Vorcaro é o Epstein brasileiro?
Das festas com 120 mulheres às mensagens sobre um "business" cercado de luxo, sexo e homens poderosos, o caso Vorcaro exige que o Brasil pare de rir da fofoca e comece a investigar para que servia a rede e por que essa é uma questão feminista?
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Entre as muitas coisas que aprendi fazendo curadoria de festivais: quando ela funciona, parece que foi sorte, adivinhação, pacto. E quando não funciona, a gente que se vire para explicar. E não é que curadores sejam videntes - embora haja um tanto de intuição, sim, eu confesso, mas, curar algo é prestar atenção e, principalmente, ouvir.
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Arrisco a dizer que é o mesmo que juntar sinais que ainda parecem dispersos. Escutar o barulho antes da tempestade. Prever a avalanche. Perceber que algo está acontecendo - e vai ficar maior - enquanto quase todo mundo ainda está olhando para o outro lado.
- Bilionário Leon Black não comparece a depoimento no Congresso dos EUA em caso Epstein
- Justiça dos EUA se recusa a anular condenação de cúmplice de Epstein
Em resumo: uma boa curadoria capta o espírito do tempo antes que ele seja nomeado.
Este ano, integrei novamente a equipe de programação/curadoria da FLIPEI - Festa Literária Pirata das Editoras Independentes e, entre as muitas reuniões que temos para pensar quem podemos levar à nossa programação, lutei muito pela mesa que foi coletivamente batizada de “Bilionários e violência masculina: de Epstein nos EUA ao Klein e Vorcaro no Brasil”.
Digo que lutei pela mesa porque não é fácil encontrar concordância rápida numa equipe múltipla, plural e diversa, mas é isso que faz o festival ser ainda mais provocativo. Poder dizer de coisas que ainda não foram ditas. Anunciar o que está por vir.
Àquela altura, juntar esses três sobrenomes numa mesma frase podia parecer provocação. E, obviamente, era. Hoje, um mês depois, talvez eu desejasse que tivesse sido apenas isso. Mas, conforme o noticiário nos esmurra a face diariamente, não foi.
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A mesa que recebeu o título de “Bilionários e violência masculina: de Epstein nos EUA ao Klein e Vorcaro no Brasil” foi composta por Sâmia Bonfin, Gui Terreri (Rita Von Hunty), Paula Nunes, Jessy Dayane e Fabian Kassabian.
Numa das falas, Gui Terreri explicou o que pensa, sobretudo, ao espaço intitulado de “machosfera” é plataformização do ressentimento dos homens, que reúne homens poderosos em que praticam as maiores violências. “A internet, a machosfera, foi se tornando um espaço de negócios para produtores de conteúdo qeu tem como horizonte a produção de uma outra realidade socio politica, que exista uma realidade para homens hétero sexuais brancos e todas as outras posições, sejam de mulheres, crianças, pessoas LGBTQIAPN+, são posições de não sujeito, não humanidade, sem alcançar o status de humanidade”, disse. Gui Terreri
Já Sâmia Bonfim destacou que a misoginia é uma ferramenta fundamental para o mantenimento do capital e da misoginia. Ela lembrou do caso de Samuel Klein, cuja condenação só saiu após 30 anos no país e destacou a urgência de aprovação de políticas de proteção às mulheres.
“É preciso nomear os problemas, entender, criar um caldo social e político e portanto uma lei penal, porque é disso que se trata e tem uma outra etapa, que é a mais difícil, que é a que precisamos mexer, que é no lucro das big techs e no lucro deles no discurso de red pill e de ódio às mulheres. O algoritmo que as big techs criam, os discursos os mantém cada vez mais ricos e as mulheres cada vez mais em risco. o Brasil, nossas terras raras e nossas mulheres e crianças sendo entregues de bandeja aos bilionários”, pontuou.
A mesa aconteceu em agosto e desde então, mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, começaram a revelar algo muito maior do que as festas nababescas de um homem muito rico.
