2026 na filosofia do pardal caramelo
2026 pode ser guiado por essa pedagogia modesta, que não exige opinar sobre tudo, reagir a todos, tomar posição em tempo real
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Gosto de olhar para as samambaias que minha mãe plantou. Não sei ao certo, mas estimo que estejam ali há mais de quarenta anos. Renovam os brotos com uma dignidade quase insolente: nada anunciam, nada performam. Suas raízes persistem, e as folhas se inclinam sob a árvore como quem sabe que não há pressa alguma. É uma boa relação com o tempo — ou melhor, uma experiência no tempo que não exige produtividade.
Tenho certeza de que, se pudessem responder às minhas perguntas, as samambaias não ofereceriam frases de efeito, nem fórmulas para “desbloquear o potencial oculto”. Nada de livros de autoajuda, gurus do Vale do Silício ou duendes empreendedores lançando startups em foguetes. Sua filosofia é outra: a do silêncio, da beleza discreta e da repetição paciente. Um exercício cotidiano de permanecer sendo apenas mais um verde, em meio às tantas orquídeas coloridas, exuberantes e breves. Uma estética que Byung-Chul Han talvez chamasse de resistência — aquela que simplesmente se recusa a competir.
Este ano terá eleição e, como sempre, viveremos tudo outra vez. Ou talvez nada de novo. Se as samambaias pudessem responder às minhas inquietações políticas, provavelmente suspirariam — se é que samambaias suspiram. Já viram governos nascerem e apodrecerem, promessas inflamadas se transformarem em pó, bandeiras mudarem de cor como folhas no outono.
Enquanto nós nos desgastamos em debates morais nas redes sociais, elas permanecem ali, intocáveis em seu sossego radical. Talvez o segredo seja esse desdém quase estoico: calçar as sandálias de borracha apenas pelo conforto, sem perguntar se o pé esquerdo ou o direito é o mais ideologicamente adequado para começar.
Ao lado delas, coloquei uma pequena casinha para cevar os passarinhos. Gosto de vê-los livres, indo e voltando, sem opinião, militância ou ideologia, orbitando o alpiste que compro na casa de ração. Meus amigos ambientalistas desaprovam. Dizem que é errado, que os pássaros deveriam se alimentar exclusivamente da natureza, que esse gesto pode causar dependência, obesidade, alienação alimentar e, quem sabe, crise existencial nas aves. Eu sorrio e continuo colocando os grãos. Afinal, se somos obrigados a participar do capitalismo, por que não permitir que os passarinhos também usufruam de seus benefícios mínimos? É uma inclusão modesta, mas sincera.
Em torno da samambaia surgem aves de todas as cores e cantos. Mas, ultimamente, tenho me encantado especialmente pelo Pardal Caramelo. Ele não desperta fúria nem fascínio. Não gera nem documentários em câmera lenta. Ninguém se desloca quilômetros para fotografá-lo. E talvez por isso coma em paz. Enquanto as aves raras disputam atenção, o pardal permanece ali, anônimo, nutrindo-se sem precisar justificar sua existência. Não precisa postar ou opinar. Uma criatura perfeitamente ajustada à arte de não se destacar.
O conceito soa estranho — quase ofensivo — em um mundo obcecado por performance, excelência e superação. Mas acredito que samambaias e pardais dominam uma arte profunda e cada vez mais rara: a mediocridade em paz. Não a mediocridade ressentida, mas aquela que se basta. Aquela que, como sugere Byung-Chul Han em Louvor à Terra, reconhece o valor do chão, do peso, da lentidão e daquilo que não aspira ao céu a qualquer custo. Uma vida que não precisa ser otimizada, apenas vivida.
Talvez seja exatamente por isso que penso em 2026 com uma serenidade quase suspeita. Não como quem projeta grandes viradas, nem como quem escreve resoluções inflamadas em cadernos novos, mas como quem decide continuar regando as samambaias sem esperar aplausos. 2026, para mim, pode ser apenas mais um ano — e isso já é um grande elogio. Um tempo suficientemente largo para que nada de extraordinário precise acontecer, e ainda assim tudo continue.
A filosofia das samambaias não promete redenção, apenas continuidade. Elas não “se reinventam”, não fazem transições de carreira, não anunciam recomeços em janeiro. Apenas seguem. E nesse seguir silencioso há uma ética profunda: a recusa em transformar a vida num projeto heroico. Elas habitam esse chão milenar, espaço desprezado pela infantil lógica do desempenho, onde não se voa, não se acelera, não se viraliza. O chão cansa menos. O chão sustenta.
O Pardal Caramelo parece ter entendido algo que nos escapa com frequência: visibilidade não é sinônimo de existência plena. Ele não precisa ser visto para estar inteiro. Não disputa espaço simbólico, não coleciona olhares, não sofre por não ser desejado. Alimenta-se, canta quando convém, vai embora quando quer. Uma vida mínima, mas completa. Talvez seja esse o verdadeiro luxo do nosso tempo: passar despercebido sem sentir que se perdeu algo.
Penso que 2026 poderia ser um ano guiado por essa pedagogia modesta. Um ano em que não seja necessário opinar sobre tudo, reagir a todos, tomar posição em tempo real. Um ano em que seja aceitável não ter um projeto grandioso, não cultivar uma identidade afiada, não performar coerência moral diante de plateias invisíveis. Um ano em que o cansaço não seja tratado como falha de caráter, mas como sinal de que o corpo ainda existe.
Enquanto o mundo insiste em nos empurrar para o céu — para a ascensão, a superação, a transcendência permanente — as samambaias e o pardal nos convidam de volta à terra. Ao peso do corpo, ao ritmo repetitivo dos dias, à dignidade de uma vida que não precisa provar nada. À revolução que só acontece no cotidiano, esse espaço-tempo que querem colonizar a todo momento. Ao invés de navegar na interconectividade, é preciso buscar aquilo que não cresce para cima, mas se aprofunda. Já dizia a Filosofia do Boteco do Chicão: quem navega pela superfície é merda.
Se houver algum desejo para 2026, que seja esse: aprender a ser menos interessante e mais presente. Trocar a ansiedade da relevância pela tranquilidade da sombra. Comer alpiste sem culpa. Ser verde sem querer florir. Ser pardal sem querer virar metáfora — ainda que, ironicamente, acabemos sendo.
Talvez o futuro não precise de mais visionários. Talvez precise apenas de mais samambaias. E de alguns pardais caramelo, comendo em silêncio, enquanto o mundo passa, grita, promete, navega e boia. Enquanto nos faz esquecer que a única vida possível é aquela construída cotidianamente, no silêncio da mediocridade em paz.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
