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Estado de Minas entrevista/Rodrigo Caetano

"Pressão é quando você está no andar de baixo da tabela"

Dirigente fala sobre o atual momento do Galo e nega ter recebido convite do Vasco


29/05/2022 04:00 - atualizado 29/05/2022 14:39

entrevista/Rodrigo Caetano
A nossa discussão interna é por melhoria, aperfeiçoamento, perfeição. Discutir essa questão do futebol, comparar, não agrega' (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)


Durante quase 20 anos atuando como executivo de futebol, Rodrigo Caetano participou da conquista de títulos de expressão por importantes clubes do futebol brasileiro. Mas não esconde: o mais marcante foi o Campeonato Brasileiro de 2021, pelo Atlético. Com os olhos marejados, durante entrevista exclusiva ao Estado de Minas/Superesportes, relembrou aquele memorável 2 de dezembro para a Massa atleticana, data da virada sobre o Bahia, por 3 a 2, que assegurou a taça ao Galo, após cinco décadas de espera. Seis meses depois, o dirigente vive uma fase de cobranças em cima do elenco, apesar dos números positivos do técnico Antonio “Turco” Mohamed, que acumula 30 jogos no comando da equipe, com 20 vitórias, sete empates e três derrotas, aproveitamento de 74,4% dos pontos disputados. Nesse período, o Atlético conquistou o Mineiro e a Supercopa do Basil. “Não encaro este momento como pressão. Pressão é quando você está no andar de baixo da tabela, não consegue a classificação, títulos. A pressão pela excelência faz parte dos grandes clubes brasileiros e mundiais”, observa o dirigente atleticano, que tem seu nome cogitado pelo Vasco da Gama e não crava a permanência no Atlético em 2023. “Não tive nenhum convite e obviamente não abriria esse tipo de conversa tendo contrato com o Galo. Tenho compromisso com o clube até o final do ano e pretendo cumpri-lo”, assegura Rodrigo Caetano. Confira os principais trechos da entrevista do diretor de futebol do Galo.

O Atlético perdeu pela primeira vez no Mineirão depois de 37 partidas e foi vaiado por parte da torcida que estava no estádio contra o Tolima. Como vocês têm lidado com essa pressão?

Não encaro como pressão. Pressão é quando você está no andar de baixo da tabela, não consegue a classificação, títulos. A pressão pela excelência faz parte dos grandes clubes brasileiros e mundiais. Isso é um pouco cultural. Quando você ganha, imaginam que todas as etapas e ciclos dos quais o clube necessita passar já tenham sido ultrapassados. É ruim, porque não é o que o torcedor gosta de ouvir. Ele quer ouvir o seguinte: ‘Já resolvemos todos os problemas do Galo, que agora é o Real Madrid da América do Sul’. Não é verdade, longe disso.

Como profissional, já vivenciei outros clubes e outras etapas. O Galo passa por uma reconstrução. Talvez, toda essa reconstrução que vem acontecendo no Galo nos últimos anos faz com o que o torcedor tenha esse nível de exigência. Isso é legítimo, é o fato de termos ganho muito antes do que o planejamento previa. A verdade é essa. Subentende-se que todos os problemas já foram sanados.

Que avaliação você faz do trabalho do Turco?

Nós vamos finalizar maio, e quarta, se tivéssemos vencido, teríamos batido quase 80% de aproveitamento neste primeiro semestre. O Toni modificou muito pouco, e isso foi um dos motivos da nossa escolha, justamente para dar sequência ao trabalho que o Cuca vinha realizando. A nossa equipe é praticamente a mesma. Mantivemos quase a totalidade da equipe considerada titular. Com muita dificuldade, é difícil manter uma equipe que foi campeã.

