
O catálogo da Páginas Editora engloba desde autores iniciantes a nomes consagrados, como Milton Hatoum, com o livro “Sete crônicas”. Leida conta que a experiência de editar um livro, ainda quando atuava como jornalista, a levou a entender como funcionavam as engrenagens dessa produção.
“Foi uma experiência piloto. Quando decidi sair do jornalismo, pensei que montar uma editora seria uma coisa que eu teria capacidade de fazer”, diz, acrescentando que a própria vivência nas redações foi um suporte importante para essa realização. Ela aponta que um dos destaques da Páginas Editora é seu catálogo infantil, com dezenas de livros publicados, no que foi, conforme aponta, um direcionamento não planejado.
“A editora estreou com um livro infantil, o 'Bilô desembolô', da Vanessa Corrêa (com ilustrações de Iara Rachid), que trata da questão do racismo. Quando resolvi criar a Páginas, eu achava que não fosse trabalhar com livro infantil; eu nunca tinha escrito para crianças, porque achava difícil, e acabamos começando justamente por esse segmento”, pontua.
O segundo título da Páginas também foi um infantil, e em seguida o leque foi paulatinamente sendo ampliado. “Comecei a ser procurada por jornalistas, em função das relações profissionais mesmo, e aí passei a publicar todos os tipos de literatura. Comecei trabalhando sozinha, mas como esse foi um movimento crescente, percebi que precisava de pessoas para me ajudar. Hoje tenho sete funcionários, sendo quatro de carteira assinada e três prestadores de serviço”, diz.
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Além dos livros infantis, outro destaque da Páginas são as antologias, reunindo diversos autores em torno de um gênero, seja poesia, crônica ou conto, que carregam a missão de revelar novos autores. Leida diz que os convites a autores consagrados, que sempre participam de tais obras, valorizam as publicações. Um exemplo é o sucesso da antologia “Elas”, de poesia feminina, em que escritoras iniciantes dividem espaço com poetas como Maria Valéria Rezende, Maria Esther Maciel e Ana Martins Marques, entre outras.
A editora ressalta que se inserir e se manter no mercado não é uma tarefa fácil, por ser um terreno muito competitivo. O fato de as compras governamentais terem diminuído sensivelmente ao longo dos últimos anos tornam o momento desfavorável. “Antes, as editoras podiam inscrever quantos livros quisessem no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) e atualmente só um pode ser inscrito”, pontua Leida.
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Ela destaca que outro complicador é a concorrência das novas plataformas, que apostam em e-books e audiobooks, que têm um preço de venda menor para o consumidor. O fato de a autopublicação ter se tornado mais viável também acaba por reduzir o faturamento das editoras, aponta. “Mas o que percebi é que apareceu mais gente investindo em publicações durante a pandemia. Tinha mais pessoas buscando realizar o sonho de publicar. Isso contrabalançou um pouco o cenário”, diz. (DB)
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Entrevista/Leida Reis (Páginas Editora)
Quais os maiores desafios de ser uma editora no Brasil?
A questão do preço do livro é um problema; ele é muito barato em relação ao custo de produção. Teve um aumento expressivo no valor de impressão de gráfica nos últimos dois anos, e o preço do livro a gente não consegue subir muito, porque o mercado não absorve. Se for comparar com outros itens, como alimentação, o livro é muito barato. Isso porque o nível de leitura do brasileiro é muito baixo.
Que livro ou autor, brasileiro ou estrangeiro, gostaria de ter sido a primeira a editar?
Vou falar de um escritor que gosto muito, o inglês Ian McEwan. Ele publica praticamente um livro por ano, e é um autor que pesquisa muito para escrever, faz uma imersão no assunto que quer abordar. Quem conhece esse autor compra todos os livros dele, então gostaria de ser editora dele, um sonho não realizado nesta encarnação.
Quais os próximos capítulos de sua editora?
Estamos lançando agora um projeto que é um pouco o resgate de uma proposta inicial da editora. Eu queria publicar histórias de famílias, de pessoas comuns; queria que a Páginas fosse responsável por não deixar histórias morrerem. Seguimos por outros caminhos, mas estamos lançando um novo selo, Jornadas, que vai resgatar isso, trabalhar com pessoas que contem suas histórias. Existe essa demanda, inclusive por parte de quem não é escritor. E eu também vou lançar um novo livro, um romance, possivelmente em setembro. Meus livros para adultos têm temáticas policiais, e agora entro na temática feminina. O livro se chama "Mulheres arco-íris" e tem como personagem principal uma trans.
