ALESSANDRA ARAGÃO
Alessandra Aragão
Comunicadora, trabalha com desenvolvimento humano, atuando em terapia sistêmica, mentoria positiva e coaching de vida e carreira
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Certo ou errado: de quem é a voz que julga suas escolhas?

Meu convite é olhar para além do bem e do mal e investigar de onde nascem as próprias certezas

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No dia a dia, seja nas relações familiares, entre amigos ou mesmo no consultório, é comum observar um movimento quase automático após alguém tomar uma atitude ou fazer uma escolha. A pessoa decide, se posiciona e, logo em seguida, busca no olhar do outro uma confirmação. Uma pergunta silenciosa se instala: isso que fiz está certo ou está errado? Essa busca por validação costuma tocar algo mais profundo, ligado à necessidade de pertencimento, segurança e reconhecimento.

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Muitas vezes, o desconforto não nasce da escolha em si, mas da ausência de um aval externo que tranquilize a consciência, como se o critério interno ainda não fosse suficiente. Isso nos convida a uma pergunta essencial: de onde vem a nossa noção de certo e errado? Que referências sustentam esse julgamento que parece tão imediato e, ao mesmo tempo, tão frágil quando não encontra eco no outro?

Desde cedo, aprendemos a nomear comportamentos como bons ou ruins, aceitáveis ou condenáveis.

Esse aprendizado se constrói dentro de uma cultura, sustentado por valores familiares, crenças religiosas, normas sociais e histórias emocionais. Ao longo do nosso desenvolvimento, o senso moral vai se organizando a partir dessas referências, muitas vezes mais ligado à aprovação, à regra e ao medo de errar do que a princípios realmente elaborados. Isso ajuda a compreender por que, em muitos contextos, o que chamamos de certo permanece profundamente dependente do olhar do outro e das expectativas do grupo.

Também não julgamos apenas com a razão. Grande parte das avaliações morais surge de forma rápida, intuitiva e emocional: primeiro sentimos, reagimos e julgamos; só depois explicamos. O certo e o errado, nesse sentido, dizem menos sobre lógica e mais sobre nossa história. Julgar rápido costuma ser menos um exercício ético e mais uma tentativa de proteção.

Quando ampliamos o olhar, o peso do contexto se torna evidente. Pessoas comuns podem agir de formas que contradizem seus próprios valores quando submetidas à autoridade, à pressão do grupo ou a ambientes que legitimam determinados comportamentos. Isso não justifica atitudes, mas lembra que julgamentos feitos sem considerar o contexto tendem a ser simplistas e injustos.

Na abordagem sistêmica, essa compreensão se aprofunda. O olhar se desloca da atitude isolada para as forças invisíveis que operam nas escolhas humanas. Aquilo que hoje pode ser visto como errado, em outro momento foi uma solução possível dentro de um contexto específico. Muitas decisões nascem menos do desejo consciente de fazer o bem e mais da necessidade de pertencer, preservar vínculos ou garantir alguma forma de sobrevivência.

Talvez por isso tantos conflitos surjam nas relações, especialmente entre casais e famílias. O que é considerado correto em um sistema familiar pode ser visto como inadequado em outro, não porque alguém esteja necessariamente errado, mas porque os aprendizados foram diferentes. Valores herdados e crenças não questionadas entram em choque, criando disputas que falam mais sobre histórias pessoais do que sobre princípios universais.

Nesse ponto, é importante diferenciar moral e ética. A moral está ligada às regras, normas e valores aprendidos ao longo da vida, moldados pela família, cultura, religião e contexto social. A ética, por sua vez, não se apoia apenas no que foi aprendido, mas no que foi integrado. Diz respeito a um princípio interno, a um compromisso pessoal com aquilo que se considera justo, mesmo quando não há vigilância, recompensa ou punição. É nesse sentido que se diz que a ética é o que fazemos quando ninguém está olhando.

Essa distinção ajuda a compreender por que tantas escolhas geram insegurança depois de feitas. Quando estamos orientados apenas pela moral, precisamos do outro para confirmar se acertamos. Quando a ética está mais amadurecida, a decisão pode até ser difícil, mas tende a ser sustentada internamente.

Refletir sobre o certo e o errado não é relativizar tudo nem abrir mão da responsabilidade. É sair do julgamento automático e avançar em direção ao discernimento. Consciência não significa justificar escolhas, mas compreendê-las com mais profundidade e assumir suas consequências de forma adulta.

Talvez o maior desafio não esteja em decidir o que é certo ou errado, mas em reconhecer de onde nasce o julgamento que fazemos sobre nossas próprias escolhas. Sustentar um critério interno exige coragem: rever crenças herdadas, suportar a ausência de aprovação e assumir as consequências das próprias decisões sem terceirizar responsabilidades.

Meu convite é olhar para além do bem e do mal e investigar de onde nascem as próprias certezas. O que sustenta o meu julgamento? Valores conscientes ou medos disfarçados de moral?

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Como lembra Epicteto, “não são os fatos que nos perturbam, mas as ideias e interpretações que fazemos deles”. Talvez a pergunta mais honesta não seja se agimos certo ou errado, mas a partir de que história, de que medo ou de que valor estamos escolhendo.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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