Renato de Faria
Renato De Faria
Filósofo. Doutor em educação e mestre em Ética. Professor.
FILOSOFIA EXPLICADINHA

Enzo, precisamos falar sobre o grupo Red Piu-piu

É o fenômeno da virilidade declaratória. Muito anúncio, bastante ruído, mas com pouca resistência

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Enzo, meu amigo. Se tem uma hora para se salvar, acredito que o momento é esse. Ando muito preocupado com as coisas que você anda dizendo por aí. Por esse motivo resolvi escrever esta carta. Quem sabe você não anima de dar uma passada lá no Boteco do Chicão.

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Você anda muito estranho. Das outras vezes, a preocupação era apenas com algum rumo de sua vida. Agora, ela escalou de uma forma exponencial. Aliás, escalar é uma coisa sobre a qual precisamos conversar de forma séria, pois você ficou assim depois que resolveu subir a montanha com aquele pessoal que o Bigorna chama de Ladiesndários.

Desde então você não apareceu no churrasco para trocar uma ideia, tomar uma cerveja e falar mal da vida alheia — que, convenhamos, sempre foi nossa forma mais barata de terapia.

Na semana passada alguém me mostrou uma foto sua. Barba por fazer, olhar sério e uma pose de braços abertos no topo de uma montanha como se estivesse recebendo os Dez Mandamentos. Enzo, isso não pode ser sério. Não é uma travessia no deserto, nem uma trilha no Himalaia. É só um bando de homem subindo um morro com a camisa suada, pagando caro para sofrer um pouco e classificando isso como “jornada interior”.

Meu amigo, isso é apenas um coffee break com vista panorâmica, um piquenique com transcendência gourmet, coisa de Chapeuzinho Laranja esperando o lobo mau. Uma espiritualidade de trilha sinalizada, com hidratação isotônica e iluminação emocional.

Sei que você não quer conversar sobre isso. Afinal, como disseram por aqui, o que acontece na montanha fica na montanha. Segredos de Brokeback Mountain versão corporativa, com certificado de masculinidade ao final do percurso e abraço coletivo. Vai ficar fazendo cosplay de macho até quando?

Sei que você tem esse direito, mesmo sendo seu amigo e querendo muito te ajudar. Porém, aprendi, depois de 20 anos de análise, que ninguém ajuda o outro. Cada um é responsável por si — e, às vezes, responsável até pelo próprio vexame.

Mas algumas coisas estão me preocupando profundamente. Só queria expressar isso, na condição de um velho amigo. Não pega bem você ficar falando por aí sobre a importância do Macho Alfa. Você sabe que a partícula alfa é aquela de baixo poder de penetração? Ela tem fama de forte, energética, radioativa — mas com um detalhe constrangedor: ela não consegue atravessar uma folha de papel.

Veja a ironia científica da vida: muito barulho, muita pose, muita energia… e pouca capacidade de ir fundo. Talvez por isso alguns homens gostem tanto de se autodeclarar “alfa”: compensa no discurso aquilo que, na prática, às vezes morre — ou amolece — antes de atravessar o primeiro obstáculo.

É o fenômeno da virilidade declaratória. Muito anúncio, bastante ruído, mas com pouca resistência. Enzo, diga a verdade, você está virando Red Piu-Piu? Tenho que te falar um negócio. A tal da masculinidade armada, rígida e cheia de regras duras talvez sirva como um mecanismo de defesa para proteger alguns afetos incômodos e algumas coisas que não estejam mais tão duras assim. Grandes monstros para esconder pequenos problemas, sabe?

E isso não é uma coisa que estou tirando da minha cabeça. Isso é Freud, meu amigo. O ego é um contador de histórias especializado em disfarçar fragilidade com fantasia heroica. Quando o sujeito se sente pequeno, ele não admite. Ele compensa. Ele hipertrofia. Ele cria uma versão musculosa de si mesmo — emocionalmente falando. Chama-se compensação.

Sabe aquele sujeito que compra uma caminhonete gigante para circular sozinho no trânsito? Ou aquele que precisa repetir vinte vezes que é líder, dominante, provedor, alfa, macho raiz, macho premium, macho 2.0? Então. Grandes compensações que caracterizam pequenos Red Piu-pius.

Existe um mecanismo de defesa chamado formação reativa: você exibe exatamente o contrário daquilo que teme ser. O sujeito que morre de medo da própria vulnerabilidade se transforma em pregador da invulnerabilidade. O homem que não sabe lidar com rejeição se transforma em missionário do desprezo. O sujeito que teme não ser desejado se transforma em fiscal da sexualidade alheia. Mais ou menos assim.

A masculinidade não nasce do excesso de poder. Ela nasce do excesso de medo, Enzo. É por isso que essa galera precisa andar em bando. Não é o lobo solitário, mas ovelhas que tentam se proteger no colo de seus iguais. Ressentimento transformado em “valor de mercado masculino”. Você está dando bandeira demais! Como diria minha avó: as anáguas estão aparecendo.

Enzo, para ser um cara legal, vou pegar leve: isso beira a infantilidade. Você já está velho para ficar juntando gente para brincar de Detetives do Prédio Azul.

Veja bem, não estou dizendo que você não possa ter amigos, ter grupo, ter tribo ou confraria, como gostam de dizer agora. O problema não é andar junto. O problema é precisar do grupo para sustentar uma fantasia. Quando o sujeito só se sente homem cercado por outros homens repetindo as mesmas frases, algo ali não está firme. É como bicicleta com rodinha: ajuda no começo, mas constrange depois de certa idade.

Pare com esse negócio de masculinidade inflada, meio balão de festa: grande, colorida, vistosa, mas dependente de ar constante. Se parar de soprar, murcha. Se encostar em qualquer ponta de realidade, estoura. Não aguenta pressão emocional, não suporta frustração prolongada, não tolera rejeição. É força de fachada, musculatura de espuma, coragem terceirizada para discursos prontos.

Por isso eu te digo, com carinho e um pouco de ironia terapêutica: você não precisa de montanha, de mantra, de mentor, de missão secreta ou de ritual masculino. Você precisa de uma imersão tipo Buteco Experience!

E é exatamente por isso que eu quero te fazer um convite.

Hoje à noite estaremos reunidos em um lugar muito mais honesto do que qualquer montanha iluminada por metáforas: o Boteco do Chicão. Nada de transcendência, nada de coaching existencial, nada de juramento masculino. Só mesa de plástico, cerveja gelada e um torresmo que estala como filosofia prática. O Bigorna já disse que vai, disposto a falar bobagem com autoridade científica. O Quarta-feira prometeu aparecer com aquele pessimismo elegante que ele chama de realismo. E o Nicotina, como sempre, estará lá, fumando devagar, refletindo sobre a vida como se cada tragada fosse uma tese de doutorado em sobrevivência.

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Então, meu amigo, desce dessa montanha simbólica. Guarda o uniforme de guerreiro espiritual, larga o manual do macho alfa e vem encontrar a gente onde a vida acontece de forma menos épica, porém muito mais autêntica.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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