpos foram historicamente autorizados a falar como se fossem neutros. Outros precisaram passar a vida inteira explicando de onde estavam falando.
Mestres das Kebradas parece dizer: talvez seja hora de inverter esse movimento. Talvez a gente precise sair um pouco do centro. Desaprender algumas coisas. Andar por outras ruas. Sentar em outras rodas. Escutar quem não costuma ser chamado para a mesa.
E, principalmente, prestar atenção ao que nossos próprios corpos estão dizendo enquanto tudo isso acontece.
Porque há uma inteligência que não está apenas na cabeça. Está nos pés que sabem o caminho. Nas mãos que plantam, nos braços que acolhem, na coluna que sustenta, na pele que reconhece, na boca que conta histórias. Nos olhos que aprendem a enxergar de novo. No corpo inteiro quando ele finalmente entende que não precisa permanecer onde lhe disseram que deveria caber.
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Talvez os mestres das kebradas sejam, antes de tudo, mestres do movimento. Gente que aprendeu a se deslocar quando o mundo fechou portas. Gente que inventou caminho onde não havia estrada. Gente que transformou território em escola e experiência em conhecimento. Gente que nos lembra que aprender também pode ser uma forma de sair do lugar. Às vezes, a maior revolução começa justamente quando um corpo decide se mover.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
