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Estado de Minas ELEIÇÕES 2020

Nordeste: esquerda mostra incertezas para 2022, mas bolsonarismo é derrotado

Candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não conseguiram se eleger nos principais colégios eleitorais da região; disputa entre PSB e PT no Recife coloca "frente ampla" em xeque para o próximo pleito nacional


29/11/2020 21:10 - atualizado 29/11/2020 23:40

Live feita em 2018 por Capitão Wagner e Jair Bolsonaro(foto: Reprodução)
Live feita em 2018 por Capitão Wagner e Jair Bolsonaro (foto: Reprodução)
Ao longo dos dois primeiros anos de mandato, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tentou aumentar a própria popularidade nos nove estados do Nordeste, onde foi derrotado por Fernando Haddad (PT) no segundo turno da eleição de 2018. As disputas municipais de 2020, porém, deram mostras de que o chefe do Executivo nacional não conseguiu, na região, espalhar com efetividade o discurso que o elegeu.

Bolsonaro sofreu importantes derrotas nas capitais nordestinas mais populosas - como em Fortaleza, onde Capitão Wagner (Pros) sucumbiu à união de partidos de diferentes espectros políticos e foi superado por José Sarto (PDT) neste domingo (29/11). No Recife, candidatos ligados ao presidente nem chegaram ao segundo turno, protagonizado por uma disputa quase shakespeariana entre os primos João Campos (PSB, que venceu o pleito) e Marília Arraes (PT).

O embate dos herdeiros de Miguel Arraes - importante símbolo democrático em Pernambuco - escancarou a divisão entre lideranças da esquerda nacional. Na opinião de analistas consultados pelo Estado de Minas, o conturbado confronto entre PT e PSB colocou em xeque uma já improvável “frente ampla” no primeiro turno do pleito contra Bolsonaro em 2022.

De um lado, João Campos, filho do ex-governador Eduardo Campos (morto em 2014 em acidente aéreo durante a campanha presidencial), liderou a chapa encabeçada pelo PSB. Ao seu lado, contou como vice Isabella de Roldão (PDT), em união de partidos que pode se repetir em 2022. Do outro, Marília Arraes formou dupla com João Arnaldo (Psol). Durante a campanha, apoiaram-se no petismo - ainda forte na cidade - e na imagem do ex-presidente Lula (PT).

“Flávio Dino (PCdoB), Marina (Silva, da Rede) e Ciro (Gomes, do PDT) deram apoio à candidatura do PSB, e isso vai ter reflexos mais à frente. A construção de uma frente ampla de esquerda vai depender das conjunturas estaduais para governo. Com certeza esse embate do PT e PSB vai deixar sequelas, mas nada impossível de ser superado em função da força política que Bolsonaro ainda tem”, avaliou o cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Leon Victor Queiroz.

Para além da divisão ideológica de lideranças que outrora estiveram alinhadas, o segundo turno no Recife deixa marcas discursivas e simbólicas para a esquerda. A acirrada campanha - em que os concorrentes apareceram empatados na última pesquisa anterior à eleição - foi recheada de acusações, disputas judiciais, desentendimentos familiares, machismo e disseminação de fake news.

“João Campos, que era a ‘vidraça’ no primeiro turno, ficou em segundo lugar (nas pesquisas) e passou a ter uma postura de ataque. Os ataques da ‘cintura para baixo’ estavam valendo: o chute era em qualquer lugar. Se você lembrar de 2018, eram ataques típicos de Bolsonaro contra Haddad, da direita moralista, conservador a esse ponto. Nos últimos dias da campanha, esses ataques surtiram algum efeito”, analisou Pedro Gustavo de Sousa Silva, doutor em Ciência Política pela UFPE.

João Campos derrotou a prima Marília Arraes na eleição do Recife(foto: Divulgação)
João Campos derrotou a prima Marília Arraes na eleição do Recife (foto: Divulgação)

O cenário para 2022 ainda é incerto, de acordo com a avaliação dos especialistas. O momento atual, porém, aponta para algumas tendências: uma união entre PSB e PDT, liderada pelo pedetista Ciro Gomes; e PT em busca de retomar o protagonismo, possivelmente com diálogo mais estruturado com PCdoB e, eventualmente, com Psol - que também tende a lançar candidato próprio. Tudo, porém, depende dos próximos dois anos e, evidentemente, da força de Bolsonaro até lá.

“É muito complexo um acordo em primeiro turno que unifique PT e PDT, porque Ciro tem a pretensão de ser candidato a presidente e possui base eleitoral. Por outro lado, o PT tem uma hegemonia no campo, tem um capital eleitoral e tem se organizado em torno disso. É difícil para o PT, dentro da sua estratégia e da sua lógica, abrir mão de ser cabeça de chapa - e abrir mão para Ciro, que não parece muito disposto a fazer uma concessão tão grande ao lulismo, ao legado do PT”, pontuou a socióloga Monalisa Lopes, pesquisadora da Universidade Federal do Ceará (UFC).

