ALESSANDRA ARAGÃO
Alessandra Aragão
Comunicadora, trabalha com desenvolvimento humano, atuando em terapia sistêmica, mentoria positiva e coaching de vida e carreira
(RE)INVENTE-SE

Saber não é o mesmo que mudar

Embora não sejamos responsáveis por tudo o que vivemos na infância, precisamos nos tornar responsáveis pelo que fazemos com essas memórias hoje

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Há pessoas que já percorreram um longo caminho de autoconhecimento. Fizeram terapia, leram inúmeros livros, consumiram conteúdos profundos e entendem, com precisão racional, a lógica do que vivem. Elas conseguem explicar a origem dos seus comportamentos e identificar os gatilhos das suas reações. Ainda assim, apesar de tanta lucidez, continuam repetindo os mesmos movimentos emocionais. Voltam para relações que machucam, permanecem em dinâmicas desgastantes, adiam decisões fundamentais, se anulam diante do outro ou sentem um medo paralisante de se posicionar.

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No dia a dia do consultório, essa angústia aparece com constância através de questionamentos inquietantes: "Agora que compreendi de onde vem meu padrão, como eu faço para mudar?" ou "Por que, mesmo sabendo tudo isso, eu não consigo agir diferentemente?".

Isso acontece porque ter consciência de algo não é o mesmo que viver uma transformação. Entender a lógica de um padrão não significa, automaticamente, ter forças para sair dele. A mudança emocional não ocorre apenas no nível intelectual; ela envolve o corpo, a memória afetiva, a sensação de segurança e, muitas vezes, lealdades invisíveis construídas ao longo de toda uma vida. Saber o porquê de um comportamento oferece clareza, mas não substitui o esforço necessário para sustentar novas formas de agir.

A neurociência nos ajuda a compreender a complexidade desse processo. O cérebro humano é programado para repetir aquilo que já conhece, mesmo quando o conhecido produz sofrimento. Padrões emocionais reforçados durante anos criam circuitos neurais automáticos que funcionam como caminhos já pavimentados.

Quanto mais um comportamento se repete, mais familiar ele se torna para o nosso sistema nervoso. Nesse aspecto, o cérebro busca, acima de tudo, a previsibilidade. Ele prefere o desconforto conhecido à incerteza do novo, priorizando a sobrevivência e não necessariamente a felicidade.

Na prática, vivemos um conflito interno constante. Uma parte de nós deseja o crescimento, enquanto outra quer apenas se manter segura. Por isso, muitas vezes a pessoa acredita que não muda porque não quer o suficiente, quando, na verdade, ela está sendo freada por mecanismos inconscientes de proteção.

Quem cresceu em ambientes de instabilidade pode sentir uma estranha insegurança diante de relações saudáveis. Quem aprendeu a se anular para manter vínculos sente uma culpa avassaladora ao estabelecer limites. O corpo se acostuma com determinadas emoções e passa a reconhecê-las como seu território conhecido, mesmo que esse lugar não ofereça qualquer sensação de abrigo ou paz.

Um dos maiores equívocos do autoconhecimento contemporâneo é a romantização da consciência rápida. Criou-se a ilusão de que basta nomear um trauma, iniciar um processo terapêutico ou compartilhar uma frase de efeito para que a transformação ocorra por mágica, de forma instantânea.

No entanto, estar em terapia não é uma promessa de cura imediata ou de apagamento do passado. O processo envolve a ressignificação de muitas dores e também o aprendizado de conviver com certas marcas, desenvolvendo recursos para lidar com o que antes nos paralisava.

Compreender o funcionamento de um padrão é apenas o marco inicial, e não o encerramento do processo. O que realmente transforma é a capacidade de sustentar escolhas diferentes ao longo do tempo, suportando o estranhamento e o medo que o novo sempre provoca no início.

Pela visão sistêmica, muitos padrões permanecem não por falta de entendimento, mas porque representam pertencimento. Sem perceber, mantemos determinados comportamentos por lealdade familiar ou por um medo arcaico da exclusão e de não sermos amados.

Afinal, a necessidade de aceitação e de um amor correspondido é uma das nossas bases primárias de segurança. Sair de certos lugares emocionais pode trazer a sensação de estar traindo o próprio sistema e, consequentemente, colocando em risco esses vínculos essenciais. Enquanto esse emaranhado não é olhado com profundidade, a repetição continua, mesmo que a razão já tenha compreendido tudo.

A construção da própria vida é uma responsabilidade pessoal. Embora não sejamos responsáveis por tudo o que vivemos na infância, precisamos nos tornar responsáveis pelo que fazemos com essas memórias hoje. Existe um momento em que a dor explica a nossa história, mas existe outro em que ela começa a nos aprisionar.

Continuar terceirizando frustrações e decisões para o passado, para os outros ou, principalmente, para a figura dos pais, acaba sendo, no fim das contas, uma escolha. Embora as circunstâncias tenham sido reais e muitas vezes dolorosas, o apego ao papel de vítima impede que o presente seja vivido com liberdade.

Mudar exige interromper o funcionamento automático. Exige tolerar o desconforto de agir de forma diferente e abrir mão de identidades construídas ao redor da própria ferida. Muitas pessoas passam anos tentando entender a própria vida sem perceber que, para além da compreensão, será necessário começar a escolhê-la de forma diferente. 

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A lucidez oferece a direção, mas é a ação que efetivamente altera o destino.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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