Renato de Faria
Renato De Faria
Filósofo. Doutor em educação e mestre em Ética. Professor.
FILOSOFIA EXPLICADINHA

Livros para ler na prisão

Não é exatamente a forma mais elegante de voltar aos livros, reconheço, mas talvez seja a mais pedagógica

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Meu caro, escrevo estas linhas como quem envia uma carta tardia a um velho conhecido que sempre preferiu o improviso ao estudo. A vida, com seu humor nada delicado, resolveu oferecer agora tempo de sobra e uma possível biblioteca como companhia — com o incentivo adicional de alguns dias a menos atrás das grades a cada leitura concluída.

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Se alguém tenta romper a democracia, não é porque desconhece apenas as regras formais, mas porque nunca aceitou o que elas exigem internamente: limites, frustração, convivência com o dissenso. Aprender democracia não é conhecer um conceito, é reaprender a viver com os outros.


Não é exatamente a forma mais elegante de voltar aos livros, reconheço, mas talvez seja a mais pedagógica. Considere, portanto, o que segue não como provocação gratuita, mas como um gesto amistoso: uma lista de leituras pensadas para alguém que tentou resolver a política no grito e agora dispõe, finalmente, do silêncio necessário para entender o que estava fazendo.


Comece por Platão. Aliás, tudo que é bom e digno de relevância começa com ele. Sugiro não iniciar pelas ideias elevadas. Inaugure sua vida de leitor pela "Apologia de Sócrates", para aprender que a democracia não é apenas o governo da maioria, mas o peso da responsabilidade diante da palavra pública.


Também podemos enveredar para a experiência humana. Primo Levi, em "É isto um homem?", não fala de democracia diretamente, mas fala de dignidade em situações extremas. Ensina que o poder absoluto, quando não encontra freios, destrói não só vítimas, mas também quem o exerce. É um livro sobre o que sobra quando a força substitui a razão.


Depois, seria inevitável Hannah Arendt. "Origens do Totalitarismo" não serve para rotular, mas para compreender como líderes e massas constroem juntos a recusa da realidade. Karl Popper, em "A Sociedade Aberta e Seus Inimigos", seria leitura dura, mas necessária. Popper escreve para quem acredita ter respostas finais. Ele mostra que a democracia não existe porque escolhe os melhores, mas porque permite corrigir erros sem violência. Golpes nascem exatamente da recusa dessa correção.


George Orwell, com "1984", talvez ajude a perceber como a destruição da linguagem precede a  destruição da política. Quando palavras perdem sentido, quando “liberdade”, “povo” e “verdade” viram instrumentos vazios, o autoritarismo já venceu metade da batalha.


E talvez, mais adiante, Rousseau, não o caricatural, mas o de "Do Contrato Social", para entender que soberania popular não é autorização para o governante fazer o que quiser, mas obrigação de servir a algo maior que o próprio ego. A vontade geral não é o aplauso imediato; é um compromisso difícil com o coletivo.


No entanto, antes mesmo de Platão ou Arendt, talvez fosse prudente incluir um dicionário na pilha, como ferramenta básica de sobrevivência intelectual. Não se preocupe com as palavras difíceis, é melhor reaprender as simples: “democracia”, “república”, “instituição”,  “responsabilidade”, “verdade”. Um dicionário tem essa virtude de não aceitar interpretações criativas nem versões alternativas dos fatos. Para quem passou tanto tempo tensionando o sentido das palavras até que elas servissem a qualquer coisa, o confronto com definições estáveis pode ser o mais radical dos exercícios políticos.


Meu caro, ler esses livros não garante arrependimento, nem redenção. Livros não operam milagres. Mas garanto que eles têm uma função silenciosa e insistente: obrigam o leitor a conviver com ideias que não o obedecem. Para alguém que tentou submeter a democracia à própria vontade, isso já seria um começo.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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