Criatividade no palito
Precisamos de sabores assim para provocar o nosso paladar e não deixar que ele fique engessado
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Andar a pé pela cidade sempre traz alguma surpresa. Outro dia, encontrei “do nada” o Eduardo Pinheiro, um dos sócios da marca Picolé (nem preciso dizer o que eles vendem). Conversa vai, conversa vem, ele me contou que estava quebrando a cabeça para criar um picolé cinza. Fiquei completamente hipnotizada pelo assunto, imaginando o Eduardo na fábrica fazendo os mais mirabolantes testes.
Acho muito fascinante entender como se inventa uma receita. Temos o hábito de romantizar a criatividade, como se bastasse ter uma ideia brilhante. Mas ser criativo não é nada fácil, ainda mais num mundo em que praticamente tudo já foi criado. A criatividade envolve muito suor, erros, frustrações e ajustes até que o resultado faça sentido.
No dia seguinte, procurei o Eduardo para entender a sua relação com a criatividade. Ele escolheu estudar publicidade, justamente por ter a ver com criatividade, mas, naquele meio, não se sentia criativo. Pegou o diploma, mas nunca exerceu a profissão. Largou a promessa de criatividade da publicidade para encontrá-la na gastronomia. Como já gostava de cozinha, foi parar na (extinta) sorveteria Alessa, onde trabalhou por 16 anos – nesse meio tempo, formou-se na área.
Há quatro anos, ele se juntou a outros dois publicitários (Pablo Gomide e Diogo Salomão) com uma ideia: usar a criatividade para atualizar o universo do picolé e trazê-lo de volta para o cotidiano das pessoas com sabores diferentes. Tudo bem, não dá para fugir dos tradicionais coco e limão, mas eles podem aparecer de uma forma que não se espera. No caso do limão (capeta), são duas combinações, uma com rapadura e outra com amora.
O manjericão da pizza dá o ar da graça no picolé de uva, enquanto a hortelã abandona o abacaxi e vai parar no palito com outra fruta, o melão. A água de coco é que forma dupla com o abacaxi. Já o caju ganha a companhia do gengibre. São combinações que quebram expectativas e em alguma medida fazem pensar. Precisamos de sabores assim para provocar o nosso paladar e não deixar que ele fique engessado. Às vezes, basta enxergar a matéria-prima de um jeito diferente.
Para Eduardo, o maior desafio é encontrar o equilíbrio entre os ingredientes. Ele usa o exemplo de um picolé que faz muita gente torcer o nariz: morango com melancia. São frutas muito comuns, mas que não costumam se misturar. Quando elas aparecem juntas, sem que nenhuma se sobressaia, surpreendem.
Essa é a justificativa dele para não combinar chocolate e doce de leite (um rouba o sabor do outro). Aqui a criatividade entrou para fazer uma troca que parece ousada, mas que traz algo bem cotidiano: café com doce de leite. Nessa junção, os dois brilham. Falando em chocolate, uma das combinações mais incríveis para mim é com amêndoas defumadas.
Na hora de criar com caramelo salgado, juntar caramelo e flor de sal não era uma opção. O que eles fizeram? Colocaram castanha de caju no caramelo para que ela levasse o toque salgado de um jeito inesperado. Em outra receita, a flor de sal está presente, mas não com caramelo. Ela entra para destacar o caramelizado do biscoito amanteigado, remetendo ao ingrediente intencionalmente não adicionado. Às vezes, a criatividade está em buscar um caminho não óbvio.
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No ano passado, eles me convidaram para criar um picolé para o Mês do Chocolate. Caí num dilema: como ser criativa com algo tão comum? Aí veio a ideia de fazer um picolé de cacau. Fiquei impressionada com a rapidez com que chegaram à receita, exatamente como imaginei. Leve, refrescante e com um pouco de acidez para lembrar que o chocolate que comemos vem daquela fruta fresca.
No encontro, o Eduardo me contou uma grande novidade: em breve, vai ter sorvete! Isso é até piada nas lojas (Mercado Novo e Funcionários) – na parede de uma e no tapete da outra está escrito para todo mundo ler: “Não vendemos sorvete (ainda)”. Como tudo ali tem que ser diferente, não pode ser em bola nem pote. Então, eles estão desenvolvendo uma linha de sobremesas prontas para levar para casa. Dois testes já deram certo: um, inspirado na cheesecake, tem base crocante, sorvete de queijo e geleia de frutas vermelhas e outro combina brownie, sorvete de baunilha e calda de chocolate.
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Se, assim como eu, você ficou curioso para saber o resultado do picolé cinza, deixei para o fim a revelação. A receita leva gergelim preto, castanha de caju, mel e muita criatividade.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
