Carmelita Andrade (E) é professora há 35 anos no ateliê de Erli Fantini: as duas nutrem amor pela arte da cerâmica
fotos:Leandro Couri/EM/D.A Press
Arte que vem da terra, terra que a mão esculpe, mão que faz da natureza sua obra prima, beleza do fundo do chão. Identidade expressa em detalhes, o barro entoado em formas, cores, texturas. Na Pré-História, na Grécia e Roma antigas, na Idade Média, com contornos barrocos, da Art Nouveau ou do Modernismo. Dos instrumentos iniciais que serviam simplesmente para o comer e beber, até consagrados ícones estéticos, passando por leituras infinitas, vasta é a cerâmica. Tão vasta quanto a criatividade que caminha no compasso particular da inspiração.
Artista admirada por todos, além das obras na área da cerâmica escultórica, é de extrema relevância o trabalho de Erli Fantini, com o ateliê que leva seu nome em BH. Como Erli, seus alunos e amigos são ceramistas que se dedicam muito mais à área da escultura e objetos decorativos que a utilitários. Erli trabalha há mais de 50 anos com a cerâmica e demonstra o orgulho de ter conseguido realizar tanta coisa dentro desse campo.
Para ela, a cerâmica é uma paixão, desde quando cursava belas artes na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É algo que dá significado à própria vida. Com a cerâmica, explora tudo o que experimenta no dia a dia. "Busco matérias primas que incorporo à cerâmica, em um processo de coletar tanto imagens como materiais. E tudo o que surge por acaso."
Erli formou-se como artista plástica quando a cerâmica ainda não existia como curso. Conta que, na sala do diretor, Aroldo Matos, existia um pequeno forno. Ali, Erli fazia suas primeiras experiências. Fez cursos de cerâmica fora de Belo Horizonte e também na Escola Guignard, que na época ainda funcionava no Parque Municipal.
Os professores da UFMG criaram a Feira da Praça da Liberdade, e lá estava Erli com uma coleção de acessórios feitos com peças de relógio. Foi iniciativa da artista a concepção da Feira de Cerâmica, que começou no Mercado Santa Tereza, depois seguiu para a Escola Guignard, esteve no Mercado Distrital do Cruzeiro e hoje acontece no Mercado Central.
Erli Fantini carrega consigo toda sorte de sementes, formas prontas que a alimentam, gravetos que a cutucam, folhas secas rugosas, frutos achados no chão. É do acaso que faz as maiores invenções. Criar para ela é brincar com os materiais. Questionadora, inquieta, arquivista de lotes vagos, caçambas e ferro-velhos, acrescenta à argila os materiais que descobre - ferro, bronze ou alumínio -, testando as possibilidades de queima.
Da vivência em Sabará (MG), onde nasceu, vem a inspiração para suas cidades imaginárias. A transformação em sua obra está na descoberta de que a cerâmica pode estar fora da mesa, nas paredes, como objetos escultóricos, quadros desejados ou grades em que homens de ferro sentam vendo a vida passar.
Entre suas referências com a cerâmica, também estão montanhas, serras vivas que parecem tocar o firmamento, chamando o movimento das curvas. Erli exalta a forma pura, a forma que surge sem excesso.
"A cerâmica me traz tranquilidade e aguça minha curiosidade, eu que sempre fui uma pessoa curiosa com o que está acontecendo e como acontece. Também tem a parte criativa. O mundo pode estar caindo lá fora, pode estar aos pedaços, que eu encontro paz enquanto estou fazendo a cerâmica", diz Erli.
Erli diz que, por mais que aconteçam momentos difíceis, com a cerâmica ela leva tudo com uma perspectiva mais suave. "E posso transmitir essa suavidade para outras pessoas", conta ela, que hoje tem 35 alunos no ateliê que coordena no Bairro Santa Tereza, em BH.
Sônia Rigueira se aprofundou em cerâmica utilitária, com foco na gastronomia, e outra de peças decorativas, para ambientes internos e externos
Raiz
Uma arte que parece bruta, elementos robustos, nada frágeis, uma obra que não se limita a padrões. Desde esculturas com inspiração africana, aos famosos caramujos, tatus e bichos em escala gigante, está o caminho de Carmelita Andrade, que encontra no bloco de barro a vontade de modelar. Assim “cavucados”, dali saem as figuras imersas na argila. Objetos que contêm uma desordem planejada, o belo do imperfeito, uma elegância às avessas.
Carmelita hoje é parceira fiel de Erli Fantini, é professora em seu ateliê há 35 anos, reconhecida como mestra da técnica da modelagem, e também por aproveitar sobras de barro. "A cerâmica hoje é parte da minha vida. Uma maneira de estar sempre mexendo com alguma coisa, uma forma de me distrair e relaxar. Preenche meu tempo e também me dá satisfação ver as peças concluídas", relata.
Georgia Tognolo: "Fiz novas amizades, consigo relaxar, raramente perco uma aula. Agora é o que importa para mim. Sou feliz"
Ambiente natural
Sônia Rigueira conta que foi a cerâmica que a escolheu. Bióloga dedicada à conservação da biodiversidade, encontrou aí a forma de comunicar ao grande público a importância do ambiente natural. Sua expressão na cerâmica tem a influência daquilo em que acredita, e trata desse mundo natural, vivo, interessante, acessível, limitado, do qual o ser humano é parte.
Sônia tem na inspiração das formas, texturas e cores da natureza, com ênfase em animais, plantas, rochas e paisagens, os caminhos de sua atuação. Entre as linhas de trabalho, a cerâmica utilitária, com foco na gastronomia, e outra de peças decorativas, para ambientes internos e externos, representadas por animais, plantas e fungos imaginários.
"Cerâmica é entrar para dentro, é treinar para algumas coisas da vida extremamente importantes. Paciência, saber esperar, aguardar o tempo do outro, trabalhar a perda (quando a peça racha ou estraga, por exemplo), viver o inesperado e as surpresas da vida. Você começa pensando em uma coisa, e o resultado é outro. A cerâmica nos leva para uma dimensão diferente, são treinamentos diários, de coisas que realmente importam na vida. Uma terapia", relata Sônia, que tem um ateliê de cerâmica no Santa Tereza, em BH.
A relação da professora de educação física Georgia Tognolo, de 51 anos, com a cerâmica é um verdadeiro reencontro. Georgia conheceu Cássia Lopes quando ela dava aula de natação para sua filha, e assim ficou conhecendo seu ateliê de cerâmica. Começou as aulas há três anos. Para Georgia, a cerâmica foi a melhor coisa que lhe aconteceu em um momento triste: a luta contra um câncer. "Faço terapia com psicólogo e a cerâmica é minha segunda terapia. Estava extremamente estressada, mergulhada nesse processo da doença. A cerâmica me resgatou. Fiz novas amizades, consigo relaxar, raramente perco uma aula. Agora é o que importa para mim. Sou feliz", diz.
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