Renato de Faria
Renato De Faria
Filósofo. Doutor em educação e mestre em Ética. Professor Psicanalista.
FILOSOFIA EXPLICADINHA

Em defesa do cinismo!

Preserve sua identidade sem se submeter ao trabalho, às expectativas e aos discursos impostos

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Enzo, nunca cometa o erro de trocar o cinismo pela hipocrisia. Essa é a primeira regra da vida.

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Sei que você anda com esse negócio de pecado na cabeça. Mas não perca tempo procurando impurezas fora de si. Limpar as coisas por dentro já vai consumir grande parte da existência. É uma tarefa inglória, daquelas que nunca se concluem.

Vejo você cultuando o trabalho como caminho para o desenvolvimento pessoal. Gosto de você, mas não das ideias que anda defendendo. Somos seres complexos. A vida não se resolve como prometem os livros de meditação, autoajuda ou yoga para aprimorar o design da consciência.

Meu amigo, não fale besteira. A preguiça não merece o desprezo que você lhe dedica. Ela humaniza. É uma forma de sensibilidade.

Não sei quando, para você, o trabalho deixou de ser obrigação e passou a ser realização pessoal. Conseguiram a maior das alienações: transformaram o chicote em prazer. Foi aí que tudo desandou. Os devotos do trabalho aprenderam a sentir satisfação no sofrimento contínuo. Em resumo: um bando de masoquistas. Não caia nessa.

Esse gozo coletivo me parece suspeito. Mentem na cara dura. Em cada curso, aplicativo ou palestra motivacional, sustentam um sistema que depende de gente como você: inocentes dos dias úteis. Sabem que precisam colonizar o desejo para manter a máquina funcionando.

Reduzem a vida à performance.

Afinal, quem experimenta a beleza de viver sem esse compromisso permanente com a produtividade dificilmente aceita voltar à prisão.

Lembre-se do que disse o demônio: a hipocrisia é meu pecado favorito. E faz sentido. Ela é uma mentira destrutiva, um palco que conduz qualquer ator à ruína.

Ela não passa de um subproduto do mundo corporativo, esse lamaçal que transforma nomes em siglas para adoçar a dor dos trinta e cinco anos de contribuição ao INSS. É quando a empresa diz: "somos uma família", enquanto o RH trabalha como cartório de divórcios.

Esse vício fundou a bolsa de valores só para ter onde morar. Deu ao abatedouro o nome de plano de carreira. Se Nelson Rodrigues estivesse vivo, talvez o definisse como a educação das más intenções.

Enquanto isso, o cinismo foi sistematicamente injustiçado. Como forma de honestidade narcísica, ele não renuncia ao desejo nem diante da obrigação de vender parte da própria vida a mentirosos.

O cínico desenvolve imunidade contra a cultura corporativa. É uma maneira de fechar o corpo contra a maldição do burnout. Oxalá nos proteja.

O cinismo é a única forma de enfrentar a exploração contemporânea, pois devolve o poder às mãos de quem constrói o mundo. É exatamente por isso que a sociedade de mercado o odeia, pois ele desvela o que realmente importa. Uma virtude que ensina a distinguir o conteúdo da embalagem.

Lógico que os sacerdotes da hipocrisia, naturalmente, chamarão isso de pecado.

Enquanto a hipocrisia precisa de plateia, o cinismo precisa apenas de liberdade.

É uma das últimas virtudes possíveis, pois não promete melhorar o mundo. Só funciona como uma armadura para atravessar os dias úteis, preservando a alma do castigo laboral. O trabalho só é capaz de salvar a vida daqueles que já perderam mesmo.

O cínico, como sujeito ético, diferencia o rosto do crachá. Talvez seja por isso que ele é uma ameaça. Em um mundo apaixonado por cosméticos e preenchimentos labiais, essa virtude só poderia mesmo receber o nome de heresia.

Enzo, meu amigo, o cinismo nos ensina a preservar o que temos de melhor e a não entregar isso para qualquer um.

E para terminar, três lembretes:

Guarde uma parte de você onde nenhuma empresa, igreja, partido ou algoritmo consiga entrar.

Tenha sempre um quarto sem conexão com a internet para nenhum grupo de whatsapp da empresa te encontrar.

Mantenha seu quintal sem testemunhas e verá que dele vai brotar aquilo que importa de verdade. Quem perde esse lugar pode ganhar o mundo inteiro e, ainda assim, terminar estrangeiro dentro da própria pele.

Continuaremos a conversa lá no Boteco do Chicão, na próxima reunião da Academia Etílica de Copos e Letras.

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Até lá, cuide-se!

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