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A campanha presidencial chega na reta final com diferenças importantes em relação às anteriores e algumas regularidades. As regularidades se devem a características que parecem irreversíveis do nosso modelo político.
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Primeiro as diferenças. Campanha muito fria e sem empolgação. Lula não empolga porque não traz novidade. Mas, neste não inovar, ele se destaca como o único totalmente comprometido com a democracia. Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury defendem a anistia aos golpistas condenados. Os cinco negam, com maior ou menor ênfase, que a trama golpista tenha ocorrido. A única exceção é Renan Santos, que reconheceu a existência da tentativa de golpe,concorda que os culpados deviam mesmo ter sido punidos. Não concorda com anistia, mas defende a revisão das penas. Seu vice, Aroldo Medina, esteve no acampamento dos golpistas em frente ao QG do Exército, em Brasília.
Nesta eleição, boa parte da campanha de rua migrou para as redes. Elas permitem que os candidatos possam usar cortes de ações extra-campanha nas plataformas digitais, sem fazer eventos públicos de massa. Pedi ao ChatGpt para contar no noticiário o tempo, desde o início da campanha até hoje, em que Lula e Flávio Bolsonaro não tiveram agenda pública de campanha. O resultado que obtive foi que, entre o início da campanha e 26/9, Lula passou 22 de 42 dias sem atividade pública presencial de campanha, 52,4%. Flávio Bolsonaro não saiu em campanha 17 dias, 40,5%. Mas, se examinamos os dias em que tiveram agenda pública, Lula fez campanha presencial em 20 dias e Flávio em 25.
A cena começa a esquentar na reta final. Mais ataques recíprocos. Mais atividade dos candidatos na ponta. Mais atenção a nichos eleitorais que podem fazer a diferença. Ainda temos um grau elevado de indecisão na pesquisa espontânea, em que não se apresenta os nomes dos candidatos. Gira em torno de 25%-30%, na média das 23 pesquisas mais recentes que analisei. Outra dimensão relevante para entender o cenário eleitoral é a consolidação de dois polos. As eleições presidenciais no Brasil, desde 1994, são bipolares ou bipartidárias. Uma polaridade que decorre da eleição em dois turnos,em que os polos se definem ainda no primeiro turno. Em média, Lula e Flávio Bolsonaroconcentram 75% das intenções de voto para a primeira rodada eleitoral. É, como querem Felipe Nunes e Thomas Trauman, uma cristalização dos votos nos dois lados da disputa.
A cristalização leva a decisão do pleito para os independentes, em torno de 30% dos eleitores e para os indecisos. É típico em eleições bipolares acirradas. Os blocos de votos cristalizados definem o patamar de cada candidato, com pequena diferença entre os dois. O desempate é feito pelos que não pertencem a esses dois blocos. Nas 34 pesquisas mais recentes, Lula aparece numericamente à frente no primeiro turno em 28, e Flávio Bolsonaro, em 4. Duas pesquisas dão empate numérico.Das 28 em que Lula está na frente, 16 são consideradas empate técnico, na margem de variação definida por cada pesquisa. A probabilidade de vitória no primeiro turno caiu ao longo do mês. As pesquisas mostram um acirramento da campanha.
A queda da vantagem de Lula não é contínua. Há uma dispersão significativa entre os institutos. Essa dispersão está relacionada a vários fatores: diferenças no tamanho da amostra, na data e duração do campo, na metodologia, se é domiciliar, por pontos de fluxo, por telefone, ou online. Mas pode indicar, também, um fator subjacente de volatilidade das intenções declaradas, quando estimuladas pela apresentação dos nomes. Os indecisos, principalmente, e parte dos independentes oscilam entre um e outro polo, ao sabor dos eventos da conjuntura e dos impactos das campanhas.
Há uma outra diferença nessa campanha. Ela termina com a crise no Supremo Tribunal Federal ainda em curso. Em parte, a duração da crise tem a ver com a atitude pouco proativa do presidente do tribunal, Edson Fachin. A crise afetou negativamente a credibilidade do STF e dos ministros. Ela migrou, também, para o TSE com os dois ministros nomeados por Jair Bolsonaro para o STF, Nunes Marques, na presidência e André Mendonça, na vice do TSE. Há dúvidas razoáveis sobre o envolvimento de Nunes Marques no caso Master. André Mendonça é acusado de ser parcial na relatoria do processo. Decisões controversas e a desconfiança que provocaram levam a opinião pública a duvidar da imparcialidade deles no exame dos contenciosos da campanha e da eleição. O momento não é bom para o Judiciário.
Essa eleição será crítica também para o Legislativo. Haverá renovação de toda a Câmara e de 2/3 do Senado. Escrevi neste espaço que a crise do presidencialismo de coalizão não se resolve sem radical revisão das emendas parlamentares e ela dependerá do apoio da maioria do Congresso.
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Faço votos de que o véu da dúvida não empane o discernimento dos eleitores e de que o valor da democracia os inspire ao chegar à urna eletrônica. Desejo a todos bom voto, no próximo dia 4 de outubro.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.