Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
Se a campanha do primeiro turno foi fria e Lula não construiu a vitória nas ruas e nas redes, a do segundo turno foi quente e ativa, mobilizando grandes encontros nas avenidas e praças e grande intensidade na arena digital. Nunca o clichê “segundo turno é outra eleição” foi tão verdadeiro. Foram duas campanhas totalmente distintas. A primeira foi fria, sem mobilização em grandes comícios, Lula saiu pouco de Brasília. A extrema direita ficou em vantagem no primeiro turno, com Flávio Bolsonaro obtendo mais de dois milhões de votos de frente.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Incumbentes não se reelegem sem refazer o pacto com os eleitores. Raramente eleição se resolve pela inércia, escolhas anteriores não levam às do presente. Lula foi para as ruas e para as redes, restabeleceu o contato com o povo, repactuou a aliança que lhe garantiria a maioria dos votos para resolver o segundo turno. Mostrou que a idade não o impediu de aprender com uma nova realidade.
O povo que ocupou as avenidas e praças das grandes cidades, e mesmo de algumas cidades médias, em manifestações expressivas, não era o mesmo de outras manifestações petistas. A iniciativa não foi do partido ou das centrais sindicais, mas de forças independentes, comprometidas com a democracia em primeiro lugar, começando pelos estudantes.
Foi a vitória da democracia, o fim de um longo ciclo que merece o nome do presidente reeleito por todas as razões que se possa elencar. O ciclo Lula e o ciclo inaugural de Fernando Henrique Cardoso, que terminou em 2002, encerram o papel histórico e fundamental da geração da resistência democrática à ditadura militar. Não por acaso, essa etapa da história da democracia no Brasil teve como presidentes as duas lideranças que surgiram para a política nacional nas Diretas Já, FHC e Lula.
É simbólico que o fecho seja com a reeleição de Lula e de Geraldo Alckmin, hoje no PSB, mas o último dos líderes do PSDB histórico. Este já se dissolveu. O PSDB de hoje foi engolido pela extrema direita e representa os mais atrasados setores da sociedade, como os grileiros da Amazônia. O PT terá que se repensar na fase sem Lula e sem a sua geração fundadora, que se recolhe.
O quarto mandato de Lula terá que ser bem diferente do atual. A extrema direita engoliu uma boa parte da centro-direita, da direita e do centrão, fazendo a maior bancada nas duas Casas do Congresso. Na Câmara, só o PL controla 24% dos votos, contra 14% do PT. PT e PSB, os partidos do presidente e do vice, têm 17% e a esquerda toda unida, 23%. Os partidos de Bolsonaro, PL, e Tarcísio de Freitas, Republicanos, 32%. No Senado, é pior. O PL tem 36% das cadeiras, os dois PL e Republicanos controlam 40% da Casa. O centrão na Câmara tem 13% e, no Senado, 16%. Há uma coalizão majoritária possível, mas com domínio parlamentar do centrão e da centro-direita.
Lula terá que acomodar mais partidos estranhos à centro-esquerda, negociar mais e ser mais conciliador para aprovar sua agenda de políticas no Congresso. Terá que se aproximar mais desses políticos “de fora”. Terá que manter uma presença digital comparável à que conseguiu na eleição como parte das ferramentas de gestão da coalizão. Os partidos de direita e centro-direita, que foram engolidos pela extrema direita bolsonarista, terão uma boa oportunidade para promover novas lideranças e se afastar do bolsonarismo, para sobreviver e crescer.
Toda a política brasileira terá que se repensar nesses próximos quatro anos. Primeiro, abrir-se à formação de partidos digitais, que têm natureza distinta, e estão em mobilização todo o tempo, por todo o ano. Segundo, promover a circulação de lideranças, transferindo o protagonismo para as novas forças internas, algumas delas já expressões da política digital.
A ruptura eleitoral de 2018, consolidada em 2022, foi interrompida, como havia ocorrido em 22, pela derrota do bolsonarismo na eleição presidencial. Porém não no Congresso. As regras dos fundos partidário e eleitoral privilegiam as maiores bancadas da eleição anterior e mantiveram o PL tendo a primeira bancada das duas Casas. Os partidos que apoiaram as coalizões de Lula e FHC derreteram. A fragmentação parlamentar caiu, por força da cláusula de barreira e da miniaturização dos partidos tradicionais, mas ainda é moderadamente alta, com 20 partidos na Câmara e 13 no Senado.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
O índice de partidos efetivos é de 9 para a Câmara, e 6, para o Senado. PL e PT somam 38% dos deputados e 48% dos senadores. Lula tem uma coalizão possível, mas com dominância da centro-direita e do centrão. Fim de ciclo, a renovação política, de lideranças, métodos de gestão da coalizão de governo é inevitável. Não dá para dizer se o ciclo de domínio bolsonarista sobre a direita se manterá. É preciso ver a atitude do governador Tarcísio e seu partido. Ao não aceitar o resultado, Flávio Bolsonaro revelou a natureza real do bolsonarismo, antidemocrático, golpista, tendo a mentira por método. Prometeu democracia e mostrou, ao final, que seu propósito era autocrático.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.