Bebel Soares
Bebel Soares
PADECENDO

Coragem: uma hélice dentro da gente

Em um mundo que insiste em nos diminuir ou nos isolar, cultivar amizades verdadeiras e falar abertamente sobre nossos medos é um ato revolucionário

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Coragem: uma hélice dentro da gente!”. Esta frase não está em um livro de autoajuda na minha estante; ela estampa um quadro na parede da minha cozinha, bem embaixo de um coração desenhado com traços firmes. Nos dias de calmaria, ela é apenas decoração. Mas, quando o peso da rotina parece exercer uma gravidade extra sobre os meus ombros, olho para ela e começo a refletir sobre esse movimento interno.

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Mesmo quando tudo parece nos puxar para baixo, existe algo girando lá dentro. É um movimento silencioso, uma força centrífuga que tenta, a todo custo, criar o impulso necessário para o voo ou, no mínimo, para o próximo passo. Aprendi que a coragem não é um estado de espírito iluminado e constante; ela nasce, ironicamente, sob pressão. É no aperto que a hélice precisa girar mais rápido.

Há momentos em que essa hélice precisa furar o bloqueio do medo, aquele medo denso que nos paralisa.

 Reflito muito sobre isso ao conversar com as mães que me acompanham. Para nós, muitas vezes, o medo do boleto que vence amanhã é dramaticamente maior do que a vontade de sonhar. A vulnerabilidade financeira é um peso físico no peito. Ela gera uma ansiedade que sussurra, cruelmente, que o nosso tempo passou, que o mercado de trabalho não tem mais lugar para quem pausou para cuidar, ou que a inovação é privilégio dos mais jovens.

Quando o ar me falta e a ansiedade parece dissolver o chão sob meus pés, busco socorro em vozes externas. Lembro-me da frase da maravilhosa atriz Sarah Paulson: “Não existe nada que uma mulher não consiga fazer quando está cercada por amigas”. É nesse pensamento que me seguro quando sinto que a conta da vida não vai fechar. A amizade feminina não é apenas sobre o café compartilhado ou o riso frouxo; é sobre potência política e emocional. É ter uma rede de segurança que, embora invisível, é feita de fios inquebráveis. É um fluxo contínuo: a força que recebo hoje é a mesma que doarei amanhã.

Precisei pausar a escrita deste texto. No meio do caminho entre uma linha e outra, a teoria deu lugar à prática forçada: tive uma crise de ansiedade. O paradoxo é quase cômico, se não fosse doloroso. Ali, apavorada, lembrei-me das mulheres que encorajei ao longo desta semana. As palavras que disse, olhando nos olhos delas ,sobre potencial, resiliência e valor. Palavras sinceras. Se eu acredito nelas, por que o espelho é o meu juiz mais severo? Precisei acolher em mim a mesma coragem que distribuo.

E essa é a coragem mais difícil: a de admitir o pavor. Estou apavorada com os planos para 2026, com os projetos engavetados que decidi tirar da luz e com os sonhos que haviam sido pausados pelo medo do erro. No meio desse sufocamento, abri o LinkedIn e li um post da amiga Luciana Cattony que serviu como o oxigênio que eu precisava. Ela escreveu sobre a coragem de propor o novo e questionar o antigo, mas destacou algo ainda mais delicado:

“Coragem para ser quem se é. Coragem para ser feliz. Porque, muitas vezes, no automático da vida, a gente vai adiando sonhos, escolhas, vontades…”

Quando mulheres se unem e se reconhecem vulneráveis, a mágica acontece. Deixamos de ser competidoras para nos tornarmos potência, levando a luz que a outra ainda não consegue enxergar. Em um mundo que insiste em nos diminuir ou nos isolar, cultivar amizades verdadeiras e falar abertamente sobre nossos medos é um ato revolucionário. É um manifesto de amor-próprio e coletivo.

Que a nossa hélice continue girando. Mesmo que, às vezes, ela faça barulho ou treme antes de decolar. O importante é não deixar de girar. Como bem disse Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, em uma frase que resume a nossa jornada:

"O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois inquieta. O que ela quer da gente é coragem."

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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