União derrota bolsonarismo em Fortaleza 

Em Fortaleza, o jogo de forças se construiu de maneira bem diferente em comparação com Recife. No primeiro turno, o campo progressista se fragmentou em cinco candidaturas de partidos que, de algum modo, estiveram historicamente ligados a pautas da esquerda (PT, Psol, PCdoB, PDT e PV).

No segundo, todos se uniram para derrotar o Capitão Wagner, nome apoiado publicamente por Jair Bolsonaro. No início da corrida eleitoral, o vitorioso José Sarto já havia recebido os apoios dos irmãos Cid e Ciro Gomes, influentes personagens políticos do Ceará, e do senador Tasso Jereissati (PSDB).

Na avaliação dos analistas, associar-se a Bolsonaro surtiu efeito negativo no Nordeste. Na capital cearense, Capitão Wagner até superou as expectativas apontadas pelas pesquisas e totalizou 48,31% dos votos válidos do segundo turno, mas passou os últimos dias de campanha tentando se desvincular da imagem do presidente.

“Por Fortaleza, diria que o bolsonarismo não se deu muito bem. Quando a gente vê o caso do Recife, o presidente tinha apoiado a Delegada Patrícia (Podemos), que também não teve bom desempenho. No caso de Salvador, o presidente não foi personagem muito acionado, não apareceu muito. Parece-me que o Nordeste reverberou algo do conjunto geral do país, em que o presidente virou persona non grata para a maioria dos candidatos. Onde ele apareceu, não pegou bem para os candidatos”, avaliou Monalisa Lopes, da UFC.

Outras capitais

Em Salvador - quarto maior colégio eleitoral do Brasil e o maior do Nordeste, com 1.897.098 eleitores -, não foi necessário segundo turno. Vice de ACM Neto, o ex-deputado estadual Bruno Reis (DEM) conquistou expressiva vitória, com 64,2% dos votos. Ao longo da campanha, o nome de Jair Bolsonaro pouco foi citado pelos candidatos mais votados.

Bruno Reis foi eleito prefeito de Salvador, maior colégio eleitoral do Nordeste(foto: Divulgação)
Bruno Reis foi eleito prefeito de Salvador, maior colégio eleitoral do Nordeste (foto: Divulgação)

“O discurso do presidente tem encontrado resistência à realidade. As evidências contradizem do discurso do Planalto. Mas é preciso dizer que Bolsonaro não se engajou nas campanhas. Mesmo assim, os candidatos que o apoiavam não foram eficazes em sobrepor o apoio das lideranças consolidadas, seja à esquerda (Fortaleza e Recife), seja à direita (Salvador)”, frisou Leon Victor Queiroz, da UFPE.

Além de Salvador, apenas Natal não precisou de segundo turno entre as capitais nordestinas - a vitória ficou com Álvaro Dias (PSDB). Em São Luís, o governador Flávio Dino viu parte do PCdoB e outros partidos aliados irem em direção contrária à dele e apoiarem Eduardo Braide (Podemos), que saiu vitorioso.

Em Maceió, a capital mais bolsonarista do Nordeste nas eleições de 2018, o nome do presidente pouco foi mencionado ao longo da campanha, que acabou com vitória de JHC (PSB). Apoiado criticamente pelo PT no segundo turno, Cícero Lucena (PP) venceu em João Pessoa, onde a esquerda foi derrotada no primeiro.

Em Teresina, a direção petista se posicionou pela saída de Kleber Montezuma (PSDB) e sugeriu voto no vitorioso Dr. Pessoa (MDB), que já fez declarações positivas sobre Bolsonaro. Já em Aracaju, a candidata associada ao presidente, Delegada Danielle, perdeu para Edvaldo (PDT).

Ao fim do segundo turno, três partidos acabaram com duas capitais nordestinas cada: PDT (Fortaleza e Aracaju), PSB (Maceió e Recife) e DEM (Teresina e Salvador). Outros três vão administrar as outras: Podemos (São Luís), PP (João Pessoa) e PSDB (Natal).

Prefeitos eleitos nas capitais nordestinas

Aracaju - Edvaldo (PDT), com 57,86% dos votos válidos no segundo turno
Fortaleza - José Sarto (PDT), com 51,69% dos votos válidos no segundo turno
João Pessoa - Cícero Lucena (PP), com 53,16% dos votos válidos no segundo turno
Natal - Álvaro Dias (PSDB), com 56,58% dos votos válidos no primeiro turno
Maceió - JHC (PSB), com 58,64% dos votos válidos no segundo turno
Recife - João Campos (PSB), com 56,27% dos votos válidos no segundo turno
Salvador - Bruno Reis (DEM), com 64,20% dos votos válidos no primeiro turno
São Luís - Eduardo Braide (Podemos), com 55,53% dos votos válidos no segundo turno
Teresina - Dr. Pessoa (DEM), com 62,31% dos votos válidos no segundo turno


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