É importante começar justamente aí, porque a maneira como escolhemos contar uma história determina a gravidade que atribuímos a ela.
Num momento em que o Supremo Tribunal Federal derrete diante dos nossos olhos, nos perguntamos: o que o feminismo tem a ver com isso tudo? E por que estou falando de uma festa literária, curadoria e Vorcaro na mesma frase?
Se a história é sobre uma festa de Halloween com DJs famosos, bebida cara, políticos, empresários, 120 mulheres para cerca de 20 homens e celulares recolhidos na entrada, temos uma fofoca extraordinária.
Dá meme, apelido, assunto e figurinha para grupo de WhatsApp, loucura no Twitter/X, curiosidade para saber quem transou com quem, etc. Mas, e se a festa não for a história central, mas a porta que nos leva a um universo muito sombrio e de dominação masculina sobre os corpos de mulheres?
É esse meu ponto desde que pensamos a mesa da FLIPEI e aqui nesta coluna também.
Porque outras mensagens reveladas pela imprensa mostram homens encarregados de encontrar mulheres para eventos de Vorcaro, fotografias sendo enviadas previamente para avaliação, mulheres classificadas pela aparência, estrangeiras trazidas para encontros e festas acontecendo justamente em ambientes frequentados por empresários, políticos e integrantes ou pessoas próximas das instituições mais poderosas do país.
Em uma conversa posteriormente revelada, ao discutir com a então noiva sobre as mulheres com quem mantinha contato, Vorcaro teria dado uma resposta que deveria ter feito o país parar de rir imediatamente: aquilo fazia parte de seu “business”.
É nessa palavra que eu gostaria de permanecer: business. Negócio. Porque se era negócio, qual era o negócio? Essa é uma pergunta muito mais importante do que saber quem estava em qual festa.
É também aí que possamos compreender por que o sobrenome Epstein começou a aparecer ao lado do sobrenome Vorcaro. Não porque Daniel Vorcaro seja, comprovadamente, “o Jeffrey Epstein brasileiro”.
Até aqui, não há base factual para estabelecer essa equivalência. Jeffrey Epstein foi condenado por crimes sexuais e posteriormente acusado pela Justiça americana de tráfico sexual de menores. As investigações e revelações sobre Vorcaro estão em outro estágio e envolvem fatos juridicamente distintos. Mas chamar a comparação de absurda e seguir adiante seria cometer o erro oposto, porque o que começa a aparecer nas mensagens merece uma pergunta muito séria: existia em torno de Vorcaro uma infraestrutura em que mulheres, festas, viagens, luxo e sexo ajudavam a produzir intimidade e acesso entre homens poderosos?
Elio Gaspari foi direto ao ponto ao escrever que as mensagens conhecidas apontam para algo semelhante, em dimensão menor, à circulação de favores sexuais associada a Jeffrey Epstein e é isso que precisa ser investigado. Não a fofoca, mas o método.
É importante lembrar que o modus operandi do nosso STF é conviver, misturadamente, a banqueiros, empresários, ao mais alto escalão do poder no país. O poder econômico se funde ao poder judiciário. A mais alta corte do sistema judiciário brasileiro está presente nas festas do Madame Satã em São Paulo e aqui cabe a pergunta: por que só há homens nessa estrutura e a única mulher presente foi a única a se desculpar?
Por que as mulheres não conseguem compor esse tribunal que ainda atua para defender os interesses ultrapassados que ainda reinam sob o Brasil?
Epstein não se tornou Epstein simplesmente porque era um homem rico que fazia festas cercado de mulheres. Seu caso tornou-se uma das histórias mais perturbadoras sobre poder das últimas décadas porque havia uma estrutura, recrutamento, intermediários, propriedades, viagens e homens muito poderosos circulando naquele universo, com meninas, mulheres e silêncio, sob a benção de dinheiro suficiente para manter tudo funcionando.
