Entender a infância não basta
A infância não desaparece, mas pode deixar de conduzir as nossas escolhas. Não podemos voltar para viver outro passado, tampouco mudar quem fez parte dele
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SIGA NOHá pessoas que reagem de forma desproporcional a pequenas críticas. Outras evitam qualquer conflito. Algumas sentem necessidade de agradar a todos, enquanto outras vivem em estado permanente de alerta, como se esperassem que algo ruim pudesse acontecer a qualquer momento.
Será que estamos respondendo apenas ao presente ou reagindo a histórias que começaram muito antes?
Ao longo da vida, construímos maneiras de interpretar o mundo e de nos proteger dele. Muitas dessas formas de agir não surgiram por acaso. Foram aprendidas na infância, quando ainda dependíamos do ambiente em que vivíamos para sermos cuidados, protegidos e aceitos.
Uma criança que cresce em um ambiente imprevisível pode aprender a controlar tudo ao seu redor. Outra, para evitar conflitos, descobre que agradar é mais seguro do que discordar. Há quem aprenda a esconder o que sente, a antecipar as necessidades dos outros ou a permanecer em constante estado de vigilância.
Naquele momento, essas estratégias faziam sentido. Eram tentativas de adaptação aos recursos disponíveis. A questão é que aquilo que um dia ajudou a sobreviver nem sempre continua ajudando a viver.
Compreender essa origem costuma trazer alívio. Quando conseguimos reconhecer de onde vieram determinados medos, inseguranças e formas de nos relacionarmos, muitas experiências passam a fazer sentido. A Psicanálise nos ajuda a compreender que o comportamento humano não responde apenas à vontade consciente. Nossa história continua presente na maneira como percebemos o mundo, construímos vínculos e reagimos às situações da vida.
Mas compreender é apenas o ponto de partida. O verdadeiro desafio começa quando a história deixa de ser um mistério. A partir desse momento, a pergunta deixa de ser "Por que sou assim?" e passa a ser "O que farei, daqui para frente, com tudo o que compreendi sobre mim?".
É justamente nesse ponto que o autoconhecimento pode seguir caminhos muito diferentes. Algumas pessoas utilizam esse conhecimento para construir novas possibilidades de viver. Outras transformam o passado em uma justificativa permanente para permanecer onde estão. Afinal, culpar a infância, os pais ou o ambiente em que fomos criados nos desobriga de agir no presente. Enquanto toda a responsabilidade permanece naquilo que vivemos, pouca energia resta para investir na construção do que ainda podemos nos tornar.
Isso não significa negar o que aconteceu, minimizar o sofrimento ou responsabilizar a criança por experiências que jamais escolheu viver. Nenhuma criança escolhe a família em que nasce. Nenhuma criança decide como será amada, corrigida ou protegida. Na infância, as possibilidades de escolha são limitadas: a criança depende dos adultos, adapta-se às circunstâncias e desenvolve os recursos possíveis para lidar com a realidade que encontra. A vida adulta, porém, oferece possibilidades e ferramentas que antes simplesmente não existiam.
A visão sistêmica amplia essa compreensão. Todos pertencemos a uma história familiar. Recebemos valores, crenças, formas de amar, de enfrentar dificuldades e de ocupar nosso lugar no mundo. Além disso, podemos herdar medos, silêncios e padrões que se repetem ao longo das gerações.
Reconhecer essa influência não significa permanecer preso a ela. Nessa perspectiva, crescer não é romper com a família nem rejeitar a própria história. É diferenciar-se. É reconhecer que aquilo que recebemos faz parte de quem somos, sem permitir que determine quem continuaremos sendo.
Esta é uma das maiores tarefas da vida adulta: construir, na própria vida, aquilo que a criança não teve condições de ter. Se faltou proteção, desenvolva a capacidade de proteger a si mesmo. Se faltaram limites, construa a habilidade de estabelecê-los. Se faltou reconhecimento, fortaleça uma identidade que dependa menos da aprovação dos outros. Se faltou segurança, procure construir relações mais saudáveis e uma base interna mais estável.
A infância não desaparece, mas pode deixar de conduzir as nossas escolhas. Não podemos voltar para viver outro passado, tampouco mudar quem fez parte dele. Podemos, porém, decidir o peso que essa história terá no nosso dia a dia. Compreender a infância nos traz clareza; nossa autonomia nos dá os recursos para transformar esse entendimento em novas atitudes.
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O passado ajuda a explicar quem somos. Mas é o que fazemos a partir dele que define quem nos tornamos. Para finalizar, lembro de uma frase inspirada em um pensamento de James R. Sherman que resume bem esta reflexão: “Não podemos voltar atrás e fazer um novo começo. Mas podemos começar agora e construir um novo final.”
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.
