ALESSANDRA ARAGÃO
Alessandra Aragão
Comunicadora, trabalha com desenvolvimento humano, atuando em terapia sistêmica, mentoria positiva e coaching de vida e carreira
(RE)INVENTE-SE

Quando educar deixou de ser intuitivo

Nenhum modelo educativo funciona sem o envolvimento emocional e o autoconhecimento do adulto

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Nos últimos tempos, tenho percebido no consultório um movimento recorrente entre pais e mães: a sensação de estarem perdidos na educação dos filhos. Não se trata de falta de amor, interesse ou responsabilidade. Pelo contrário. Muitos estão profundamente comprometidos, atentos e desejosos de fazer “o melhor”. Ainda assim, sentem-se inseguros, confusos e, muitas vezes, paralisados diante das próprias escolhas.

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Vivemos uma era marcada pelo excesso. Excesso de informações, de teorias, de cursos, de especialistas, de workshops, de orientações sobre como educar, como falar, como corrigir, como acolher, como evitar frustrações. A parentalidade, que sempre foi um campo de aprendizagem intuitiva e relacional, passou a conviver com um volume crescente de conceitos e nomenclaturas que, em vez de orientar, frequentemente ampliam a confusão.

A dúvida deixou de ser apenas sobre o que fazer. Passou a ser sobre como não errar. Nesse cenário, algo precioso vem se fragilizando: a confiança na própria percepção. Muitos pais já não se autorizam a sentir, observar e decidir a partir da relação cotidiana com seus filhos. Antes de agir, consultam referências externas, comparam-se, questionam se estão sendo firmes demais, permissivos demais, rígidos demais, ou “desconectados” e distantes. A educação começa, então, a ser substituída por um manual invisível de condutas ideais.

Essa confusão se intensifica quando termos importantes, como educação positiva e educação permissiva, passam a circular de forma simplificada ou distorcida, especialmente nas redes sociais.

Acolher emoções, por exemplo, passou a ser confundido com permitir qualquer comportamento. Colocar limites, com autoritarismo. Frustrar, com causar traumas emocionais. O resultado costuma ser de pais inseguros, que tentam evitar o desconforto imediato e, muitas vezes, abrem mão de sua função estruturante. É nesse ponto que surge uma das confusões mais frequentes.

Educar positivamente não significa ausência de limites. Ao contrário. Pressupõe limites claros, consistentes e sustentados com presença emocional. A criança precisa sentir que há alguém ali que a compreende, mas que também a orienta, organiza e contém.

Já a educação permissiva surge, muitas vezes, do medo. Medo de repetir modelos autoritários do passado. Medo de causar sofrimento. Medo de errar. A intenção é legítima. A consequência, porém, pode ser uma criança sem referências claras, com dificuldades de autorregulação e baixa tolerância à frustração.

É importante lembrar que frustração não é sinônimo de trauma. Frustrar faz parte do desenvolvimento emocional. A criança que nunca é contrariada não aprende a lidar com o mundo como ele é. Aprende apenas que seus desejos precisam ser atendidos imediatamente.

Sustentar o desconforto do “não”, quando necessário, também é parte do cuidado. Ao lembrar da minha própria experiência, e da vivência de muitos pais de minha geração, é comum surgir a referência ao livro A vida do bebê, do Dr. Rinaldo De Lamare.

Por décadas, essa obra foi considerada a “enciclopédia do bebê”, não porque ensinava fórmulas prontas, mas porque oferecia orientação clara, acessível e contextualizada. Havia informação, mas também havia simplicidade. O livro acompanhava o desenvolvimento infantil sem substituir a observação atenta dos pais.

Nenhum modelo educativo funciona sem o envolvimento emocional e o autoconhecimento do adulto. Não é possível ser firme e gentil ao mesmo tempo se não estivermos minimamente regulados internamente. Não é possível sustentar limites com presença se estivermos tomados pelo medo, pela culpa ou pela necessidade constante de validação externa.

Antes de qualquer técnica ou abordagem, um bom começo pode estar em outro lugar: os pais se acolherem. Olharem para si mesmos, para as próprias histórias e partes feridas que emergem justamente no exercício da parentalidade. Muitas vezes, o que paralisa não é a criança, mas os estados emocionais do adulto: culpa, vergonha, insegurança, medo de errar, medo de frustrar, medo de não ser suficientemente bom.

É possível que o desafio atual não esteja nas novas abordagens em si, mas na forma como elas são consumidas, muitas vezes de maneira fragmentada, acelerada e desconectada da realidade singular de cada família.

Em meio a tantas vozes externas, vale considerar que está é a hora de recuperar algo essencial: a confiança em si mesmos e na relação construída, dia após dia, com seus filhos.

Educar dá trabalho. Exige presença, disponibilidade emocional e coerência interna. Tudo indica que a maior reinvenção necessária aos pais contemporâneos seja silenciar o ruído externo para voltar a escutar a própria voz e as necessidades reais das crianças e adolescentes. 

Vale lembrar que o amor não exclui a autoridade afetiva. Saber frustrar um filho com acolhimento não é falta de amor.   É uma das formas mais profundas de cuidado, pois é assim que eles aprendem, gradualmente, a ler, respeitar, interpretar e conviver com as “regras do jogo da vida”.

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Faz sentido pensar que o papel dos pais seja menos o de controlar a direção, e mais o de oferecer base, firmeza e presença, para que, quando chegar o momento, eles possam partir com segurança.

Afinal, não é para isso que criamos os filhos? Não para nos pertencerem, mas para seguirem adiante. Não para viverem à nossa imagem, mas para encontrarem o próprio caminho.
 

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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