Durante muito tempo, o fascínio pelos nomes famosos que apareciam ao redor de Epstein quase nos fez esquecer o fundamental: a questão nunca foi quem estava numa fotografia.
Penso que a questão central deveria ser a pergunta: para que servia a rede? É exatamente por isso que o caso Vorcaro precisa ser lido agora com seriedade. Porque os elementos conhecidos não provam a existência de um “Epstein brasileiro”.
Mas são suficientes para exigir que perguntemos se estamos olhando apenas para festas privadas de um banqueiro excêntrico ou para uma estrutura de poder que utilizava festas, mulheres e luxo como instrumentos de produção de proximidade.
Essa diferença é gigantesca e o que nos leva a um passo mais próximo da compreensão é intimidade. Poder não se compra apenas com dinheiro entregue dentro de uma mala, mesmo porque essa é a versão mais rudimentar da corrupção. Poder se constrói e conquista oferecendo experiências, que, sabemos, Vorcaro fazia muito bem: viagens, jantares, camarote, aviões, casas luxuosas, festas onde ninguém faz fotos, noites que não existiram oficialmente e ambientes em que homens lidos como importantes dividem coisas que não poderiam ousar dividir numa reunião formal de trabalho.
Dito isso, é evidente que Vorcaro não comprava decisões, mas proximidade e constrangimento suficiente para que, diante delas, hesitassem e escolhessem a confiança, o acesso, a influência. Arrisco a pontuar que é justamente por isso que mulheres não podem aparecer nessa história como decoração de festa.
Quando leio “120 mulheres e 20 homens”, não enxergo apenas uma festa, mas concebo toda uma arquitetura que coloca homens ao centro e mulheres distribuídas ao redor. O dinheiro garantindo a logística impecável da operação, intermediários fazendo a seleção das mulheres, como quem escolhe o cardápio da festa, seguranças garantindo o perímetro e o sigilo e celulares confiscados, impedidos de registrar o que quer que fosse - a fim de eliminar qualquer prova futura.
Está dada a cena: homens poderosos compartilhando uma experiência à qual quase ninguém mais teria acesso.
Isso não prova, evidentemente, crime sexual. Mas deveria produzir jornalismo. Muito jornalismo. Jornalismo dos bons. Quem eram essas mulheres? Quantos anos tinham? Como eram recrutadas? Onde? Quanto recebiam? Quem pagava? Qual a forma de pagamento? Quem escolhia? Que informações recebiam antes de chegar? Existiam orientações? Havia profissionais do sexo? Modelos? Convidadas? Biotipo? Havia mulheres vulneráveis? Imigrantes? Havia estrangeiras trazidas especificamente para esses encontros? Quais eram as condições oferecidas? Tinham liberdade para sair? Tinham liberdade para dizer não?
E, sobretudo: o que os homens convidados recebiam além de uma festa?
É preciso fazer essas perguntas sem transformar as mulheres em culpadas pela própria história, obviamente. Ser profissional do sexo não significa ser vítima de exploração sexual, da mesma forma que aceitar dinheiro não elimina consentimento.
Usar roupas curtas, viajar, beber, transar ou frequentar festas de homens ricos não transforma mulher alguma em prova de crime. Justamente por isso precisamos parar de tratá-las como “as meninas da festa”. Elas são pessoas. E são potencialmente testemunhas fundamentais para compreendermos que tipo de estrutura existia ali.
Porque existe outro problema quando transformamos tudo em fofoca sexual: os homens poderosos desaparecem. As mulheres viram história. Os homens continuam sendo autoridades. É um truque antigo. A mulher ganha nome, fotografia, profissão, Instagram.
O homem ganha a palavra “convidado”. E todo mundo segue, como se nada tivesse acontecido. Sobram os memes de apenas 24h e uma figurinha perdida numa conversa de WhatsApp.
Por isso, insisto, é importante voltar ao que discutimos na FLIPEI: bilionários e violência masculina. Existe uma pedagogia da masculinidade atravessada pelo dinheiro que ensina alguns homens a confundir poder com disponibilidade, de tempo, funcionários, espaços, autoridades, mulheres e corpos.
