Renato de Faria
Renato De Faria
Filósofo. Doutor em educação e mestre em Ética. Professor Psicanalista.
FILOSOFIA EXPLICADINHA

Burnout e a violência da Microgestão

O problema é que talvez a eficiência da vida moderna venha acompanhada de alguns efeitos colaterais como a depressão, a ansiedade e o burnout

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O sociólogo Max Weber definiu a racionalização como uma característica da modernidade. Ao contrário do que pode parecer, não significa o aumento da reflexão ou o incentivo de nossa capacidade inata de pensar. O termo ganha outro sentido sociológico na medida em que significa uma especialização em administrar, com eficiência, o alcance de resultados.

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A modernidade se caracterizaria, portanto, na gana por racionalizar a vida. A partir dela, tudo deverá ser metrificado, calculado, medido e administrado, tendo em vista a maximização dos resultados. É a era da eficiência cada vez mais eficiente.

Um leitor desacostumado às ideias weberianas pode até afirmar que a busca por resultados sempre esteve presente na condição humana e, por isso, não seria uma exclusividade de nosso tempo. Porém, a questão não está na busca, mas como nos especializamos, por meio de técnicas cada vez mais elaboradas, em administrar o caminho que nos levará até algum objetivo, retirando dele qualquer componente de um suposto erro ou desvio.

Uma vida racionalizada requer técnicas apuradas de controle, quantificação e parâmetros de ação, transformando qualquer atividade em uma espécie de curso de gestão da vida ou otimização do tempo. O problema é que talvez a eficiência racionalizante da vida moderna venha acompanhada de alguns efeitos colaterais como a depressão, a ansiedade e o burnout, só para citar alguns exemplos.

Como um excelente pensador – não à toa chamado de clássico – Max Weber também foi capaz de diagnosticar esse “efeito colateral” da modernidade. E a ele deu o nome de “desencantamento do mundo”. Com a urbanização pós-revolução Industrial e a administração moderna começaríamos a experimentar um certo declínio das forças afetivas da vida. Quando tudo passa a ser assunto da administração e da técnica, o viver, como impulso desejoso e afetivo, passa a ser visto como um mapa de GPS, e não como uma aventura de descobrimento e surpresas.

Esse processo de racionalização extrema pode ser ilustrado pela atmosfera do filme Alphaville (1965), de Jean-Luc Godard. Na cidade futurista governada pelo computador Alpha 60, a lógica da eficiência e do cálculo substitui completamente as dimensões afetivas da vida humana.

Palavras associadas ao sentimento — como amor, poesia ou tristeza — são banidas do vocabulário, pois não se encaixam no regime da utilidade e da previsibilidade.

Assim como na racionalização descrita por Max Weber, Alphaville representa um mundo onde a vida foi inteiramente administrada por técnicas de controle e cálculo, transformando a experiência humana em um sistema operacional que elimina o erro, o desvio e a emoção. O resultado é precisamente o desencanto do mundo: uma sociedade funcional e eficiente, mas profundamente esvaziada de sentido, na qual o impulso imprevisível da vida, aquilo que escapa à gestão, passa a ser tratado como uma ameaça ao próprio sistema - apenas como ilustração: seria essa a vida levada nos condomínios que, de forma cuidadosa ou descuidada, resolveram se batizar com o mesmo nome?

Observamos – alguns atônitos, outros com um certo gozo - a cultura corporativa contemporânea desenvolvendo uma técnica ainda mais refinada dessa mesma racionalidade: a microgestão. Trata-se de uma verdadeira obra-prima administrativa. Afinal, se um gestor pode acompanhar o trabalho de dez pessoas, por que não acompanhar cada clique, cada respiração e, se possível, cada pensamento delas?

A microgestão parte de um princípio admiravelmente otimista sobre a natureza humana: ninguém é capaz de fazer nada sozinho, mas todos podem funcionar perfeitamente se supervisionados a cada 30 segundos. O gestor torna-se então uma espécie de coreógrafo da produtividade, garantindo que cada movimento seja executado dentro do compasso exato do planejamento estratégico — ainda que, para isso, seja necessário interromper continuamente o próprio trabalho que supostamente deveria ser realizado.

É por isso que vivemos uma efervescência de gestores e de gestões. Essa atividade materializa uma função que se especializa em acompanhar processos, não importando se eles são para produzir garrafas, emissão de CO2, automóveis, vacinas ou cultura. Basta que exista alguém acompanhando a esteira de produção, com alguma especialização em especializar a produtividade, pouco importa o quê.

A autonomia, herança de um tempo em que ainda se acreditava que pessoas poderiam ser responsáveis por aquilo que fazem, dá lugar a algo muito mais sofisticado: o trabalhador permanentemente acompanhado, orientado e gentilmente lembrado, por múltiplos canais de comunicação, de que está livre para agir — desde que exatamente da maneira previamente definida.

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Se levado ao seu grau mais perfeito, o sistema talvez consiga realizar o sonho secreto da racionalização moderna: uma organização onde ninguém erra, ninguém decide e, portanto, ninguém corre o risco de produzir algo inesperado. Tudo funcionará de maneira impecavelmente doente e desencantada.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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