Uma pesquisa recente chama atenção: 28,5% dos adolescentes brasileiros apresentam excesso de peso e 8,5% obesidade, segundo uma revisão sistemática publicada em 2026, a prevenção da obesidade entre jovens é uma questão importante de saúde pública. Nessa fase da vida, porém, falar sobre prevenção exige cuidado: o excesso de peso resulta de uma combinação de fatores e sua abordagem não deve se resumir à balança, às restrições alimentares ou à cobrança por emagrecimento.

Para o cardiologista e nutrólogo Elson Paulozzi Nunes, autor do livro A dieta do salgado, da editora Literare Books, a obesidade na adolescência, como em todas as fases da vida, é multifatorial e complexa. Segundo o especialista, o ambiente em que crianças e adolescentes vivem mudou significativamente nas últimas décadas. A oferta constante de alimentos industrializados, somada à redução das atividades físicas espontâneas, cria condições favoráveis ao ganho de peso.

“Hoje temos muito mais oferta de alimentos ultraprocessados, hiperpalatáveis e de alta densidade calórica, disponíveis o tempo inteiro, associados a publicidade, redes sociais, aplicativos e conveniência”, afirma.

De acordo com Elson, alterações hormonais podem estar relacionadas à obesidade, embora sejam causas primárias raras, enquanto a genética ajuda a explicar por que pessoas submetidas a maios sociais semelhantes podem apresentar respostas diferentes. “Para compreender por que alguém engorda, precisamos olhar também para a história daquela pessoa e para o ambiente em que suas escolhas foram construídas”, explica.

O médico ressalta que os efeitos do excesso de peso podem surgir ainda durante a adolescência, como resistência à insulina, pré-diabetes, diabetes tipo 2, alterações de colesterol e triglicérides, hipertensão, gordura no fígado e problemas ortopédicos estão entre os possíveis impactos. A avaliação também deve considerar aspectos que não aparecem necessariamente nos exames, como ansiedade, depressão, bullying, isolamento social e questões relacionadas à imagem corporal.

“Não precisamos esperar que o adolescente apresente sintomas”, alerta Nunes. Para ele, acompanhar a curva de crescimento e o IMC ao longo do tempo pode ajudar a identificar mudanças antes que o quadro se agrave. O cuidado deve considerar ainda aspectos como alimentação, atividade física, sono, crescimento, composição corporal e possíveis alterações metabólicas. “A balança é uma informação, não pode ser o objetivo final do tratamento.”

Nesse processo, a maneira como a família fala sobre o assunto também pode fazer diferença. Para a educadora parental Claudia Alaminos, autora de Manual de sobrevivência para pais de adolescentes, o diálogo não deve colocar a aparência no centro. “A conversa deve ir além da alimentação e abordar o sono, o quão disposto ele anda, as atividades físicas que ele pratica ou não, sem falar e sem fazer da aparência o centro da conversa.”

A especialista afirma que comentários que parecem brincadeiras também podem deixar marcas. “Comparações, apelidos e observações sobre quanto o adolescente está comendo podem contribuir para a insatisfação corporal e comportamentos alimentares problemáticos. A intenção de ajudar, quando você faz algum comentário desses, não elimina o efeito nocivo dessas falas.”

A prevenção, portanto, não precisa transformar a casa em um ambiente de fiscalização. Nunes recomenda aumentar a disponibilidade de alimentos in natura e minimamente processados, reduzir a presença rotineira de ultraprocessados e bebidas açucaradas e incentivar atividades físicas prazerosas. “Prevenção funciona melhor quando a família muda o ambiente e não quando apenas cobra o adolescente.”

Claudia concorda com a importância de envolver todos nas mudanças de rotina. “Quando a família mergulha na situação junto com o jovem, facilita muito o engajamento”, afirma. Para ela, o cuidado deve ser construído coletivamente, sem colocar o adolescente sozinho no centro da responsabilidade.

É preciso evitar restrições exageradas sem acompanhamento profissional. Para Elson, na adolescência, dietas muito restritivas são especialmente preocupantes porque estamos falando de um organismo em crescimento, em plena maturação óssea, muscular, hormonal e cerebral. “Restrição inadequada pode levar a deficiência de nutrientes, perda de massa muscular, piora da relação com a comida e aumentar o risco de compulsão e transtornos alimentares”.

Quanto ao alerta para os pais, Claudia aborda quando é hora de buscar ajuda. A atenção deve ser redobrada quando o adolescente começa a evitar refeições com outras pessoas, restringir cada vez mais a alimentação, apresentar medo intenso de engordar, abandonar atividades por vergonha do corpo, perder peso rapidamente ou ter tonturas ou desmaios.

“A ajuda profissional deve ser buscada sempre que houver algum sinal que preocupe. Não é preciso esperar que o adolescente esteja muito magro ou já esteja debilitado para tomar alguma atitude”, reforça.

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