O que disputamos vencemos. A discussão de bom futebol ou não não é só aqui no Galo. Se pegar o Flamengo, vive sob o fantasma de 2019, já estamos em 2022. O Palmeiras no ano passado, mesmo quando nos eliminou, foi chamado de um time retranqueiro, e ganhou a Libertadores. A discussão é legítima, mas fica em outro fórum. A nossa discussão interna é por melhoria, aperfeiçoamento, perfeição, mas discutir essa questão do futebol, comparar, não agrega. O que agrega é melhorar e corrigir aquilo em que nós temos margem para evoluir. É entender que o futebol brasileiro é assim: mesmo ganhando é questionado, e temos que entender.

O Turco vai para o sexto mês e já entendeu como é. O nosso entendimento é que ele realiza um bom trabalho. Além de ser um ótimo gestor de grupo, é uma grande figura humana. Vamos seguir na busca de estar sempre no topo, ser protagonista. Agora são três competições dificílimas, e nossa obrigação é ser protagonista. Agora, se vamos conseguir vencer ou não, tomara a Deus que sim.

Recentemente, foi noticiado que a 777 Partners, que vai comprar 70% das ações da SAF do Vasco, tem interesse em contratá-lo já este ano. Esse interesse chegou até você? E outra: o Atlético o procurou para renovar?

Eu não tive nenhum convite. Por óbvio que eu não abriria esse tipo de conversa sob contrato com o Galo. Se fosse qualquer coisa que fizesse parte do meu planejamento de carreira, tanto o presidente quanto o órgão colegiado, formado pelos 4Rs, saberiam. Se eu fosse ter uma conversa com outro clube, ou outro projeto. Tenho contrato até o final do ano, pretendo cumpri-lo. Talvez, no momento certo, a gente converse (sobre o futuro). É muito mais importante eu conversar dos atletas que têm contrato até o final deste ano.

Renovamos com o Mariano, com o Réver. Estamos conversando para resolver a situação do Igor (Rabello). O diretor de futebol é só uma peça nessa engrenagem.

Por outro lado, é óbvio que me sinto honrado de meu nome estar sendo veiculado no Vasco. É o clube que, em nível nacional, me deu a grande oportunidade da minha carreira, quando saí do Grêmio. Sei do carinho, respeito e até gratidão por parte de toda a torcida vascaína, como eu espero que seja o mesmo carinho e respeito que percebo de toda a Massa atleticana.

Nos clubes nos quais você tem tempo para trabalhar – lá foram quatro anos, aqui é o meu segundo – continuidade e conquistas, tendo o entendimento deste processo de reconstrução, é natural que seu nome seja lembrado com carinho e respeito. Lá não é diferente. Eles (no Vasco) sabem também do carinho e gratidão que eu tenho. Nesse sentido, não (teve nenhuma conversa para renovação). Eu penso que irá acontecer. É o que eu preciso conversar com eles (se quero). Mas tudo tem o seu tempo.

Outra notícia recente foi sobre um interesse da Seleção Brasileira. Faz parte do seu plano de carreira trabalhar na CBF com a Seleção?

Pergunta difícil. Na época em que trabalhei no Rio, algumas vezes meu nome foi ventilado. Primeiro, deixar claro que o Brasil está em um ciclo de Copa do Mundo, em novembro, mas espero que vá até a final, e que, poxa, o diretor de seleções lá é um amigo que eu tenho, o Juninho. Não me sinto confortável em falar em relação a isso. Como profissional, não sei se CBF, não sei lhe responder em relação a isso. Mas é óbvio que se perguntar para qualquer profissional se ele tem o desejo de ir para uma Copa do Mundo... Como fui um atleta bem mediano, não consegui ter esse sonho. Mas representar o seu país em uma Copa do Mundo, quem não sonha?

Mas chegou algum convite desta vez?

Não chegou. Eu tenho uma boa relação com o atual presidente da CBF, o qual já conhecia antes de ele assumir o cargo, o Ednaldo. Mas tenho que respeitar principalmente quem está lá, e todos nós torcemos para que o Brasil conquiste o título no Catar.

O Atlético ainda precisa vender este ano?

