Quando o que não faltava começa a faltar
Na psicanálise, desejo e falta caminham juntos. Desejamos a partir daquilo que nos falta. É essa falta que nos coloca em movimento
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Uma vida pode estar suficientemente boa até ser colocada diante de outras vidas. A casa nos atende, o trabalho faz sentido, convivemos razoavelmente bem com o próprio corpo e seguimos uma rotina construída ao longo dos anos. Nada disso precisa mudar. Ainda assim, em algum momento, pode começar a parecer pouco.
Basta mudar a referência. Nunca tivemos acesso a tantas possibilidades de comparação. Em poucos minutos diante de uma tela, encontramos outras casas, corpos, profissões, relacionamentos, viagens, formas de educar os filhos e maneiras de envelhecer. Não vemos apenas produtos que poderíamos comprar. Vemos também outras possibilidades para a nossa própria vida.
- Fragmentos: de quantas partes somos feitos?
- Você está construindo uma velhice que gostaria de viver?
- Como está sua bateria?
E, discretamente, alguma coisa que não nos fazia falta pode começar a faltar.
Na psicanálise, desejo e falta caminham juntos. Desejamos a partir daquilo que nos falta: do que buscamos, queremos alcançar, conhecer ou viver. É essa falta que nos coloca em movimento.
Mas nossos desejos não se formam isoladamente. Aquilo que desejamos também se constrói na relação com o mundo ao nosso redor.
Nossas buscas, nossos cliques, onde paramos, o que ignoramos e os assuntos aos quais retornamos deixam rastros. Essas informações ajudam os sistemas de recomendação a selecionar aquilo que tem maior chance de capturar novamente nossa atenção. A inversão começa aí. Continuamos procurando aquilo que desejamos, mas aquilo que pode despertar nosso desejo também passou a nos procurar.
Pesquisamos um destino e começamos a receber hotéis, passagens e imagens daquele lugar. Paramos diante de um conteúdo sobre carreira e aparecem cursos, especialistas e histórias de transformação profissional. Demonstramos interesse por algum tema relacionado ao corpo e novas imagens, procedimentos e soluções passam a ocupar a tela.
A repetição modifica o lugar que essas possibilidades ocupam em nossa atenção. Uma curiosidade pode se tornar familiar, entrar para nossas referências e alterar a maneira como percebemos aquilo que já temos.
A comparação não nasceu com as redes sociais. Sempre construímos parte da percepção de nós mesmos na relação com os outros. Família, amigos, grupos aos quais pertencemos e os valores de cada época oferecem referências sobre o que consideramos bonito, desejável ou sinal de sucesso. As redes, porém, multiplicaram essas referências e ampliaram seu alcance. Em poucos minutos, podemos colocar um dia comum da nossa vida diante de recortes selecionados da vida de pessoas que sequer conhecemos.
E não nos comparamos apenas com elas. Também nos comparamos com possibilidades de quem poderíamos ser: um corpo mais jovem, uma carreira mais reconhecida, uma relação mais harmoniosa, uma casa mais bonita, uma rotina mais produtiva, uma vida mais interessante.
A oferta ganha força quando deixa de apresentar somente algo que podemos ter e passa a sugerir uma versão de nós mesmos que poderíamos alcançar.
Uma viagem pode representar mais do que a experiência de viajar; um curso, mais do que conhecimento; uma roupa, mais do que sua função. A cada uma dessas escolhas podem se associar ideias de pertencimento, reconhecimento, segurança, beleza, sucesso ou juventude.
Aquilo que nos é oferecido pode encontrar desejos que já existem, mas também reorganizar nossas referências e participar da construção de novas insatisfações.
Em algumas situações, o contato repetido com essas possibilidades e com aquilo que elas representam pode nos fazer perceber uma falta onde antes havia suficiência.
Essa mudança é sutil. Não acordamos um dia decidindo que nossa vida deixou de ser boa. Apenas começamos a olhá-la com uma régua que antes não utilizávamos.
Nesse contexto, há outro elemento importante: o tempo. Entre conhecer uma possibilidade e transformá-la em necessidade, o intervalo parece cada vez menor. Vemos, desejamos e podemos comprar quase no mesmo instante. Uma insatisfação encontra rapidamente um produto, um curso, um procedimento, uma experiência ou uma promessa de mudança.
A velocidade facilita a vida, mas reduz o tempo de elaboração. Sustentar algum intervalo permite perceber se um desejo permanece quando o estímulo desaparece, se encontra lugar na nossa história e se corresponde ao que valorizamos.
Não existe uma fronteira precisa capaz de separar o que nasceu em nós daquilo que aprendemos a desejar. Nossos desejos são influenciados pelas relações, pela cultura, pelas experiências, pelo tempo em que vivemos e também por um ambiente que seleciona o que vemos a partir dos rastros que nós mesmos deixamos.
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Nem sempre escolhemos as influências que chegam até nós, mas podemos preservar algum espaço entre aquilo que nos é apresentado e aquilo que decidimos incorporar à vida que queremos construir.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
