Alerta: vencer a leucemia infantil exige este último passo crucial
Pesquisa mostra que a cura do câncer não garante imunidade plena; proteção contra meningite cai para 12% e contra pneumonia para 5%
compartilhe
SIGA
A dúvida que preocupa muitas famílias após a cura da leucemia agora tem uma resposta respaldada pela ciência: crianças curadas da leucemia linfoide aguda (LLA), um dos tipos de câncer mais comuns entre crianças e adolescentes no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), precisam passar por um novo ciclo completo de vacinação.
Um estudo brasileiro inédito, publicado na revista científica internacional Vaccines, mostra que a quimioterapia intensa, embora essencial para a cura da doença, compromete a chamada memória imunológica desses pacientes, deixando-os vulneráveis a doenças preveníveis por vacinas, como meningite, pneumonia, sarampo e coqueluche.
A revisão sistemática reuniu evidências de 24 estudos internacionais realizados entre 1981 e 2023, envolvendo 1.110 crianças e adolescentes tratados para leucemia linfoide aguda. Os resultados indicam que vencer o câncer exige um último passo: recuperar a proteção conferida pelas vacinas.
Leia Mais
Os dados mostram que o comprometimento imunológico é consistente e clinicamente relevante, abrindo brechas importantes na proteção desses pacientes. A imunidade contra o sarampo, por exemplo, caiu 16%. Já contra a coqueluche, alguns grupos apresentaram índice de proteção de 0%. O cenário mais preocupante foi observado nas vacinas contra pneumonia e meningite, cujos níveis de proteção ficaram entre 5% e 38% e não ultrapassaram 12%, respectivamente.
"Nesse contexto, entendemos que o risco não está apenas na recaída da doença oncológica. Essa instabilidade confirma que, após a quimioterapia, a memória do corpo para combater essas doenças varia muito, ou seja, existe também a possibilidade de essas crianças desenvolverem infecções potencialmente graves por doenças que já deveriam estar controladas pela vacinação.
É por isso que a revacinação deve ser considerada como parte fundamental do processo de recuperação do paciente, porque é a única forma segura de garantir que essas crianças estejam protegidas de verdade", explica a médica reumatologista, professora e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) e coautora do estudo, Licia Mota.
Memória imunológica
Além de demonstrar a perda da proteção conferida pelas vacinas, o estudo trouxe outra descoberta importante para o acompanhamento de crianças e adolescentes que passaram pelo tratamento contra a leucemia linfoide aguda.
Segundo Licia, embora as células responsáveis pela defesa imediata do organismo voltem ao normal em pouco tempo, aquelas que armazenam a memória imunológica podem levar até cinco anos para se reconstruírem completamente. "Durante esse tempo, o organismo da criança está, na prática, desprotegido contra vírus e bactérias que ele já deveria estar apto a combater", alerta.
Como a quimioterapia afeta a imunidade?
"Encerrar a quimioterapia não significa, necessariamente, recuperação imunológica plena", esclarece Licia.
A pesquisadora compara o sistema imunológico a uma biblioteca. Cada vacina recebida representa um novo livro que ensina o organismo a se defender. "O problema é que a quimioterapia para a LLA elimina parte das células de memória imunológica. É como se alguns livros fossem retirados das prateleiras dessa biblioteca", explica.
Segundo a especialista, um dos impactos dessa perda pode ser percebido no retorno à escola. "Voltar à sala de aula é um marco emocional para essas crianças e suas famílias. Porém, sem o escudo das vacinas, o ambiente escolar, cheio de trocas e contatos, pode se tornar um desafio inesperado", afirma.
Para Licia, garantir a proteção vacinal faz parte da própria recuperação. "Hoje conseguimos curar a maioria das crianças com leucemia. O próximo desafio é garantir que elas retornem à vida plenamente protegidas. A revacinação não é um detalhe do tratamento. Ela é parte da cura."
Recomendações após a quimioterapia
Com base nas evidências científicas, os pesquisadores estabeleceram quatro recomendações para restabelecer a imunidade de pacientes tratados contra a leucemia linfoide aguda:
1. Planejamento vacinal
O fim da quimioterapia deve marcar o início do planejamento da revacinação. Como a reconstituição das células de memória imunológica pode levar até cinco anos, iniciar esse cronograma precocemente é fundamental para reduzir o período de vulnerabilidade.
2. Encaminhamento ao Crie
Os pacientes devem ser encaminhados ao Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (Crie), que oferece suporte técnico e vacinas específicas para pessoas com o sistema imunológico comprometido.
3. Revacinação ampla
A revacinação deve abranger tanto agentes virais quanto bacterianos. O estudo demonstrou perdas importantes de anticorpos contra diferentes doenças, tornando necessário tratar o histórico vacinal como um novo começo.
4. Segurança no retorno à escola
A atualização do calendário vacinal também é considerada essencial para o retorno seguro ao ambiente escolar. Como a escola reúne grande circulação de vírus e bactérias, a vacinação reduz os riscos e favorece a reintegração social dessas crianças.
O estudo em números
Os resultados revelam uma perda de proteção heterogênea, mas recorrente, após o tratamento da leucemia. Entre os principais achados estão:
-
Pneumococo (pneumonia e meningite): a proteção caiu para índices entre 5% e 38%. No Brasil, onde a pneumonia continua entre as principais causas de internação infantil, o dado acende um alerta.
-
Sarampo e caxumba: a proteção contra o sarampo variou de 16% a 86%, enquanto contra a caxumba ficou entre 25% e 79%. Em um cenário de retorno às escolas, essas crianças tornam-se mais vulneráveis a possíveis surtos.
-
Coqueluche: alguns grupos apresentaram proteção residual de 0%. A doença pode representar um risco importante para pacientes com o sistema imunológico ainda em recuperação.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
-
Tétano e difteria: mesmo vacinas consideradas altamente eficazes apresentaram redução da proteção, com índices caindo para até 20% e 11%, respectivamente.