O leilão para a chapas de deputados federais
Para partidos políticos, eleger deputados federais tornou-se mais importante do que conquistar governos de estados
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Dois deputados federais e presidentes de partidos políticos em Minas se encontram sentados lado a lado, na quinta-feira, em voo de Brasília a Belo Horizonte. Um deles reclama: “Você está dando muito dinheiro para a campanha de fulano (um ex-deputado federal). Está inflacionando o mercado para montar as chapas”. O segundo interlocutor estranhou a abordagem: “Como assim? Eu? Quem está dando é você!”. O primeiro não se fez de rogado e despejou irritado: “Ele me disse que você ofereceu R$ 2 milhões para ele ser candidato pelo seu partido. E pediu para eu cobrir a oferta”. A resposta do segundo interlocutor: “Uai, sabe que ele me disse o mesmo de você?” Interlocutores se entreolham desconfiados, avaliando se ambos são vítimas de um mesmo fenômeno ou competidores pelo passe de uma candidatura com potencial de votos para as suas legendas. Os dois sabem que as duas situações são verdadeiras.
Para partidos, eleger deputados federais tornou-se mais importante do que conquistar governos de estados: quanto maiores as bancadas, maior a participação proporcional no fundo partidário, de em média R$ 4 bilhões ao ano, e, no fundo eleitoral, que, em 2026, será de R$ 4,9 bilhões. Além disso, as legendas precisam superar a cláusula de barreira, conquistando 2,5% dos votos válidos (ou elegendo 13 deputados federais). Caso contrário, serão condenadas à míngua: não terão acesso a recursos públicos, nem a tempo de propaganda gratuita e ao horário eleitoral gratuito. Tendem a desaparecer.
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É sob a pressão da sobrevivência que lideranças de partidos de porte pequeno e médio se tornaram partícipes de um leilão para a construção das chapas proporcionais à Câmara dos Deputados. Ex-prefeitos, lideranças regionais, ex-deputados com algum potencial eleitoral descobriram o seu valor de “mercado”. É com o seu quinhão proporcional do fundo especial eleitoral que cada legenda está oferecendo recursos de campanha em primeiro lugar para a reeleição dos deputados federais.
Mas, para além dos deputados federais candidatos à reeleição, os presidentes de partidos de tamanho pequeno a mediano estão fazendo contas para “bancar” as campanhas de lideranças com votação potencial de até 50 mil votos, em geral insuficiente para o sucesso eleitoral individual numa dessas legendas, mas necessário para que, na soma dos votos dados a todos os candidatos da chapa, superem o quociente eleitoral. Em 2022, o quociente eleitoral para a eleição de um deputado federal por Minas foi de 210.964 votos.
Alguns poucos montadores de chapa profissionais conseguiram, ao longo dos últimos anos, “manter” uma reserva de candidaturas em cargos públicos, destinadas a operar como colchão para que nele se deitem aqueles indicados pelos cacifes a se eleger. São exceções a escapar do cenário pretoriano para a montagem da chapa. Em situação de batalha em campo aberta ao estilo matar ou morrer está a expressiva maioria de presidentes de partidos que estão espremidos entre os ideológicos PL, de um lado, e PT, PCdoB e PV, do outro.
A Federação PT-PCdoB-PV projeta para as eleições de outubro de 2026 um desempenho estável junto ao campo de eleitores de centro e de esquerda, que lhe possibilitará ampliar pouco e reeleger os seus quadros. Terá para financiar as candidaturas R$ 619,7 milhões do fundo eleitoral. Em situação mais vantajosa está o PL. Não bastasse ter a seu dispor a maior parcela do fundo eleitoral para campanhas, de R$ 886 milhões, a legenda em Minas ainda terá o deputado federal Nikolas Ferreira, que deverá ampliar o desempenho de 2022, quando alcançou o recorde histórico de 1,47 milhão de votos.
Com a sua votação individual, Nikolas se elegeu e carregou outros seis deputados. Não à toa, nesta eleição, o parlamentar quer ter influência sobre a formação da chapa para a Câmara dos Deputados. Nikolas vem exigindo da direção nacional do PL que seja consultado antes de aceitar a filiação de deputados federais e lideranças que querem migrar para o PL com o propósito de pegar carona em sua votação. Até aqui, está conseguindo barrar alguns nomes. Mas vem reiterando o alerta: se não for ouvido, poderá mudar de legenda. É assim que, diferentemente das legendas pequenas e médias, o PL vive um leilão às avessas.
Nikolas veta
O deputado federal Nikolas Ferreira fez chegar a Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, o seu veto ao encaminhamento em curso para a filiação na legenda dos deputados federais Stefano Aguiar (PSD), dr. Frederico (PRD), Pedro Ayara (PRD) e de um novo paraquedista na política mineira, Thiago Ganem (Podemos) – que se chama Thiago Milhim – do mesmo grupo político de Lucas Ganem (Podemos) de São Paulo, eleito vereador em Belo Horizonte e acusado de fraudar domicílio eleitoral. As únicas parlamentares filiadas ao PL com o aval de Nikolas Ferreira foram Greicy Elias (ex-Avante) e Delegada Ione (ex-Avante).
Milhim ou Ganem?
O pedido para a filiação ao PL de Minas de Thiago Milhim veio da presidente nacional do Podemos, Renata Abreu, feito ao líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (PL). Thiago Milhim é ex-secretário municipal de Esportes e Lazer de São Paulo e ex-secretário de Esporte Amador, Educação, Lazer e Inclusão Social do Ministério do Esporte no governo Lula. Indicado pelo deputado federal Bruno Ganem (Podemos-SP), ele deixou o ministério no final de 2023, após divergências com o ministro André Fufuca (PP), acusado de liberar R$ 73 milhões em recursos para estádios, destinados principalmente a municípios redutos do Podemos. Thiago Milhim adotou o sobrenome Ganem, assim como os demais integrantes do grupo político.
Estratégia
Desde 2025, chamou a atenção na Câmara Municipal de Belo Horizonte novos perfis nas redes com o nome “Thiago Ganem MG”. Trata-se da mesma estratégia eleitoral adotada pelo paulista Lucas Ganem para se eleger vereador na capital mineira. São criados múltiplos perfis temáticos, com o mesmo nome, em suposta defesa de animais, saúde mental ou segurança pública. Interagem, assim, com um público específico, em postagem que geram engajamento, por meio das quais coletam dados via abaixo-assinados.
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Cifras
Em 2002, o limite máximo de gastos apontado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para a campanha a Câmara dos Deputados em Minas foi de R$ 2,5 milhões. Este ano, partidos aguardam a divulgação da nova tabela corrigida pelo IPCA, estimando, valor próximo a R$ 3 milhões, por parlamentar candidato.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
