Renato de Faria
Renato De Faria
Filósofo. Doutor em educação e mestre em Ética. Professor.
Filosofia Explicadinha

Já não há mais moinhos como os de antigamente

A pobreza de um mundo sem moinhos de vento

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Dom Quixote é um clássico no melhor sentido da palavra. Uma literatura de vida dentro de uma obra escrita. Tristeza o seu esquecimento como projeto da modernidade tardia que chamamos de pós-modernidade. O encontrei pela primeira vez na biblioteca de uma escola pública. A bibliotecária, que ainda tinha memórias de seu povo exilado no Brasil, trazia os horrores da 2ª Guerra Mundial marcados em sua pele. Seus pais conseguiram fugir dos campos de concentração, mas alguns familiares ficaram entregues à barbárie de gente que até lia palavras, mas era incapaz de pensar sobre a complexidade do mundo.

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Esta mulher, cujo nome não guardo mais, também marcou minha pele com seu gesto nobre. A
atitude de me entregar um livro e dizer: — Leia. Você vai gostar.


No gesto, a sensibilidade de alguém que, observando um menino de periferia, apontava um
caminho de elegância existencial: a literatura. Sabedora de que essa seria uma forma possível
de transcendência, tanto metafísica quanto material.


Talvez hoje eu seja professor por esse gesto. E a minha insistência com a beleza das palavras venha dessa fugitiva da 2ª Guerra cujo nome me escapa, mas cujas mãos estendidas e abertas à subjetividade alheia me marcaram para sempre. Olhar para minha coleção de livros que teimo em chamar de biblioteca — sim, ainda tenho essa coisa antiquada — e enxergá-la ali, rebatizada pela obra que ela me instigou a ler, Dom Quixote, de Cervantes, me coloca diante de um espelho biográfico.


E com isso carrego um pecado. Não devolvi o livro. Fiquei com ele do Ensino Fundamental ao Doutorado. E toda vez que olho para ele me lembro de carregar a beleza e o peso de viver. Entre outras coisas, as palavras de um espanhol, do outro lado do mundo, me salvaram. Mas também, ao levá-lo comigo, talvez tenha privado outros tantos de conhecê-lo. Desde Lacan, a dualidade de ser sujeito que nos acompanha.


Com ele me protegia dos tiros que, às vezes, terminavam o futebol da rua mais cedo. Nele me refugiava quando o tráfico fechava a escola e até me inspirava quando faltavam os recursos materiais para uma vida de criança. A história de alguém que se negava à pobreza de seu tempo, do outro lado do mundo, me ajudava a enfrentar a pobreza real, herança latino-americana.


É por isso que precisamos de alguns moinhos de vento para viver. Lutar contra eles é fundamental. O problema é que o nosso tempo decidiu desmontá-los.


A cultura contemporânea parece ter substituído os moinhos por trecos brilhantes. Já não lutamos contra gigantes imaginários — lutamos contra notificações. E é uma batalha estranha, porque nela ninguém se levanta da cadeira e ergue a espada, ninguém perde a dignidade de parecer ridículo tentando salvar o mundo. Perdemos o direito de parecer loucos. E quando fugimos à normalidade, somos medicados. Sem a possibilidade da loucura nobre, resta apenas a racionalidade pequena.


A modernidade tardia ensinou que devemos ser pragmáticos. Falta-nos Quixote. Falta-nos o homem que, mesmo vivendo numa aldeia pobre da Mancha, decidiu que a realidade não bastava. Que o mundo precisava de mais justiça, mais aventura, mais sentido — e que alguém deveria fazer algo a respeito, ainda que esse alguém fosse um fidalgo magro montado num cavalo cansado.


Chamaram-no de louco. Mas talvez loucura seja justamente aquilo que falta a uma época que já não acredita em nada além de si mesma.


Quando olho para aquele livro antigo, com o cheiro de papel envelhecido e a culpa silenciosa de nunca tê-lo devolvido, penso também na bibliotecária cujo nome esqueci. Ela conhecia algo que hoje parece raro: a coragem de apostar no impossível. Ela viu um menino de periferia e imaginou um leitor. Talvez um professor. Isso também é um tipo de moinho de vento. Porque apostar em alguém é sempre lutar contra as probabilidades.

Hoje as escolas falam muito em desempenho, indicadores, métricas e metas. Tudo isso tem sua utilidade, não nego. Mas suspeito que nenhuma planilha jamais será capaz de medir o impacto de uma mão que entrega um livro a uma criança e diz simplesmente: “leia”. Ali começa uma revolução silenciosa.

Talvez por isso eu ainda insista em defender livros, bibliotecas, professores e sonhos que parecem grandes demais para o mundo pequeno em que nos acostumamos a viver. Não por nostalgia. Mas porque, no fundo, continuo acreditando que alguns moinhos precisam permanecer de pé.


Sem eles, ninguém aprende a lutar.
Sem eles, ninguém aprende a imaginar.
Sem eles, ninguém aprende a viver um pouco além da realidade estreita que nos oferecem.

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E um mundo sem moinhos de vento — descobri cedo demais — é apenas um lugar onde
ninguém tenta mudar alguma coisa, nem que seja a si mesmo.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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