Renato de Faria
Renato De Faria
Filósofo. Doutor em educação e mestre em Ética. Professor Psicanalista.
FILOSOFIA EXPLICADINHA

Como os algoritmos substituem nossa capacidade de julgar

Somos seres analógicos. Nossa existência não se reduz a uma sequência de informações compiladas em dígitos

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A suposta contradição entre real e virtual não cabe mais à sociedade moderna. Não apenas porque os processos virtuais fazem parte do dia a dia, mas principalmente porque a realidade humana sempre foi virtual.

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A palavra, a linguagem e o pensamento lançaram o ser humano para além da natureza. Inauguramos um não-lugar. Em outras palavras, criamos algo que não existia fisicamente, mas começou a produzir efeitos e sentidos na própria realidade, na materialidade dos corpos.

O virtual é uma extrapolação do espaço físico; aquilo que não existe materialmente, mas habita outro lugar, outro espaço. Nesse sentido, a consciência, a palavra, a linguagem e o universo simbólico são virtuais que nos tornam humanos.

Somos uma espécie híbrida, dividida e atravessada pelo físico e pelo virtual desde que fabricamos os primeiros instrumentos. Em 2001: Uma Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick apresenta a cena emblemática de um primata que descobre, em um osso, uma possibilidade de ação que extrapola sua função material.

A diferença entre o primata e a fabricação desse primeiro instrumento é maior do que a diferença entre esse instrumento e uma nave espacial. Daí em diante, o virtual passou a fazer parte de nossas vidas.

Habitando esse não-lugar, tivemos de criar uma reflexão sobre uma nova morada que desse algum sentido para essa liberdade criativa. Chamamos isso de ethos, isto é, ética. Em grego, significa caráter, modo de ser e hábito. Alguns estudiosos da filologia também apontam um sentido mais antigo relacionado à ideia de habitação ou morada.

Para aqueles que não possuem um lugar natural, foi preciso inventar, por meio da liberdade de escolha e de decisão, um espaço no qual a vida pudesse ser boa. Nasce aí a ética como uma extensão da virtualidade.

É por isso que o dilema ético que enfrentamos atualmente não se trata de um suposto antagonismo entre real e virtual. Essa disputa nunca existiu. O problema é de outra ordem: trata-se da relação entre o analógico e o digital. Aqui já não estamos diante de algo que amplia nosso espaço simbólico, mas, talvez, de uma drástica redução daquilo que construímos ao longo de milhares de anos como Homo sapiens.

Somos seres analógicos. Não apenas porque possuímos um corpo, mas porque nossa existência não se reduz a uma sequência de informações compiladas em dígitos. Pensamentos e afetos não são reduzidos a zeros e uns. Pensamos por aproximações e metáforas, inaugurando intervalos entre o que sentimos e o que conseguimos dizer, entre o que sabemos e o que decidimos. É nesse intervalo que a liberdade encontra morada. O digital tenta reduzir essa complexidade.

Talvez a transformação mais profunda do nosso tempo seja a disposição crescente de entregar ao digital tarefas que pertenciam ao exercício da consciência. Pouco a pouco, terceirizamos não apenas atividades, mas também decisões. Já não escolhemos o caminho para voltar para casa; seguimos a rota sugerida. Já não procuramos um restaurante; aceitamos a recomendação. A música que ouvimos, os filmes que assistimos, as notícias que lemos, os livros que compramos, a pessoa com quem talvez nos apaixonemos: tudo chega até nós mediado por sistemas de recomendação que antecipam nossos gostos antes mesmo que os formulemos.

Cada decisão parece pequena. Mas o problema não está em uma escolha isolada, mas no hábito. Afinal, foi justamente do hábito que nasceu o ethos. Quando deixamos de exercer continuamente a faculdade de escolher, também deixamos de cultivar a capacidade de julgar. Aquilo que Hannah Arendt chamou de vida do espírito.

A filósofa compreendeu que o pensamento não é uma máquina de produzir conhecimento, mas uma atividade que interrompe os automatismos do mundo. Pensar é suspender o fluxo das respostas prontas. É demorar-se diante de uma pergunta. Julgar não significa apenas aplicar regras; significa colocar-se diante de uma situação singular sem que ninguém possa decidir em nosso lugar. É por isso que a faculdade de julgar é inseparável da liberdade.

Há um perigo quando seres humanos aceitam viver sem o virtual do pensamento. Não porque tenham perdido a inteligência, mas porque se acostumaram a delegar o trabalho do julgamento a sistemas digitais que calculam com velocidade incomparavelmente maior do que a nossa. Quanto mais eficiente se torna a recomendação, menos necessária parece a deliberação. A consciência corre o risco de transformar-se numa simples confirmação daquilo que já foi previsto.

As consequências ultrapassam a esfera privada. Uma sociedade que perde o hábito de julgar torna-se vulnerável não apenas ao mercado, mas também à política. A mesma lógica algorítmica que organiza o consumo organiza a circulação da informação, intensificando emoções que transformam o debate público em um sistema de estímulos permanentes.

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Eis o paradoxo: a espécie que inventou o virtual para escapar do determinismo da natureza pode agora utilizar o digital para construir um novo determinismo que não está relacionado com a biologia, mas com a estatística. Um mundo no qual nossas escolhas continuam existindo, mas são cada vez mais antecipadas, conduzidas e administradas. Um mundo em que permanecemos livres apenas na medida em que confirmamos aquilo que o algoritmo digital já esperava de nós.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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