ALESSANDRA ARAGÃO
Alessandra Aragão
Comunicadora, trabalha com desenvolvimento humano, atuando em terapia sistêmica, mentoria positiva e coaching de vida e carreira
(RE)INVENTE-SE

Muito além do CPF e do CNPJ

Quando você se apresenta para alguém, o que costuma dizer primeiro? A profissão? O cargo? A empresa onde trabalha?

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Recentemente, li um post nas redes sociais sobre CPF e CNPJ. A reflexão fazia sentido, mas me levou a pensar que o verdadeiro desafio não acontece entre a vida pessoal e a vida profissional. Ele acontece quando deixamos que a resposta sobre quem somos caiba em apenas um dos muitos papéis que ocupamos ao longo da vida.

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Quem vive essa realidade sabe que não existe um botão para deixar de ser mãe ao entrar na empresa ou deixar de ser profissional ao voltar para casa. A mudança de ambiente não apaga as outras dimensões da nossa vida. Somos profissionais, mas também filhos, pais, mães, parceiros, amigos e cidadãos. Em alguns momentos empreendemos. Em outros, fazemos parte de organizações. Há quem passe anos cuidando dos pais. Há quem dedique grande parte da vida à criação dos filhos. Cada um desses papéis exige habilidades, responsabilidades e diferentes formas de estar presente.

Não há problema em ocupar muitos papéis. Ao contrário. São eles que organizam a vida. Oferecem pertencimento, reconhecimento, direção, propósito e a sensação de sermos necessários. É natural investir energia naquilo que nos faz sentir úteis e recompensados.

O risco aparece quando todo o nosso valor passa a depender de um único papel.

No trabalho, essa mudança quase nunca acontece de forma repentina. Primeiro respondemos mensagens depois do expediente. Depois levamos o trabalho para o fim de semana. Cancelamos um encontro porque surgiu uma reunião importante. Adiamos férias. Almoçamos olhando para o celular. Até que o trabalho deixa de ser uma parte da vida e passa a definir quem somos. É nesse momento que, simbolicamente, o CNPJ começa a sequestrar o CPF. Mas esse fenômeno não pertence apenas ao mundo do trabalho.

Também acontece com filhos que dedicam décadas exclusivamente aos pais. O cuidado pode ser uma das maiores demonstrações de amor. O problema surge quando essa passa a ser a única forma de viver. Projetos pessoais, amizades, relacionamentos e interesses vão sendo adiados. Quando os pais partem, muitas pessoas descobrem que perderam não apenas alguém que amavam, mas também o papel a partir do qual organizavam a própria existência.

O mesmo acontece com mães e pais quando os filhos saem de casa, com atletas ao encerrar a carreira, com profissionais na aposentadoria ou com empreendedores que vendem a empresa construída durante décadas. O problema nunca foi exercer esses papéis. O problema é esquecer que eles representam apenas algumas das muitas formas de viver uma vida. Nenhum cargo, profissão, empresa, vínculo ou responsabilidade é capaz de definir completamente quem somos.Nenhuma definição consegue conter a complexidade de uma vida.

Durante muitos anos eu era conhecida como "Alessandra da TV Globo". Aquela identificação fazia sentido e eu tinha orgulho de fazer parte daquela organização. Mas, em determinado momento, compreendi que precisava construir uma identidade que permanecesse para além da empresa. Eu não era da TV Globo. Eu trabalhava na TV Globo.

Essa diferença, aparentemente simples, transformou profundamente a maneira como passei a olhar para minha própria trajetória.

Cargos e funções não são permanentes. Exercemos diferentes atividades profissionais em determinados períodos da vida. Mesmo quem fundou uma empresa ocupa um lugar transitório. Negócios podem ser vendidos, sucessões acontecem e ciclos terminam.

Os papéis mudam. E, ao vivê-los, também nos transformamos.

Na Terapia Sistêmica, gosto de fazer uma pergunta que amplia essa reflexão. Quem ficou sem lugar enquanto você ocupava apenas um? Quando toda a energia é direcionada ao trabalho, quem vai ficando para depois? O casal. Os filhos. Os amigos. A saúde. O descanso. Os interesses que simplesmente fazem parte de quem você é. Mas essa pergunta vale para qualquer papel. Quando toda a vida gira em torno do cuidado com alguém, que espaço sobra para cuidar de si? Quando toda a identidade está concentrada na profissão, quem continua existindo quando o expediente termina?

Vivemos uma época em que nunca foi tão fácil confundir função com identidade. O trabalho continua nas redes sociais, na marca pessoal, nas mensagens, na necessidade permanente de produzir, responder e permanecer relevante. A questão não é apenas equilibrar CPF e CNPJ. É compreender que nossa identidade é maior do que qualquer papel que ocupamos.

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Quem continua sendo você quando um dos seus papéis deixa de existir? Os papéis fazem parte da vida porque a vida está em constante movimento. Cargos terminam. Empresas são vendidas. Os filhos crescem. Os pais partem. Novos projetos começam. Outros chegam ao fim. Viver é reconhecer que desempenhamos muitos papéis ao longo da vida sem permitir que nenhum deles esgote tudo aquilo que somos.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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