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Estado de Minas PANDEMIA

CPI da COVID: o que Ernesto Araújo poderá responder durante depoimento?

Ex-ministro das Relações Exteriores abrirá terceira semana de interrogatórios na Comissão de Constituição e Justiça do Senado


17/05/2021 20:42 - atualizado 17/05/2021 23:00

Ernesto Araújo deve ser interrogado pela demora do Brasil na compra de vacinas no exterior(foto: Valter Campanato/Agencia Brasil)
Ernesto Araújo deve ser interrogado pela demora do Brasil na compra de vacinas no exterior (foto: Valter Campanato/Agencia Brasil)

Exonerado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em 30 de março, o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo será o próximo a prestar depoimento na CPI da COVID, que investiga as ações e possíveis omissões do governo federal no enfrentamento à pandemia. A partir das 9h desta terça-feira (18/9), ele responderá questionamentos dos senadores sobre vários temas.  
 
Um dos aspectos que Araújo terá de esclarecer é a relação estremecida com governo brasileiro com a China, evidenciadas em diversos discursos do ex-chanceler.

Os senadores da CPI da Pandemia verificarão se o boicote ao país asiático prejudicou a compra de vacinas ou entrega de insumos do laboratório Sinovac Biotech, responsável pelas primeiras doses da CoronaVac.

O ex-ministro também pode ser perguntado sobre as tentativas do Ministério das Relações Exteriores (MRE) de comprar vacinas no exterior e aumentar a quantidade de doses à disposição da população brasileira.  
 
 
Outra polêmica que Ernesto Araújo está inserido é o possível envolvimento do MRE na compra de medicamentos sem eficácia comprovada, como cloroquina, ivermectina e azitromicina. Desde o início da pandemia, o tratamento precoce tem sido uma das bandeiras defendidas por Jair Bolsonaro e seus ministros. 

Os senadores da oposição questionarão Araújo se sua pasta priorizou a compra dos medicamentos em detrimento do investimento em vacinas ou tecnologia.
 
O ex-ministro também pode ser questionado sobre como o governo defendia a tese da imunidade de rebanho. Segundo essa lógica, a pandemia só iria ser controlada quando a maior parte da população entrasse em contato com o vírus, adquirindo anticorpos naturalmente. 

Tal estratégia tem sido usada silenciosamente por Bolsonaro, que constantemente vem provocando aglomerações, seja com apoiadores em Brasília, ou mesmo em suas viagens por todo o país. 

Mais um tema a ser perguntado a Ernesto Araújo é a viagem de uma comitiva brasileira à Israel para acompanhar testes de um spray nasal que combateria a COVID-19. Ao todo, os gastos com passagens aéreas e hospedagens de 10 integrantes do governo ficaram em R$ 88 mil. Por outro lado, o governo não chegou a acordo com o laboratório para a produção do medicamento.
 

Próximos depoimentos 


Depois de Araújo, o próximo a prestar depoimento na CPI da COVID é o ex-ministro da Saúde, o general Ernesto Pazuello, que terá interrogado na quarta-feira (19/5). Ele foi substituído pelo médico Marcelo Queiroga em 23 de março. 

Pazuello teve habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para ficar calado durante a oitiva, podendo ser acompanhado por um advogado. O ex-ministro também não poderá receber qualquer tipo de ameaça ou constrangimentos. 

Na quinta-feira (20/5), será a vez da secretária de Gestão do Trabalho do Ministério da Saúde, a médica Mayra Pinheiro, prestar depoimento no Senado. Conhecida em Brasília como Capitã Cloroquina, ela foi convocada para esclarecer a defesa que faz do medicamento que não é recomendado por autoridades de saúde.
 

O que é uma CPI?

As comissões parlamentares de inquérito (CPIs) são instrumentos usados por integrantes do Poder Legislativo (vereadores, deputados estaduais, deputados federais e senadores) para investigar fato determinado de grande relevância ligado à vida econômica, social ou legal do país, de um estado ou de um município. Embora tenham poderes de Justiça e uma série de prerrogativas, comitês do tipo não podem estabelecer condenações a pessoas.

Para ser instalado no Senado Federal, uma CPI precisa do aval de, ao menos, 27 senadores; um terço dos 81 parlamentares. Na Câmara dos Deputados, também é preciso aval de ao menos uma terceira parte dos componentes (171 deputados).

Há a possibilidade de criar comissões parlamentares mistas de inquérito (CPMIs), compostas por senadores e deputados. Nesses casos, é preciso obter assinaturas de um terço dos integrantes das duas casas legislativas que compõem o Congresso Nacional.

O que a CPI da COVID investiga?


O presidente do colegiado é Omar Aziz (PSD-AM). O alagoano Renan Calheiros (MDB) é o relator. O prazo inicial de trabalho são 90 dias, podendo esse período ser prorrogado por mais 90 dias.



