O jardineiro da campanha de Zema
E a cada vez que Gilmar Mendes abre a boca para retrucar, impulsiona mais o perfil de Romeu Zema
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O ex-governador Romeu Zema (Novo) queria entrar em campo. Passou sete anos chutando o seu antecessor, Fernando Pimentel (PT), sem grande impacto. Mérito algum em atacar o derrotado. Durante os anos Bolsonaro, fez vistas grossas para o atraso na vacinação, o descaso nas medidas de controle e a falta de uma política nacional uniforme para o enfrentamento da pandemia de Covid-19. Durante os anos Lula (PT) ganhou, enfim, nova voz, um “inimigo” vivo para chamar de seu. As críticas ao PT, a Lula e ao governo federal pelas mídias digitais tornaram-se tão corriqueiras, que já não o destacavam.
Desde agosto de 2025 pré-candidato à Presidência da República e em constante périplo pelo país, sem que por isso reagisse nas pesquisas de intenção de voto, Romeu Zema precisava desesperadamente de chuteiras e, quem sabe, até um parceiro para uma tabela. Viu a oportunidade. Em seu pior momento de desgaste, o STF era a bola da vez. Começou chamando a instituição de “podre” e foi subindo o tom, à medida em que o caso Master ia transbordando para dentro da Corte. Foi logo pedindo a “prisão” de ministros, sem direito ao devido processo legal. Em 12 de abril, em debate na Associação Comercial de São Paulo, abriu o leque para mais uma investida: “Não tem corrupção no Novo. No PL eu acho que tem algumas frutas podres lá”. Depois de afirmar que no PL, “alguns lá, talvez” sejam antidemocráticos, retomou o alvo: “Esses dois [Dias Toffoli e Moraes] pra mim não merecem só processo de impeachment, merecem prisão”, afirmou Zema.
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Dois dias depois, pelo X, o ex-governador mineiro, enfim, encontrou o seu par. Em princípio, o ministro Gilmar Mendes não parecia querer jogar no campo. Retrucou com dados indigestos da dívida de Minas, um tema espinhoso para Zema: ao aderir ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF) em julho de 2022, Zema se voltou ao Supremo para prorrogar a suspensão de pagamentos das parcelas devidas à União previstas no novo Contrato nº 336/2022 por mais 21 meses. Apontando para o que considerou “utilitarismo político”, Gilmar assinalou que o ex-governador recorreu repetidas vezes para não pagar “obrigações bilionárias” devidas pelo estado, usando a Corte como “escudo fiscal e contábil”. Em resumo, Gilmar assinalou que Zema só governou Minas com a ajuda do STF. O ex-governador rebateu, sem grande repercussão.
Mas a brincadeira ganhou um novo tom, nos dias seguintes, com a reação de Gilmar Mendes a um vídeo que, em suposta sátira aos ministros, Zema deixa implícita graves ilações sobre corrupção e tráfico de influência. Ao anunciar que iria requerer de Alexandre de Moraes a inclusão de Zema no inquérito das Fake News – em curso há sete anos – Gilmar elevou o debate a outro patamar. E o pré-candidato foi ao centro do debate nacional do jeito que gosta: no campo da moral, dos bons costumes e das narrativas.
Só esta semana Zema publicou mais 14 vídeos com críticas ao STF. E a cada vez que Gilmar Mendes abre a boca para retrucar, impulsiona mais o perfil de Romeu Zema. A última crítica do ministro resvalou para o linguajar. Péssima escolha. Ninguém duvida que Zema não seja leitor de Adélia Prado. Tampouco, ninguém duvida que Zema tenha limitações para debater em campo técnico, no mérito dos grandes temas. Mas o ex-governador encontrou na crítica do ministro o refúgio perfeito, o salvo-conduto para abandonar os dados e abraçar o simbolismo: o juridiquês é linguagem ainda mais incompreensível para a grande maioria da população brasileira.
Gilmar Mendes preparou o substrato, encaixou os tapetes de grama pré-cultivada, compactou, irrigou e fez o primeiro corte. Gramado preparado com o cuidado da trama de um veludo impecável, entregou as chuteiras e a bola a Zema. Correr, rolar ou chutar na grama? Eis o dilema. Zema cresceu com o embate e arrisca-se, com o palavrório aberto, tornar Flávio Bolsonaro (PL) o novo “moderado” da disputa, já que ele não mede palavras para, ao estilo Collor de Mello, fazer do ataque aos novos marajás o núcleo central de sua campanha.
Denúncia
O vereador Pedro Rousseff (PT) protocolou nessa quinta-feira (23) representação na Procuradoria-Geral Eleitoral contra o pré-candidato à Presidência da República Romeu Zema (Novo) por sua participação na cerimônia oficial da Medalha da Inconfidência, em 21 de Abril, em Ouro Preto. Segundo a representação, embora não ocupe mais cargo público, Zema teve papel de destaque na solenidade, participando da entrega de honrarias e realizando discurso oficial ao lado do governador Mateus Simões (PSD). Para o vereador, a presença institucional do ex-governador extrapolou o caráter protocolar e lhe conferiu “vantagem simbólica e comunicacional indevida” diante de outros possíveis concorrentes ao Palácio do Planalto.
Afonso Arinos
O jornalista e presidente emérito da Academia Mineira de Letras (AML), Rogério Faria Tavares, e o professor Arno Wehling lançam, neste sábado (25), das 11h às 14h, na Livraria da Rua, “Nos 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco”. A obra, publicada pela Editora Miguilim, com textos de Aspásia Camargo, Bernardo Cabral, Christian Lynch, Edmar Bacha, Joaquim Falcão, José Sarney e Rubens Ricúpero. Resgata, em 17 ensaios, o legado intelectual do autor.
Acordo Copasa
Em assembleia realizada nessa quinta-feira, o presidente da AMM, Lucas Vieira aprovou, junto aos representantes de municípios mineiros, a proposta negociada com a Copasa em torno do modelo das concessões a partir da privatização da Copasa. As prefeituras mineiras terão a possibilidade de antecipar os recursos do repasse tarifário que são depositados pela Copasa no Fundo Municipal de Saneamento e regulamentado pela Arsae. Os municípios receberão o valor em duas parcelas: a primeira em outubro deste ano e a segunda em março de 2027. Atualmente, esses repasses são limitados a 4% da receita líquida mensal.
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Em números
Pelo acordo, o prazo de concessão poderá ser ampliado até 2073, com metas progressivas de universalização dos serviços e maior previsibilidade regulatória. Dependendo da adesão dos municípios esse valor pode ultrapassar os R$ 350 milhões. Caso seja de interesse dos municípios, poderá ser adiada para 2029 o início da operação e da cobrança de tarifas de esgotamento sanitário, com o escalonamento de investimentos respeitando as exigências do Novo Marco do Saneamento.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
