Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
EM MINAS

A guerra como ela é...

Quem ganhou de fato, além dos senhores que pregam cenários disruptivos, não foi Lula. Foi uma nova esquerda que cansou da atual

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Nelson Rodrigues assinou, entre 1951 e 1961, diariamente para o jornal Última Hora, de Samuel Wainer, a coluna “A vida como ela é....” Um dos pensamentos que talvez melhor represente o espírito desse trabalho seja: o ser humano é cego para os próprios defeitos. “Nunca vi um sujeito vir a boca da cena e anunciar, de testa erguida: ‘senhoras e senhores, eu sou um canalha”’. A atual política, particularmente a tecnopolítica, é pródiga em personagens assim.

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Nesse 25 de outubro, tivemos o desenrolar do primeiro ato do drama que assola os brasileiros e o mundo. Foi denominado “eleições brasileiras”. A cena final do primeiro capítulo foi eloquente. Muitos explodiram em celebrações catárticas. Afinal, não é todo dia que uma população vira o jogo nos últimos minutos da prorrogação, depois de se perceber condenada a padecer quatro anos ou ainda mais sob um governo sem compromisso com conquistas nacionais como o regime democrático, direitos sociais, projetando-se condenada a passar o final de seus dias – ou o início dos seus, dependendo da idade do cidadão – numa moderna vida de escravidão.

Lula pediu em avenida aberta, em Belo Horizonte, para a população repetir o lema do Galo: “Eu acredito”. Mas na vida como ela é, onde a economia alenta e desalenta, diferentemente do futebol, viradas como a desse domingo só mostram uma coisa: vencedores e vencidos podem estar do mesmo lado de perdedores se não começarem a entender que quem ganha com a instabilidade de todos os nossos dias nunca são os brasileiros. Nem são aqueles que julgam pertencer a um lado.

A vitória formal desta eleição foi de Lula. Mas ele foi o personagem talvez menos importante do pleito. A sua campanha foi programada para ser tradicional, de um governo igualmente tradicional, num ambiente em que os consensos desapareceram. Aliás, o único que resiste se baseia justo na pregação da inexistência dele. Chama-se Consenso de Silicom Valley. Seus representantes na tecnopolítica, que nem sequer se dão conta da existência do mesmo, mas se beneficiam dele, foram os ridicularizados de ontem. Os criadores do consenso em questão que nem aqui residem foram os ganhadores de hoje. Toda corte tem bobos e monarcas. Uns se divertem, os outros são pagos para divertir.

Mas nesta segunda, 26, day after, a Bolsa brasileira trouxe a tona quem é quem. Os reais ganhadores do pleito. Meta ou M1TA34 chegou a apresentar valorização de 8%. Nvidia, uma das queridinhas do mercado, bateu em mais de 11% de valorização. Tesla chegou a registrar 16%. E os ganhos se estendiam para todas as sete magníficas. Dessa alta, impulsionada pela força da instabilidade alheia, participaram as suas congêneres chinesas que operam com títulos no Brasil.

Ao mesmo tempo, a nossa Bolsa composta por empresas que dão emprego, geram renda e riqueza no território nacional, amargavam no seu índice Ibovespa, que chegou a uma queda de quase 15%, sendo que ações de empresas empregadoras, como Magalu, perderam 60% de valor. Os “analistas” do mercado financeiro dirão que são apenas flutuações e devolução de ganhos ou realização de lucros de uma expectativa frustrada. Os mais toscos culparão os vencedores da eleição, que apenas defendiam os seus próprios pescoços. Vale lembrar que isso é só parte do problema.

Quem ganhou de fato, além dos senhores que pregam cenários disruptivos, não foi Lula. Foi uma nova esquerda que cansou da atual e pediu passagem com manifestações nacionais colossais, marchas coalhadas de jovens, que não conseguem enxergar o seu futuro nas sociedades atuais e nem nas prometidas. Tomaram os seus destinos nas mãos e falam uma linguagem que não é mais a de colaboração de classes do velho sindicalista.

Por ora, combate em nome dele, mas... Ela anda dando a cara em vários lugares do mundo, basta olhar para a Europa e em outros locais que a realidade é ainda pior. No Brasil, formaram o seu exército, que, graças ao político e agora “general” Janones, ajudaram a reverter uma derrota modorrenta, que se apresentava como certa. A direita bolsonarista acha que tem o seu próprio exército. Os próximos anos prometem para aqueles que ainda enxergam a política com os olhos do passado, e mesmo para aqueles que se julgam “experts”, digo espertos, e que ganham com o caos.

Exércitos remetem não propriamente à política. Quando o fogo de fato começar a queimar, vai ser impossivel apagar. Aos brasileiros comuns, que querem continuar levando as suas vidas, quando será que vão acordar para aquela frase de Nelson Rodrigues? “Eu invejo a burrice, porque ela é eterna.” Será? Na melhor das hipóteses, teremos mais quatro anos para pensar, se tanto: os que realmente ganharam querem o futuro agora. Já os que perderam o Executivo, mas ganharam o parlamento, querem justo o passado. As big techs querem ontem, hoje e amanhã. O tempo, como sabemos, é um só e exércitos, como bem sabemos, representam não propriamente a paz.

Coletivo

O Bloco Democracia e Luta da Assembleia se reúne nesta terça-feira, na Assembleia Legislativa, com os atuais parlamentares e os eleitos que serão empossados em 1º de fevereiro. Na pauta, a sucessão de Tadeu Leite (MDB), presidente da Casa. “É uma discussão conjunta, vamos atualizar toda a movimentação em torno da eleição interna”, afirma Ulysses Gomes (PT), líder do bloco, em princípio candidato à presidência da Assembleia, mas politicamente muito afinado com Tadeu Leite e Doorgal Andrada (PP), presidente da Comissão de Constituição e Justiça, em torno de quem se afunila a sucessão, em candidatura de consenso.

No STF

Recém-empossado ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Rodrigo Pacheco é o nome que Lula deverá indicar para o Supremo Tribunal Federal (STF), em vaga aberta com a aposentadoria antecipada de Luís Roberto Barroso. Assentada a poeira da eleição presidencial, a expectativa é de que a articulação avance. Pacheco é nome de consenso no Senado. Não foi o escolhido por Lula, que optou por Jorge Messias, advogado-geral da União. Em resposta, o Senado recusou, em 29 de abril a indicação de Messias. Na atual composição da Casa, há expectativa de que a indicação de Pacheco tenha ampla aprovação.

Visita

Os presidentes do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), visitaram no domingo, 25, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques. A agenda é praxe dos chefes do Legislativo durante as eleições. Com a vitória de Lula, ambos estão cotados para as eleições internas das presidências das Mesas Diretoras das próximas legislaturas, em 1º de fevereiro de 2027.

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Medalha

Autoridades e personalidades civis e militares se reúnem nesta terça-feira, 27, para a entrega da Medalha Santos Dumont, que terá 130 agraciados neste ano. A solenidade será na Villa Foncá, no KM 1,5 da BR-499, em Santos Dumont (Zona da Mata). Tadeu Leite (MDB), presidente da Assembleia, será o principal agraciado, com a medalha no grau Grande Colar. Ele também será o orador oficial da cerimônia. Outros cinco parlamentares receberão a comenda, no grau Prata: as deputadas Maria Clara Marra (PSDB), Nayara Rocha (PP), Carol Caram (Avante) e os deputados Zé Laviola (Novo) e Eduardo Azevedo (PL).

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