O inventário do tempo: uma prece para o amanhã
Fica o entendimento de que somos seres em construção, herdeiros de traumas, mas também arquitetos de novas formas de amar
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O ano de 2025 foi um mergulho profundo nas entranhas do que significa cuidar e existir. Se pudéssemos abrir a mochila que carregamos esse ano, encontraríamos nela muito mais do que livros escolares ou agendas de trabalho. Encontraríamos o peso invisível de escolhas difíceis, o luto por fases dos nossos filhos, que se esvaíram entre os dedos, e a exaustão de quem tentou equilibrar o mundo nas costas enquanto as redes sociais nos vendiam uma ditadura da felicidade impecável.
Começamos janeiro tentando sobreviver à pressão por férias perfeitas, apenas para descobrir, logo ali em fevereiro, que a volta às aulas trazia consigo aquele misto amargo de alívio e culpa. Quantas vezes nos perguntamos se as telas não se tornaram o novo cigarro da nossa geração, tragando o tempo que deveríamos dedicar ao olho no olho? Educar tornou-se um exercício de paciência e renúncia, especialmente em um março no qual o trabalho mental feminino se revelou, mais uma vez, como o nó cego que sustenta as estruturas familiares, mas que esquece de quem o amarra.
Vimos a adolescência chegar sem aviso para muitos, trazendo silêncios que falaram mais que mil palavras. Aprendemos que dizer "não" é um ato de amor, e que colocar limites é a maior herança emocional que podemos deixar. Atravessamos o deserto do burnout materno, lembrando que a paternidade ativa precisa ir muito além do "ajudar" para que o cuidado de quem cuida seja, enfim, uma rede real e não apenas um conceito bonito em colunas de jornal.
Falamos de dores ancestrais e urgentes. Discutimos o racismo estrutural com nossos pequenos e choramos as ausências que o Dia dos Pais e das Mães muitas vezes escancaram. Olhamos para o retrovisor e vimos que a saudade de quem ainda está aqui é, talvez, a forma mais sutil de solidão. E, em meio ao caos das festas de encerramento e à pressão pelo consumo que dezembro teima em nos impor, chegamos ao topo dessa montanha chamada 2025.
O que fica, afinal, depois de tanto esforço? Fica a gratidão como um exercício de sobrevivência. Fica a compreensão de que a magia de ler para uma criança ou a simplicidade de um brincar descompromissado valem mais do que qualquer item de desejo da vitrine. Fica o entendimento de que somos seres em construção, herdeiros de traumas, mas também arquitetos de novas formas de amar.
As promessas para 2026 já batem à porta. Que o novo ano não seja apenas uma mudança de dígito, mas uma mudança de carga. Que possamos deixar na calçada de 2025 o julgamento cruel que trocamos entre nós, mulheres e mães, e levemos apenas o acolhimento. Que o tempo em 2026 não apenas voe, mas que nos permita estacionar naquilo que realmente importa: a presença.
Desejo que 2026 seja, acima de tudo, leve. Uma leveza que não nasce da falta de problemas, mas da sabedoria de não querer carregar o que não nos pertence. Que as nossas "mochilas" sejam preenchidas com mais gargalhadas autênticas e menos expectativas irreais. Que possamos ser mais gentis com nossas falhas e mais generosos com nossos silêncios.
O balanço do ano que se despede é claro: sobrevivemos. E no abraço do ano que chega, que a gente se permita apenas ser, sem a obrigação de ser perfeito. Que venha 2026, com a promessa de que a vida, apesar de tudo, sempre encontra um jeito de florescer em meio ao concreto. Que a luz da esperança, que insistimos em renovar todo mês de novembro e toda manhã de Natal, ilumine os dias comuns, transformando o ordinário em algo sagrado. Feliz 2026, com menos nós na garganta e mais paz no coração.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
