Passar horas no trânsito já faz parte da rotina de milhões de brasileiros. Entre congestionamentos, longos trajetos e o transporte público lotado, o tempo gasto nos deslocamentos entre casa e trabalho ocupa uma parcela cada vez maior do dia. O problema é que esse período costuma ser encarado apenas como uma consequência da vida nas grandes cidades, enquanto seus impactos sobre a saúde física e mental permanecem, muitas vezes, em segundo plano.
Um levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), em parceria com o SPC Brasil e o Sebrae, mostra que moradores de grandes centros urbanos passam, em média, o equivalente a 21 dias por ano no trânsito. Segundo Carlos Júnior, profissional de psicologia do AmorSaúde, rede de clínicas parceiras do Cartão de TODOS, o deslocamento não deve ser visto apenas como um intervalo entre uma atividade e outra.
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“Múltiplos fatores estão envolvidos nesse processo, entre eles a insegurança diante de condições externas, a imprevisibilidade dos horários dos transportes coletivos e o desconforto durante o trajeto, como a ausência de ar-condicionado, os ruídos excessivos e a superlotação”, afirma.
O psicólogo destaca que, quanto mais tempo gasto no deslocamento, menor tende a ser o tempo disponível para atividades importantes, como descanso, lazer, prática de exercícios físicos, alimentação adequada e convivência social. A longo prazo, esse desequilíbrio pode comprometer a disposição e a qualidade de vida.
Quando o cansaço começa antes do expediente
De acordo com o profissional, os primeiros sinais de que o deslocamento está afetando o bem-estar emocional podem aparecer antes mesmo do início da jornada de trabalho. “O indivíduo pode perceber que a rotina está excessivamente concentrada no trabalho e no deslocamento, restando pouco tempo ou energia para o lazer, a convivência social e o autocuidado”, explica.
Entre os principais sinais de alerta, estão:
- Irritabilidade frequente
- Impaciência durante a rotina
- Cansaço antes mesmo do início do expediente
- Falta de disposição para atividades fora do trabalho
- Sensação de que o dia se resume ao deslocamento e às obrigações profissionais
Os efeitos do trânsito vão além do estresse
Carlos ressalta que o impacto dos deslocamentos prolongados não se limita ao desconforto durante o trajeto - pelo contrário, diferentes áreas da vida podem ser afetadas.
- Trabalho: o excesso de tempo no trânsito pode reduzir a concentração, a produtividade e o interesse pelas atividades profissionais.
- Relacionamentos: o desgaste com o deslocamento pode favorecer o isolamento, a redução da energia para interações sociais e até a diminuição da libido.
- Sono: as noites de sono podem sofrer consequências importantes, já que "o estresse se torna cíclico, porque a pessoa não consegue recarregar a energia”, afirma Carlos.
Como tornar o deslocamento menos desgastante
Embora nem sempre seja possível reduzir o tempo gasto no trânsito, algumas estratégias podem ajudar a diminuir os impactos da rotina. O psicólogo recomenda:
- Evitar transformar o trajeto em uma extensão do trabalho, ou seja, não utilizar o tempo no transporte público ou de aplicativo para resolver demandas no celular ou notebook
- Manter uma alimentação equilibrada ao longo do dia, para que não falte energia para as horas em deslocamento
- Cuidar da hidratação, principalmente em períodos quentes e secos, já que durante o deslocamento o acesso à fonte de água é limitado
- Reservar tempo para atividades prazerosas para não fazer da vida um looping entre acordar, pegar trânsito, ir e voltar do trabalho e dormir
- Buscar momentos de desconexão das demandas profissionais e conexão com relações sociais
Quando procurar ajuda profissional?
O acompanhamento profissional pode ser importante e recomendado quando o desgaste provocado pelo deslocamento começa a afetar diferentes aspectos da vida. Entre os alertas, estão esgotamento constante, ansiedade persistente, alterações de humor, apatia e insônia.
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