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A formação da consciência é um mistério, embora muita gente ainda trate o tema como se fosse um “dom natural”, uma espécie de voz interior pronta desde o nascimento. Durante muito tempo, predominou essa ideia confortável.
É justamente aí que entra Karl Marx, rompendo com essa visão ao mostrar que a consciência não nasce pronta, nem é um atributo isolado do indivíduo. Ela é produzida historicamente, nas relações sociais e, sobretudo, nas condições materiais de vida.
Durante a escrita de Marx, o entusiasmo com o liberalismo era a regra. A narrativa era simples e sedutora: a humanidade teria superado a escravidão antiga, depois o feudalismo, e finalmente chegado ao capitalismo, uma espécie de linha de chegada da história — esse suposto ápice da liberdade, onde cada indivíduo seria livre para vender sua força de trabalho a quem quisesse - só pensa assim quem nunca precisou de vender trabalho.
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No modo de produção escravocrata, o indivíduo era propriedade direta de outro. No feudalismo, o servo estava preso à terra e às obrigações com o senhor. Já no capitalismo, o trabalhador é juridicamente livre. E aqui está o truque: ele não é mais propriedade de alguém, mas precisa vender sua força de trabalho para viver.
Porém, no caso do trabalho, adivinha quem acaba indo junto com o produto? O trabalhador! Afinal, diferentemente das outras mercadorias, não é possível separar força de trabalho e trabalhador.
Além disso, não é próprio trabalhador que estipula o valor justo de sua mercadoria. Ao contrário dos carros, das tvs ou dos smartphones, o valor do trabalho é estipulado por quem compra, e não por quem vende. Estranho e conveniente, não? Os produtos são precificados por seus vendedores, mas isso não inclui um específico: a força de trabalho. Como dizem por aí: trabalhe enquanto eles lucram.
Talvez seja nesse ponto que nasça essa obsessão contemporânea com “mentalidade” — ou, para usar o termo da moda, “mindset”. A ideia de que basta ajustar a forma de pensar para transformar a realidade material. Como se uma diarista pudesse pagar o aluguel apenas cultivando pensamentos positivos entre uma faxina e outra ou o trigo produzisse mais pão a partir de uma mudança de espírito.
Para Marx, isso não passa de ideologia — no sentido mais preciso do termo: um conjunto de ideias que mascara as condições reais de existência. A liberdade, portanto, não é um estado psicológico, nem um prêmio para os mais motivados. Ela só pode existir concretamente, nas condições reais do cotidiano. Sem isso, vira discurso bonito para tornar suportável o que, no fundo, continua sendo exploração.
Faça a conta crua — sem “mindset” salvador — na vida de um trabalhador comum. O dia dele já vem praticamente loteado: 9 horas de trabalho, 3 de transporte (morar perto do emprego é um luxo quase artístico) e 8 horas de sono, porque o corpo simplesmente desliga se for exigido além disso. Pronto: 20 horas comprometidas. Sobram 4. Nessas 4 horas cabem banho, comida, resolver problemas da vida, talvez cuidar de alguém, enfrentar filas, existir minimamente.
Mas é nesse espacinho que esperam que ele “invista em si”, estude, leia, se qualifique, empreenda — quem sabe aprenda mandarim antes de dormir. Será que não estuda porque não ajustou a mentalidade de prosperidade? Porque “não tem cultura”? Ou será que a realidade material simplesmente não dá margem para esse tipo de fantasia meritocrática? Essa é a reflexão proposta pelo materialismo.
Um trabalhador que passa anos acreditando que seu salário baixo é culpa exclusivamente dele — falta de esforço, de qualificação, de “mindset” aderiu a uma consciência moldada pela ideologia dominante. Agora imagine que ele começa a perceber que seus colegas enfrentam exatamente as mesmas condições, apesar de trajetórias diferentes. Que o problema não é individual, mas estrutural. Esse deslocamento não acontece por iluminação divina — ele emerge da experiência concreta compartilhada.
É nesse movimento que surge a chamada consciência de classe: quando o indivíduo deixa de se ver como um caso isolado e passa a se reconhecer como parte de uma coletividade com interesses comuns. Não é automático, nem inevitável — e muito menos confortável. Afinal, é bem mais fácil acreditar que tudo depende de você – baboseira liberal ou meritocrática - do que encarar estruturas inteiras que não foram feitas para mudar facilmente.
E essa consciência não nasce apenas na cabeça, como uma entidade espiritual. Ela passa pelo corpo. Ela é prática. Surge por meio do cansaço acumulado, do transporte lotado, da dor física ao final do dia. Está no braço que já não aguenta mais repetir o mesmo movimento, nas costas que doem, no tempo que falta para viver fora do trabalho. A consciência não é uma entidade que controla o corpo, ela é o resultado do próprio corpo. Ela não é só pensamento — é experiência vivida.
Aí que Karl Marx deixa de ser apenas um crítico do capitalismo — como muitos gostam de reduzi-lo, talvez para não ter que levá-lo tão a sério — e se revela um pensador central para entender quem somos.
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A questão não é só econômica, é existencial: nossa forma de pensar, sentir e interpretar o mundo não nasce do nada, nem de um suposto “interior puro”. Ela é moldada pelas relações que vivemos, pelo trabalho que realizamos e pelas condições concretas que nos atravessam.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
