O amor não se aposenta
Existe algo profundamente humano na vontade de compartilhar a vida, dividir experiências, construir intimidade, trocar cuidado e presença
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Existe uma crença silenciosa, raramente dita de forma explícita, mas profundamente instalada no imaginário coletivo: a de que o desejo de amar, de se vincular, de construir intimidade, teria prazo de validade. Como se o amor fosse um território reservado à juventude.
No consultório, essa ideia aparece de maneira sutil. Não como afirmação, mas como dúvida. “Será que ainda faz sentido querer alguém?” “Será que não estou velho(a) para isso?” “Será que isso não é inadequado?”
Curiosamente, o desejo permanece vivo. O que envelhece é apenas a autorização interna para assumi-lo. Querer um novo parceiro aos 60, 70 ou 80 anos não é exceção. É expressão legítima daquilo que nunca deixou de ser humano: a necessidade de troca, de presença, de afeto compartilhado. O vínculo não perde relevância com o tempo. Em muitos casos, ele se torna ainda mais significativo.
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A maturidade, no entanto, traz um cenário diferente. Os encontros já não acontecem de forma espontânea como em fases anteriores da vida. A rotina muda, os círculos sociais se reduzem, os papéis se transformam. Não há mais o ambiente escolar, o trabalho ou a criação dos filhos como organizadores de convivência. A vida social deixa de ser automática. Socializar deixa de ser acaso. Passa a ser movimento consciente. Estar em ambientes onde a vida acontece torna-se parte ativa da construção dos vínculos.
Somos seres relacionais por natureza. A experiência humana é construída no encontro. Podemos aprender a estar bem conosco, desenvolver autonomia, cultivar momentos de solitude. Mas a felicidade sustentada em completo isolamento é rara. Mesmo quem não deseja ou não possui um parceiro amoroso precisa de boas conexões, de vínculos que tragam sensação de pertencimento, troca e afeto. Esse é, inclusive, um dos pilares do bem-estar descritos pelo modelo PERMA da Psicologia Positiva. Relações positivas são um dos componentes centrais da percepção de felicidade.
Isso nos conduz a uma diferenciação importante. Estar sozinho não é o mesmo que estar isolado. Não ter um parceiro não significa ausência de vida relacional. Amizades, grupos, atividades compartilhadas, conversas, trocas cotidianas continuam sendo fontes profundas de bem-estar, sentido e conexão.
Ao mesmo tempo, desejar um parceiro(a) amoroso(a) em qualquer idade é igualmente legítimo. Não necessariamente por medo da solidão, mas pelo desejo genuíno de conexão. Existe algo profundamente humano na vontade de compartilhar a vida, dividir experiências, construir intimidade, trocar cuidado e presença.
O amor não desaparece com a idade. O que frequentemente se instala é uma espécie de retração silenciosa, alimentada por medos compreensíveis: o receio da rejeição, da sensação de deslocamento, do julgamento, da frustração. Como se já não houvesse mais lugar para o novo.
Talvez o maior desafio não esteja em encontrar alguém. Esteja em sustentar a disposição para permanecer visível para o encontro. Sem perceber, muitas pessoas vão reduzindo seus espaços de circulação. Saem menos. Interagem menos. Expõem-se menos. E, ao fazer isso, não protegem apenas o coração. Limitam também as possibilidades.
E já que, na maturidade, o encontro raramente nasce do acaso, como podemos criar espaço para que ele aconteça? Escolher estar em ambientes onde a vida acontece passa a ser parte ativa dessa construção de novos vínculos. Não se trata de procurar alguém de forma ansiosa. Trata-se de permanecer disponível para que o encontro possa acontecer.
A vida relacional não se aposenta. Ela apenas muda de ritmo, de contexto, de forma.
Relacionamentos maduros tendem a ser menos impulsivos e mais construídos. Conexões genuínas dificilmente emergem sob pressão. Elas nascem do convívio, da leveza das interações, da afinidade que se revela aos poucos.
Nesse cenário, mais do que buscar um parceiro ou novas amizades, talvez o primeiro passo seja mais simples e mais leve. Buscar ambientes onde a convivência possa acontecer naturalmente. Lugares com atividades estruturadas, como leitura, dança, culinária, cursos presenciais e encontros culturais, facilitam o contato porque retiram o peso da interação direta. A conversa não nasce do vazio. Surge do contexto.
E talvez exista algo profundamente libertador nessa constatação: o novo vínculo não exige juventude. Exige abertura. Exige circulação. Exige a coragem, muitas vezes discreta, de continuar dizendo sim à experiência de encontrar o outro.
Porque, no fundo, o amor não tem calendário.
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Ele responde, sobretudo, à disponibilidade de quem permanece aberto para vivê-lo.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
