ALESSANDRA ARAGÃO
Alessandra Aragão
Comunicadora, trabalha com desenvolvimento humano, atuando em terapia sistêmica, mentoria positiva e coaching de vida e carreira
(RE)INVENTE-SE

Autoestima não se constrói no olhar do outro

O outro sempre parece mais preparado, mais reconhecido, mais merecedor, não necessariamente porque seja, mas porque o olhar sobre si mesmo permanece fragilizado

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A cada dia percebo mais pessoas sofrendo em busca de validação, como se o olhar do outro fosse um termômetro constante de valor pessoal. Nessa dinâmica, transfere-se para fora um poder que deveria ser interno: o poder de definir se sou suficiente, se estou bem, se posso me sentir seguro ou feliz.

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Quando observo com mais profundidade, quase sempre existe uma história por trás. Muitas dessas pessoas cresceram em ambientes marcados por críticas frequentes, julgamentos excessivos e pouco reconhecimento emocional. Na infância, aprendemos quem somos a partir do espelho que nos é oferecido. Quando esse espelho devolve a cobrança, desqualificação ou amor condicional, a mensagem silenciosa que se instala é clara: meu valor depende da aprovação do outro.

Ao longo da vida, essa lógica tende a se repetir nas relações sociais. Elogios, reconhecimento e acolhimento funcionam como alívios momentâneos, enquanto críticas ou rejeições reativam feridas antigas. Assim, a pessoa passa a buscar no outro a confirmação que não conseguiu construir dentro de si. Não por fraqueza, mas pelo que aprendeu emocionalmente ao longo da vida.

Mesmo as conquistas pessoais, que poderiam fortalecer a sensação de competência, muitas vezes não conseguem sustentar esse valor internamente. O resultado alcançado não se transforma em segurança. O elogio é minimizado, relativizado ou descartado. A pessoa escuta, mas não acredita. Reconhecimentos externos até chegam, mas não são incorporados.

Nada parece suficiente porque falta uma referência interna que legitime o próprio valor. Cada meta alcançada perde rapidamente o efeito, exigindo outra conquista, outro esforço, outra confirmação. Nesse contexto, a comparação com os outros se torna quase automática e profundamente desgastante. O outro sempre parece mais preparado, mais reconhecido, mais merecedor, não necessariamente porque seja, mas porque o olhar sobre si mesmo permanece fragilizado.

Quando a identidade pessoal não foi acolhida desde cedo, quando não houve espaço para ser quem se é, errar, experimentar ou discordar, surge a dificuldade de se sentir pertencente à própria vida. A pessoa ocupa lugares, assume papéis, mas internamente não se sente autorizada a estar ali.

É nesse ponto que a validação externa deixa de ser apenas um desejo e passa a se tornar uma necessidade. O outro vira régua, juiz e referência. E, sem perceber, entrega-se ao mundo a responsabilidade pelo próprio valor.

O processo de amadurecimento começa quando esse movimento é reconhecido. Quando se compreende que o vazio não foi criado agora, nem pelo outro atual, mas por histórias antigas que ainda pedem cuidado. Construir um senso interno de valor é um caminho gradual, feito de escolhas conscientes, autoconhecimento e autorresponsabilidade emocional.

A partir desse reconhecimento, abre-se um campo importante de trabalho interno. O primeiro passo não é mudar comportamentos, mas aprender a se observar. Perceber em quais situações a opinião do outro pesa mais, que tipos de comentários ou silêncios desestabilizam, o que uma crítica toca internamente e o que se teme perder quando não há reconhecimento. Esse movimento não tem como objetivo culpar o passado ou endurecer consigo, mas identificar padrões que se repetem quase automaticamente. Muitas vezes, a dor não vem do que aconteceu, mas da expectativa de validação que não se concretizou.

Com o tempo, essa observação permite diferenciar o que pertence ao presente do que ecoa histórias antigas. Nem toda frustração atual é nova. Algumas reações carregam memórias de quando foi preciso corresponder, agradar ou provar valor para ser aceito. Ao reconhecer isso, a pessoa começa a retirar do outro uma responsabilidade que nunca deveria ter sido dele: a de confirmar sua existência, competência ou merecimento.

Paralelamente, torna-se possível fortalecer uma validação que nasce de dentro. Isso acontece quando se reconhecem escolhas feitas com coerência, mesmo sem aplausos, quando se percebe o que permanece em si independentemente do olhar externo e quando se começa a agir alinhado aos próprios valores. Aos poucos, o foco se desloca do “o que pensam de mim” para “o que eu sei sobre mim”. O corpo, inclusive, costuma responder a esse alinhamento, sinalizando mais tranquilidade quando há coerência e desconforto quando limites são ultrapassados.

Nesse processo, os gatilhos deixam de ser inimigos e passam a funcionar como sinais de cuidado. Eles indicam onde ainda existe uma necessidade não atendida, uma parte fragilizada ou um limite que precisa ser revisto. Em vez de reagir automaticamente, a pessoa aprende a se observar, a escolher com mais consciência e a oferecer a si mesma o reconhecimento que antes buscava fora.

Talvez a virada esteja menos em ser validado e mais em se autorizar. Menos em perguntar “o que pensam de mim?” e mais em sustentar “quem eu sou, independentemente do olhar externo”. Quando isso acontece, a validação deixa de ser um jogo relacional e passa a ser consequência. O outro deixa de ter poder sobre o meu estado emocional e volta a ocupar apenas o lugar que lhe cabe: o de encontro, não de salvação.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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