Saiba como funciona uma CPI

Após a coleta de assinaturas, o pedido de CPI é apresentado ao presidente da respectiva casa Legislativa. O grupo é oficialmente criado após a leitura em sessão plenária do requerimento que justifica a abertura de inquérito. Os integrantes da comissão são definidos levando em consideração a proporcionalidade partidária — as legendas ou blocos parlamentares com mais representantes arrebatam mais assentos. As lideranças de cada agremiação são responsáveis por indicar os componentes.

Na primeira reunião do colegiado, os componentes elegem presidente e vice. Cabe ao presidente a tarefa de escolher o relator da CPI. O ocupante do posto é responsável por conduzir as investigações e apresentar o cronograma de trabalho. Ele precisa escrever o relatório final do inquérito, contendo as conclusões obtidas ao longo dos trabalhos. 

Em determinados casos, o texto pode ter recomendações para evitar que as ilicitudes apuradas não voltem a ocorrer, como projetos de lei. O documento deve ser encaminhado a órgãos como o Ministério Público e a Advocacia-Geral da União (AGE), na esfera federal.

Conforme as investigações avançam, o relator começa a aprimorar a linha de investigação a ser seguida. No Congresso, sub-relatores podem ser designados para agilizar o processo.

As CPIs precisam terminar em prazo pré-fixado, embora possam ser prorrogadas por mais um período, se houver aval de parte dos parlamentares

O que a CPI pode fazer?

  • chamar testemunhas para oitivas, com o compromisso de dizer a verdade
  • convocar suspeitos para prestar depoimentos (há direito ao silêncio)
  • executar prisões em caso de flagrante
  • solicitar documentos e informações a órgãos ligados à administração pública
  • convocar autoridades, como ministros de Estado — ou secretários, no caso de CPIs estaduais — para depor
  • ir a qualquer ponto do país — ou do estado, no caso de CPIs criadas por assembleias legislativas — para audiências e diligências
  • quebrar sigilos fiscais, bancários e de dados se houver fundamentação
  • solicitar a colaboração de servidores de outros poderes
  • elaborar relatório final contendo conclusões obtidas pela investigação e recomendações para evitar novas ocorrências como a apurada
  • pedir buscas e apreensões (exceto a domicílios)
  • solicitar o indiciamento de envolvidos nos casos apurados

O que a CPI não pode fazer?

Embora tenham poderes de Justiça, as CPIs não podem:

  • julgar ou punir investigados
  • autorizar grampos telefônicos
  • solicitar prisões preventivas ou outras medidas cautelares
  • declarar a indisponibilidade de bens
  • autorizar buscas e apreensões em domicílios
  • impedir que advogados de depoentes compareçam às oitivas e acessem
  • documentos relativos à CPI
  • determinar a apreensão de passaportes

A história das CPIs no Brasil

A primeira Constituição Federal a prever a possibilidade de CPI foi editada em 1934, mas dava tal prerrogativa apenas à Câmara dos Deputados. Treze anos depois, o Senado também passou a poder instaurar investigações. Em 1967, as CPMIs passaram a ser previstas.

Segundo a Câmara dos Deputados, a primeira CPI instalada pelo Legislativo federal brasileiro começou a funcionar em 1935, para investigar as condições de vida dos trabalhadores do campo e das cidades. No Senado, comitê similar foi criado em 1952, quando a preocupação era a situação da indústria de comércio e cimento.

As CPIs ganharam estofo e passaram a ser recorrentes a partir de 1988, quando nova Constituição foi redigida. O texto máximo da nação passou a atribuir poderes de Justiça a grupos investigativos formados por parlamentares.

CPIs famosas no Brasil

1975: CPI do Mobral (Senado) - investigar a atuação do sistema de alfabetização adotado pelo governo militar

1992: CPMI do Esquema PC Farias - culminou no impeachment de Fernando Collor

1993: CPI dos Anões do Orçamento (Câmara) - apurou desvios do Orçamento da União

2000: CPIs do Futebol - (Senado e Câmara, separadamente) - relações entre CBF, clubes e patrocinadores

2001: CPI do Preço do Leite (Assembleia de MG e outros Legislativos estaduais, separadamente) - apurar os valores cobrados pelo produto e as diretrizes para a formulação dos valores

2005: CPMI dos Correios - investigar denúncias de corrupção na empresa estatal

2005: CPMI do Mensalão - apurar possíveis vantagens recebidas por parlamentares para votar a favor de projetos do governo

2006: CPI dos Bingos (Câmara) - apurar o uso de casas de jogo do bicho para crimes como lavagem de dinheiro

2006: CPI dos Sanguessugas (Câmara) - apurou possível desvio de verbas destinadas à Saúde

2015: CPI da Petrobras (Senado) - apurar possível corrupção na estatal de petróleo

2015: Nova CPI do Futebol (Senado) - Investigar a CBF e o comitê organizador da Copa do Mundo de 2014

2019: CPMI das Fake News - disseminação de notícias falsas na disputa eleitoral de 2018

2019: CPI de Brumadinho (Assembleia de MG) - apurar as responsabilidades pelo rompimento da barragem do Córrego do Feijão
 


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