Autoestima não se constrói no olhar do outro
O outro sempre parece mais preparado, mais reconhecido, mais merecedor, não necessariamente porque seja, mas porque o olhar sobre si mesmo permanece fragilizado
Mais lidas
compartilhe
SIGA NO
A cada dia percebo mais pessoas sofrendo em busca de validação, como se o olhar do outro fosse um termômetro constante de valor pessoal. Nessa dinâmica, transfere-se para fora um poder que deveria ser interno: o poder de definir se sou suficiente, se estou bem, se posso me sentir seguro ou feliz.
Quando observo com mais profundidade, quase sempre existe uma história por trás. Muitas dessas pessoas cresceram em ambientes marcados por críticas frequentes, julgamentos excessivos e pouco reconhecimento emocional. Na infância, aprendemos quem somos a partir do espelho que nos é oferecido. Quando esse espelho devolve a cobrança, desqualificação ou amor condicional, a mensagem silenciosa que se instala é clara: meu valor depende da aprovação do outro.
Ao longo da vida, essa lógica tende a se repetir nas relações sociais. Elogios, reconhecimento e acolhimento funcionam como alívios momentâneos, enquanto críticas ou rejeições reativam feridas antigas. Assim, a pessoa passa a buscar no outro a confirmação que não conseguiu construir dentro de si. Não por fraqueza, mas pelo que aprendeu emocionalmente ao longo da vida.
Mesmo as conquistas pessoais, que poderiam fortalecer a sensação de competência, muitas vezes não conseguem sustentar esse valor internamente. O resultado alcançado não se transforma em segurança. O elogio é minimizado, relativizado ou descartado. A pessoa escuta, mas não acredita. Reconhecimentos externos até chegam, mas não são incorporados.
Leia Mais
Nada parece suficiente porque falta uma referência interna que legitime o próprio valor. Cada meta alcançada perde rapidamente o efeito, exigindo outra conquista, outro esforço, outra confirmação. Nesse contexto, a comparação com os outros se torna quase automática e profundamente desgastante. O outro sempre parece mais preparado, mais reconhecido, mais merecedor, não necessariamente porque seja, mas porque o olhar sobre si mesmo permanece fragilizado.
Quando a identidade pessoal não foi acolhida desde cedo, quando não houve espaço para ser quem se é, errar, experimentar ou discordar, surge a dificuldade de se sentir pertencente à própria vida. A pessoa ocupa lugares, assume papéis, mas internamente não se sente autorizada a estar ali.
É nesse ponto que a validação externa deixa de ser apenas um desejo e passa a se tornar uma necessidade. O outro vira régua, juiz e referência. E, sem perceber, entrega-se ao mundo a responsabilidade pelo próprio valor.
O processo de amadurecimento começa quando esse movimento é reconhecido. Quando se compreende que o vazio não foi criado agora, nem pelo outro atual, mas por histórias antigas que ainda pedem cuidado. Construir um senso interno de valor é um caminho gradual, feito de escolhas conscientes, autoconhecimento e autorresponsabilidade emocional.
A partir desse reconhecimento, abre-se um campo importante de trabalho interno. O primeiro passo não é mudar comportamentos, mas aprender a se observar. Perceber em quais situações a opinião do outro pesa mais, que tipos de comentários ou silêncios desestabilizam, o que uma crítica toca internamente e o que se teme perder quando não há reconhecimento. Esse movimento não tem como objetivo culpar o passado ou endurecer consigo, mas identificar padrões que se repetem quase automaticamente. Muitas vezes, a dor não vem do que aconteceu, mas da expectativa de validação que não se concretizou.
Com o tempo, essa observação permite diferenciar o que pertence ao presente do que ecoa histórias antigas. Nem toda frustração atual é nova. Algumas reações carregam memórias de quando foi preciso corresponder, agradar ou provar valor para ser aceito. Ao reconhecer isso, a pessoa começa a retirar do outro uma responsabilidade que nunca deveria ter sido dele: a de confirmar sua existência, competência ou merecimento.
Paralelamente, torna-se possível fortalecer uma validação que nasce de dentro. Isso acontece quando se reconhecem escolhas feitas com coerência, mesmo sem aplausos, quando se percebe o que permanece em si independentemente do olhar externo e quando se começa a agir alinhado aos próprios valores. Aos poucos, o foco se desloca do “o que pensam de mim” para “o que eu sei sobre mim”. O corpo, inclusive, costuma responder a esse alinhamento, sinalizando mais tranquilidade quando há coerência e desconforto quando limites são ultrapassados.
Nesse processo, os gatilhos deixam de ser inimigos e passam a funcionar como sinais de cuidado. Eles indicam onde ainda existe uma necessidade não atendida, uma parte fragilizada ou um limite que precisa ser revisto. Em vez de reagir automaticamente, a pessoa aprende a se observar, a escolher com mais consciência e a oferecer a si mesma o reconhecimento que antes buscava fora.
Talvez a virada esteja menos em ser validado e mais em se autorizar. Menos em perguntar “o que pensam de mim?” e mais em sustentar “quem eu sou, independentemente do olhar externo”. Quando isso acontece, a validação deixa de ser um jogo relacional e passa a ser consequência. O outro deixa de ter poder sobre o meu estado emocional e volta a ocupar apenas o lugar que lhe cabe: o de encontro, não de salvação.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
