Como você reage a imprevistos?
Quando direcionamos nossa energia para aquilo que está ao nosso alcance, ampliamos nossa capacidade de resposta
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A vida raramente segue o roteiro que imaginamos. Um atraso inesperado, uma mudança de planos, uma resposta atravessada, uma notícia que não estava na programação. Pequenas e grandes situações que, ao longo do dia, nos lembram de algo essencial: nem tudo está sob o nosso controle.
No Budismo, que surge por volta do século VI a.C. com Sidarta Gautama, a impermanência é compreendida como uma característica fundamental da existência. O termo anicca descreve justamente isso: tudo muda o tempo todo. Emoções passam, relações se transformam, fases começam e terminam, e até o corpo está em constante mudança. O sofrimento não está na mudança em si, mas na tentativa de manter estável aquilo que, por natureza, é transitório.
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Séculos depois, o Estoicismo, que nasce na Grécia Antiga por volta do século III a.C., reforça essa compreensão por outro caminho. Epicteto ensinava que algumas coisas dependem de nós e outras não. Quando insistimos em controlar o comportamento do outro, o rumo dos acontecimentos ou a forma como seremos percebidos, entramos em um campo de desgaste. Quando direcionamos nossa energia para aquilo que está ao nosso alcance, ampliamos nossa capacidade de resposta.
Essa distinção aparece de forma muito concreta no cotidiano. Você pode sair de casa decidido a ter um dia tranquilo e, no caminho, encontrar alguém impaciente no trânsito, um colega ríspido no trabalho ou um imprevisto que muda toda a agenda. O impulso inicial, muitas vezes, é reagir no mesmo tom. Mas aqui existe uma escolha: nem tudo o que o outro oferece precisa ser aceito por você. É possível recusar o que não te faz bem.
Cada pessoa age a partir do que tem. Há quem responda com pressa, quem ataque, quem se defenda antes mesmo de ser questionado. Isso faz parte da convivência. Absorver isso é opcional. A raiva, a crítica ou a desorganização do outro não precisam se instalar em você.
No consultório, vivi recentemente um processo que me deixou muito feliz e que ilustra bem esse ponto.
Um paciente chegou com uma queixa recorrente: sentia-se constantemente provocado no trabalho e, diante de pessoas mais agressivas, reagia da mesma forma. Ao final do dia, o desgaste era inevitável.
Ao longo do processo, começou a perceber que a reação do outro não precisava determinar a dele. Que a raiva que vinha de fora não era algo que ele precisava assumir como sua. E que existia um espaço de escolha entre o que acontecia e a forma como ele respondia.
Com o tempo, desenvolveu mais domínio emocional. As situações continuaram acontecendo, mas a forma como ele se posicionava mudou.
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Hoje, ele relata que já não compra mais as brigas para as quais é convidado. Consegue ouvir sem absorver, se posicionar sem atacar e seguir leve, sem carregar o que não é seu. Esse movimento, que começou no trabalho, se estendeu para a vida pessoal, refletindo na família, nas amizades e nos relacionamentos.
Recentemente, disse que está orgulhoso de si. Percebe que as pessoas ao seu redor notam essa mudança, comentam que ele está mais calmo, mais centrado e perguntam o que aconteceu.
A resposta não está no que aconteceu fora. Está no que ele deixou de levar para dentro.
E talvez seja esse o ponto.
A vida continua trazendo desafios, pessoas difíceis e situações inesperadas. Mas, quando você entende que nem tudo precisa ser absorvido, a forma de passar por essas situações muda.
Essa compreensão também ajuda a olhar para a ansiedade com mais clareza. Estudos na psicologia cognitiva mostram que ela está frequentemente associada à antecipação de cenários negativos, muitos deles improváveis. A mente tenta prever o que pode dar errado como forma de proteção, mas, ao fazer isso de forma repetida, amplia o desconforto. É como viver várias vezes uma situação que ainda nem aconteceu.
Trazer a atenção para o presente não elimina os imprevistos, mas reduz o espaço que eles ocupam antes mesmo de existirem. Se o futuro é construído a partir das escolhas do agora, é neste momento que existe possibilidade real de ação.
Quando você reconhece que fez o melhor possível dentro de cada situação, com as informações e recursos que tinha naquele momento, algo se reorganiza internamente. A culpa perde força, o medo diminui e o “e se” deixa de ocupar tanto espaço.
O futuro continua incerto. As pessoas continuam sendo quem são. Os imprevistos continuam acontecendo.
Mas você não precisa reagir da mesma forma.
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Pode escolher sua resposta, mesmo quando você não escolhe o que acontece. Essa é, para mim, a nossa maior liberdade.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
