A escola de seu filho(a) valoriza a poesia?
Talvez a poesia não encontre lugar na escola porque, antes, já foi despejada da vida
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Os burocratas da educação estão sempre preocupadíssimos com as metodologias. Como se a repetição de uma fórmula milagrosa fosse capaz de produzir emoção, abrir sentidos ou despertar algum sopro de humanidade em professores e alunos dentro de uma sala de aula. Qualquer método é estéril sem desejo. E desejo não dá para transmitir em videoaula.
Repetir é justamente a coisa que nossos estudantes mais fazem – ainda mais depois da IA. Acostumaram-se ao condicionamento das redes sociais, reproduzem refrãos de 10 segundos sem parar, colecionam clichês e memes sem constrangimento. Desde Skinner e seus ratos encaixotados sabemos que o condicionamento operante molda comportamentos entre reforços positivos, compensações e punições. Mas parece que esquecemos convenientemente a segunda parte da lição: a de que ratos não fazem poesia.
A partir daí criamos a nossa sala de aula futurista, com direito a entorpecentes digitais devidamente regulamentados pela sacrossanta “Tecnologia Educacional”: aplicativos, tablets, celulares e outras distrações pedagógicas que mantêm crianças e adolescentes entretidos, dóceis e quietinhos em um ambiente supostamente seguro, enquanto pais e responsáveis tentam ganhar a vida e construir suas respectivas carreiras.
Vitória de Skinner: um bicho satisfeito e entretido não quer confusão, não pensa demais, não incomoda. A proposta é dopar uma geração de estudantes que, em breve, replicará essa mesma lógica para sua descendência. Vitória da indústria tecnológica do entretenimento. Derrota silenciosa do humano que insiste em sentir desconforto diante dessa situação.
Ainda bem que algumas experiências internacionais começam a chegar para furar a bolha. A Austrália discute proibição de redes sociais para menores de 16 anos e responsabiliza os pais. Vários países da Europa proíbem o uso de celulares em sala de aula. A Finlândia – aquela mesma, farol da educação mundial – agora investe pesado na desintoxicação tecnológica, porque descobriu que a overdose de entretenimento cobra a conta, e a conta veio cara. O Brasil, ainda que tardiamente, embarca na mesma esteira e restringe o uso desses trecos luminosos no ambiente escolar. Palmas para nós, mas com moderação: legislar é fácil, educar continua sendo difícil.
No entanto, agora, precisamos olhar para fora da escola. No meio de tantas telas coloridas, perdemos a poesia. E não estou escrevendo aqui de forma poética – até gostaria –, mas registro apenas um dado do real, pragmático, concreto: a geração nascida depois de 2010 teve pouquíssimo contato com o texto poético e seus impactos. E os responsáveis, em grande parte, somos nós, adultos ocupados, cuidadores de crianças e curadores de inutilidades digitais. Dos sites de notícias ao engajamento vazio nas redes, ocupamos nosso tempo com futilidades imagéticas, enquanto o silêncio, a densidade, a metáfora e a pausa – onde a poesia vive – foram expulsos de casa.
Antes que o leitor se esquive com a clássica desculpa “não tenho tempo”, vale a pergunta incômoda: quantas vezes por dia seu filho (a), neto (a), sobrinho (a) o vê com um livro na mão? Quantas vezes ele o vê entregue a alguma leitura literária real, gratuita, desinteressada? Pois é.
Talvez a poesia não encontre lugar na escola porque, antes, já foi despejada da vida. Foi considerada inútil, improdutiva, perigosa até – afinal, poesia desorganiza certezas, provoca perguntas, atrapalha a produtividade. Ela não serve para nada “útil”, o que é exatamente a sua utilidade maior: lembrar-nos que existir não é só funcionar. Sem poesia, não é que a escola fique sem arte; ela fica sem alma. Produz gente eficiente, mas vazia. Forma analfabetos em sentir.
A poesia é uma forma de resistência do humano contra a mecanização da existência: ela ensina a nomear, a sentir, a pensar sobre as nuances onde o discurso pragmático só enxerga utilidade. Ao romper a lógica do desempenho e da pressa, devolve ao sujeito a capacidade de contemplar, de estranhar, de se reconhecer no outro e de compreender a própria condição com mais profundidade e menos arrogância. E não é disso, justamente, que estamos precisando?
No campo educacional, a poesia não é um adorno sentimental. Ela amplia vocabulário, exercita a imaginação e fortalece a capacidade interpretativa, convidando o leitor a construir sentidos. Em uma escola que se quer verdadeiramente humana, a poesia não é luxo – é elemento estruturante de uma educação que pretende formar pessoas e não apenas operadores de conteúdo.
Em uma educação que pretende operar para o desenvolvimento de competências, é preciso perguntar: onde estão as habilidades que se relacionam com a poesia nos programas de ensino? No currículo escolar?
Professores de diferentes níveis já constatam, com um misto de tristeza e espanto, que muitos estudantes não conseguem mais sustentar a leitura de um poema até o fim: falta paciência para a lentidão do verso, falta disposição para o silêncio que exige interpretação e, principalmente, falta a capacidade de abstrair, de lidar com o não dito, com a metáfora, com.
A revolução digital, com sua lógica de recompensa imediata, notificações constantes e consumo fragmentado de informação, treinou o olhar para o instantâneo e atrofiou a musculatura da atenção profunda. Ao transformar qualquer experiência em estímulo rápido e descartável, esse ambiente reduziu a tolerância ao esforço intelectual, tornando a leitura poética – que demanda tempo, concentração e sensibilidade – quase um ato heroico. O resultado é uma geração alfabetizada tecnicamente, mas empobrecida simbolicamente, com dificuldade de lidar com complexidade e profundidade, justamente porque foi educada para deslizar.
A poesia não encontra lugar na escola porque nós, coletivamente, decidimos que emoção, beleza, espanto e reflexão cabem apenas como “conteúdos opcionais”, quando sobra tempo. E tempo, a gente sabe, nunca sobra.
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Se quisermos a volta da poesia, teremos que aceitar o risco do intervalo entre as coisas, da leitura lenta. Poesia só volta quando alguém, sem alarde, tiver a coragem de abrir um livro – e de abrir um espaço dentro de si para ser afetado. Até lá, continuaremos comemorando nossas vitórias tecnológicas, enquanto perdemos, vagarosamente, aquilo que nos fazia humanos.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
