Bertha Maakaroun
Bertha Maakaroun
Jornalista, pesquisadora e doutora em Ciência Política
EM MINAS

Uma foto com Trump para esquecer Vorcaro

O gesto é uma mensagem para a base bolsonarista, que se manteve firme, sustentando a candidatura dele, apesar das revelações sugeridas pelos áudios

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Ao ser recebido por Donald Trump na Casa Branca, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tentou aplicar um cavalo de pau na pauta nacional, às voltas com as estripulias do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que, para além de si próprio, parece ter cultivado no espaço público muitas “irmãos de sangue”. Em Brasília, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, chegou a afirmar a Vorcaro que eles estariam “juntando as vidas” após o recebimento de imóveis em troca de aportes bilionários feitos pela instituição pública no Master. Paulo Henrique Costa também teria perguntado qual a “necessidade de caixa” do banqueiro para solucionar as contas da instituição. A troca de mensagens entre eles foi enviada pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal (STF) e publicada pelo jornal Estado de S.Paulo.

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No Rio de Janeiro, o ex-governador Cláudio Castro (PL) e o dono do Banco Master mantinham um “vínculo próximo” que, segundo a Polícia Federal, viabilizou aportes do Rioprevidência, fundo de previdência de servidores do Rio de Janeiro, na instituição financeira. Segundo decisão do ministro André Mendonça, que autorizou a busca e apreensão contra o ex-governador, a atuação dele não se limitou a contatos institucionais, mas envolveu um relacionamento pessoal estreito com Daniel Vorcaro, caracterizado por “encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do Rioprevidência”.

Entalados no caso Master, Ibaneis Rocha (MDB), ex-governador do Distrito Federal, e Cláudio Castro, dois aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, são as bolas da vez. Enquanto rolam aqui no Brasil, Flávio Bolsonaro foi apertar a mão do presidente norte-americano, cumprindo, de uma só vez, vários objetivos. O gesto é uma mensagem para a base bolsonarista, que se manteve firme, sustentando a candidatura dele, apesar das revelações sugeridas pelos áudios enviados por Flávio ao seu “irmão” Daniel Vorcaro. A visita também dá recado aos ex-aliados da direita que orbita o bolsonarismo, que passaram a atacá-lo depois de conhecer a sua proximidade com o ex-banqueiro. Se nada disso inviabilizou o relacionamento com Donald Trump, não haveria razão para um afastamento, no Brasil, do Centrão entre outros “amigos”. Flávio Bolsonaro quis demonstrar que a família continua forte e alinhada a Trump. Objetivamente, não se sabe o que foi tratado no encontro.

Flávio tentou dar um tom institucional à conversa e, nesse sentido, requisitou a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos espaço para conceder uma entrevista coletiva à imprensa após o encontro com Donald Trump. A representação diplomática sequer respondeu, por duas razões técnicas, conforme esclarece o professor Aziz Tuffi Saliba, de Relações Internacionais da UFMG. O poder de requisição é do superior hierárquico do posto: o presidente da República, o ministro das Relações Exteriores ou o secretário do Ministério das Relações Exteriores. “O embaixador pode ceder o espaço para entrevista ou reunião, observada a disponibilidade e a adequação da atividade ao regime jurídico brasileiro”, afirma.

Um segundo aspecto: há limites para a cessão do espaço. “Embaixada é instrumento da política externa do Estado acreditante, gerido pelo chefe da missão sob orientação do Itamaraty. A condição parlamentar não converte agenda privada em ato oficial”, explica o professor. O mandato gera função pública apenas quando o senador atua em representação institucional do Senado — missões aprovadas pela Mesa, comitês parlamentares, diplomacia legislativa formalizada, avalia. Entretanto, acrescenta Aziz, em viagem de pré-campanha, encontros partidários ou compromissos pessoais, o senador atua como ator político-partidário, não como agente do Estado brasileiro. Por tudo isso, o pedido do senador Flávio Bolsonaro é juridicamente possível; o seu deferimento, não. “A embaixada não só pode como deve recusar quando a finalidade é marcadamente privada ou eleitoral”, sintetiza. Flávio Bolsonaro não conseguiu o seu momento em coletiva na Embaixada do Brasil em Washington, mas, saiu com a foto ao lado de Trump. Salvou o dia. Um a menos em que será perguntado sobre o seu relacionamento com Daniel Vorcaro.


Na comitiva

O deputado estadual Cristiano Caporezzo (PL) integrou a comitiva de “eduardistas” que desembarcou nessa terça-feira do Texas em Washington, junto a Eduardo Bolsonaro, para acompanhar o irmão Flávio Bolsonaro (PL) à agenda com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Além de Caporezzo, integravam o grupo do Texas os deputados estaduais Gil Diniz (PL-SP) e Paulo Mansur (PL-SP), o vereador de Manaus Coronel Rooses (PL) e o influencer do Vlog do Lisboa Felipe Cruz Pedri (PL), pré-candidato a deputado federal pelo Rio Grande do Sul.

Com Sandra

Em discussão com o Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) e o presidente nacional do PT, as bancadas estadual e federal do PT estão inclinadas a indicar Sandra Regina Goulart, ex-reitora da UFMG, para concorrer ao governo de Minas pela legenda. Marília Campos (PT), ex-prefeita de Contagem, já assinalou que será candidata ao Senado. Reginaldo Lopes (PT), deputado federal, é puxador de votos na chapa proporcional e quer concorrer à reeleição. Por tudo isso, os parlamentares consideraram que se o partido tiver de impulsionar uma candidatura “do zero”, melhor fazê-lo com um nome da própria legenda.

Lula

A decisão do palanque em Minas, contudo, será do presidente Lula. São considerados quatro outros caminhos: o apoio ao ex-prefeito Alexandre Kalil (PDT), ao empresário Josué Gomes da Silva (PSB), ao ex-procurador geral de Justiça Jarbas Soares Junior (PSB) e ao ex-presidente da Câmara Municipal de BH Gabriel Azevedo (MDB).


TCU

O senador Rodrigo Pacheco (PSB) só não será indicado pelo Senado como conselheiro do Tribunal de Contas da União (TCU) se não quiser. O ministro Bruno Dantas deve deixar o cargo para atuar na iniciativa privada. A vaga dele é indicação de prerrogativa do Senado. Dantas ainda não formalizou a sua intenção. Nem Pacheco sinalizou que gostaria de ir para o TCU. Até aqui, tem reiterado aos seus interlocutores que não deseja concorrer ao governo de Minas. Ele trabalha pela indicação do ex-procurador geral de Justiça, Jarbas Soares.

Sob suspeita

Os dados de homicídios divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública no Atlas da Violência de 2026 – com as informações coletadas de 2024 junto aos governos estaduais – indicam que é grande a chance de alguns estados, entre eles Minas Gerais, estarem subnotificando os indicadores. Em 2024, o estado registrou oficialmente 2.731 homicídios. Quando comparado ao ano anterior, houve uma queda de 2,3%. Mas, considerando-se os homicídios ocultos – ou seja, as mortes violentas por causa indeterminada – somam-se outras 1.218 mortes ocultas, um aumento de 240,2% em relação ao ano anterior.

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Auditoria

O pesquisador Luís Flávio Sapori, especialista em segurança pública e professor da PUC, Minas defende uma auditoria imediata, em cada estado, realizada por pesquisadores independentes, para avaliação técnica dos dados de homicídio em todo o país, organizada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. “Temos de apurar se está realmente ocorrendo queda de homicídios no Brasil, conforme governos estaduais anunciam ou se o que temos é a subnotificação intencional para camuflar a magnitude da violência”, sustenta Sapori.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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