Fato é que quanto mais dinheiro alguém possui, menos precisa escutar a palavra “não” e chega um momento em que talvez comece a acreditar que ela deixou de existir. O bilionário não compra apenas coisas, compra condições, sobretudo de não esperar, de não explicar, não entrar pela mesma porta que todo mundo, telefonar diretamente para quem decide, ter alguém encarregado de conseguir aquilo que deseja, construir um ambiente inteiro ao redor das próprias vontades, e, eventualmente, colocar muitas pessoas entre seus atos e consequências.
É por isso que ninguém constrói sozinho um mundo no qual se sente intocável: é preciso alguém que alugue o avião, reserve o hotel, encontre as mulheres, mande as fotografias, faça a lista, organize os carros, controle a porta, recolha os celulares, convide a autoridade, faça a ponte, que veja, que saiba. E muita gente que decida que aquilo não lhe diz respeito. Esse talvez seja o verdadeiro patrimônio dos muito ricos. Não os bilhões, mas a rede.
Aqui a história de Vorcaro se torna ainda mais relevante. Porque as mensagens reveladas não falam apenas de mulheres, também de proximidade com integrantes e pessoas ligadas a alguns dos centros de poder do país, inclusive, essas duas histórias não deveriam ser automaticamente misturadas, mas também não deveriam ser investigadas como se habitassem universos completamente diferentes.
Se mulheres faziam parte do “business”, precisamos saber o que “business” significava. Se festas ajudavam a criar proximidade, precisamos compreender proximidade com quem e para quê. Se pessoas poderosas frequentavam esses ambientes, precisamos saber o que sabiam sobre a estrutura que os sustentava.
Nada disso autoriza condenações antecipadas, mas autoriza perguntas. Algumas histórias só se tornam escândalos nacionais porque alguém insiste em fazer a pergunta seguinte.
É aí que a comparação com Epstein deixa de ser um apelido sensacionalista e passa a ser uma advertência jornalística.
Não procure apenas o homem, encontre a rede. Não pergunte apenas o que aconteceu na cama, siga o dinheiro - como diriam nos filmes - e pergunte quem pagou pelo quarto, quem providenciou a mulher, organizou a viagem, estava na sala ao lado, ganhou intimidade, influência e quem passou anos sabendo sem considerar que aquilo merecia ser contado.
O dinheiro não torna necessariamente a violência invisível, mas faz algo muito eficiente: permite que muita gente veja e tenha bons motivos para fingir que não viu.
Foi por isso que aquela mesa da FLIPEI me voltou à cabeça agora, já que não previmos o futuro, no entanto, fizemos algo muito mais simples e talvez mais importante: prestamos atenção ao presente.
Curadoria também é isso: perceber que acontecimentos aparentemente separados pertencem à mesma conversa. Epstein não é Klein. Klein não é Vorcaro. E Vorcaro não deve receber o rótulo de “Epstein brasileiro” como uma sentença antecipada.
Mas as estruturas de poder que aparecem nessas histórias podem - e devem - ser comparadas. Porque talvez estejamos diante de uma história muito maior do que a festa que virou meme. E, se estivermos, o maior erro que podemos cometer agora é tratá-la como entretenimento. A pergunta não é quantas mulheres havia naquela festa. A pergunta é por que elas estavam ali. Não é quem dormiu com quem. É quem proporcionava o quê a quem. Não é se Daniel Vorcaro é o Jeffrey Epstein brasileiro.
É se estamos dispostos a investigar seriamente aquilo que tornou Jeffrey Epstein possível antes de precisarmos descobrir, tarde demais, que já conhecíamos todos os sinais.
Porque talvez o verdadeiro escândalo nunca seja aquilo que acontece quando ninguém está olhando. Talvez seja aquilo que acontece quando todo mundo está olhando - e ninguém acha conveniente enxergar.
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