Celina Aquino
Celina Aquino
Formada em jornalismo pela PUC Minas. Começou como estagiária nos Diários Associados e teve passagens por editorias como Polícia, Saúde, Imóveis, Negócios e Emprego. Hoje é especializada em gastronomia e também escreve sobre moda
ACEITO UM DOCE

É hora de soprar as velinhas

Enquanto folheava meu álbum de fotos, pensava em como são interessantes os rituais de aniversário

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Estou na semana do meu aniversário e comecei a fazer uma retrospectiva dos bolos que já passaram pela minha vida. Pode não ter festa, pode nem ter comida, mas não fico sem o ritual de cantar parabéns e soprar as velinhas. E o bolo, nesse momento, é sempre protagonista.

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Imagino que não deve ser novidade para você, já admiti várias vezes que sou uma chocólatra convicta e não me esforço em nada para me livrar do meu vício. Nessas horas me lembro de uma foto minha bebê, no colo da minha mãe, com a boca toda lambuzada. Era a primeira vez que comia chocolate e o sorriso de satisfação diz muito sobre quem me tornaria.


Falo isso porque bolo de aniversário para mim tem que ser de chocolate. Até aceito combinar com morango, doce de leite, nozes, coco, mas não deixo que ele fique fora da festa.


Graças ao meu pai, que era o fotógrafo da família, guardo registros de praticamente todos os aniversários. Já tive bolo enfeitado com papel crepom, com cacho de uva, com letrinhas feitas na chocolateria de brinquedo. Minha mãe conta que nem precisava perguntar, chocolate era sempre a minha escolha para a massa, o recheio e a cobertura. E ela inventava moda para não ficar tudo igual.


Fiquei encucada porque, nas fotos do aniversário de um ano, o bolo não aparece na mesa, só os enfeites e a vela. Já que ninguém lá de casa tem uma explicação, criei uma história na minha cabeça. No fim da festa, os convidados recebiam um pedaço de bolo gelado de coco embrulhado no papel-alumínio, que tinha acabado de sair da geladeira. Se você me perguntar por que não era de chocolate, digo que ainda não tinha idade para impor minha preferência.


Já fiz o meu próprio bolo, já encomendei o bolo dos sonhos, já comprei bolo de última hora, já tive bolo surpresa, já ganhei bolo de presente.


No último aniversário, recebi um presentão, literalmente, que sempre esteve na minha lista de desejos. A inesquecível torta de chocolate da Fany Bombons, todinha de chocolate. Na base, um bolo mergulhado em calda, o recheio é de brigadeiro e por fora tem uma camada de ganache trufada.


Enquanto folheava meu álbum de fotos, pensava em como são interessantes os rituais de aniversário. Alguns existem desde a Grécia Antiga. Naqueles tempos, os gregos faziam oferendas para Ártemis, deusa da Lua, preparando massas redondas de farinha selvagem e mel. As velas representavam o brilho do astro celeste e acreditava-se que, ao soprá-las, as orações e os pedidos chegariam até o céu através da fumaça.


Na dúvida, sigo esses rituais, e ainda adiciono outros, bem característicos da cultura brasileira. Dou o primeiro corte no bolo de baixo para cima. Meu lado supersticioso acredita que, assim, a vida vai seguir por um caminho de prosperidade, crescimento e abundância. Nesse momento, fecho os olhos e faço um pedido em silêncio, que não pode ser revelado para ninguém. Depois entrego a primeira fatia como um gesto de carinho para quem está do meu lado.


Quando era criança, detestava o tal do “com quem será?...” Já escondi debaixo da mesa de tanta vergonha de ganhar um pretendente ali, na frente de todo mundo. Sou muito mais do “é big, é big...”, mais alegre e divertido. Falando em música, ouvi recentemente em um podcast a história do concurso de rádio, em 1941, que deu origem ao nosso “parabéns pra você”. A vencedora foi a farmacêutica Bertha Celeste Homem de Mello, de Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, que compôs o grande hit que embala os aniversários.

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Hoje não me importo de cantar parabéns com uma sobremesa no lugar do bolo, principalmente quando comemoro em um restaurante. Ainda bem que muitos lugares já chegam com a vela e garantem aquele momento em que tudo o que a gente quer é receber boas energias. Só não abandono a ideia de compartilhar. Mesmo que seja para cada um da mesa dar uma colherada. Isso faz parte da festa, dividir o doce com as pessoas que a gente ama.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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