Espero que não precise. Mas, se precisar, vamos ter que fazer. Depende de uma série de fatores. Não quero entrar aqui, porque também não é minha parte, questões relacionadas até a ativo imobilizado do clube, porque senão o clube ainda segue precisando de receita. Tem um déficit anual importante. Vocês sabem, não é segredo, o presidente mesmo fala, o quanto o Galo paga a título de juros. Como você fecha esse buraco?
Não tem. Nós fizemos, na minha visão, ótimas vendas, mas gostaríamos de vender por um preço maior. Às vezes somos questionados, mas proposta boa é a que você tem, não a que sonha. Gostaria de vender três jogadores por 30 milhões de euros, não precisaria vender sete.

Quando Sávio deixa o clube para o Grupo City?

É algo que estamos vendo ainda, mas vai depender muito do projeto de carreira que esse clube ou grupo vai definir para ele. Enquanto isso, vai seguir sendo aproveitado, ainda mais agora, com as lesões dos jogadores de frente. Ele cada vez mais terá minutagem. A princípio, se eu puder falar quando ele vai sair, vai depender do país para onde ele for. Cada país tem uma janela diferente. Hoje, não saberia cravar. Se tudo se confirmar e finalizar a operação, muito provavelmente a partir de julho.

Foi especulado recentemente que o Atlético tem interesse em Jemerson, De La Cruz e Lucas Leiva. É verdade?

Muitas vezes, a gente vê nome de outros atletas: 'Ah, está em fim de contrato!'. Acha que só porque está em fim de contrato... caso do Jemerson, De La Cruz. Daqui a pouco vão falar de outros. Me surpreendeu não falarem do Mbappé, que estava em fim de contrato também (risos). Se está em fim de contrato, acham que tudo é possível. Tudo é fácil. Zero (nada com Jemerson e De La Cruz). Você me pergunta se tem alguma coisa, eu falo: zero. A obrigação nossa no mercado é: investigar, sondar. Isso não estou falando dos dois, mas do mercado em geral. Mas zero (por cento) de possibilidade, pelo menos hoje.

Eu tenho uma ótima relação com o Lucas, talvez pelas conversas que sempre mantive com ele... O Lucas se iniciou comigo lá no Grêmio, na base ainda, e depois fez a transição profissional comigo lá também. E desde a época da chegada dele ao Liverpool, a gente nunca perdeu contato. Não só um atleta, mas um profissional de uma prateleira diferente. Na formação, enfim. Conheço a família dele e tudo. Daí para ter o interesse hoje? Nós temos vários bons volantes, né? Não vou nem citar. O 'Alemão' é mais volante mesmo (não viria como zagueiro). Acho pouco provável que tivesse espaço aqui – o que não invalida a trajetória dele, a carreira vitoriosa. Agora, hoje, não vejo com espaço aqui não, pelo número de bons atletas na função.

Quando o Pavón chega? Turco falou que já está certo…

Se ele cumprir o contrato com o Boca e entender que o Galo é uma boa casa, aí acho que o Turco vai confirmar ele lá por julho (ao fim do contrato com o Boca). É um bom jogador, sim, em uma posição que, aprendi uma vez com uma pessoa, do meio pra frente nunca é demais ter jogadores ‘desequilibrantes’, porque é ali que se ganha o campeonato. Ele é de um setor que não importa se teremos outros; quanto mais opções tivermos, melhor.

Como estão as negociações pela renovação de Igor Rabello?

A gente vai ter essa decisão dele agora, porque depende da conversação com o atleta e do seu estafe conosco. Até junho a gente define. Eu posso dizer que assim como foi com o Réver, com o Mariano, a gente está neste processo de conversa, é difícil eu te dar uma timeline do que está acontecendo, não é o mundo ideal fazer este tipo de detalhamento, mas óbvio que a gente conversa. É difícil eu prever (se vai fechar), mas eu posso dizer que o Galo tem interesse em que ele fique, ele também tem interesse de ficar, vamos ver se a gente chega a um acordo.

Quando chegarmos, e se chegarmos, a gente vai comunicar à imprensa, como foi o caso do Mariano agora. A gente tem conversado com o estafe do Mariano há um mês, um mês e poucos dias. Quanto menos modificações que não sejam traumáticas, é melhor.

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