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Estado de Minas CHECAMOS

O suposto aumento de mortes por infarto de atletas da FIFA em 2021 se baseia em um cálculo enganoso

Redes sociais relacionam fenômeno à vacinação contra covid-19. Mas FIFA afirma não ter "detectado tendência" nesse sentido


01/12/2021 00:18 - atualizado 01/12/2021 07:54

O número de mortes por problemas cardíacos entre atletas da FIFA aumentou, em 2021, cinco vezes em relação à média dos últimos 20 anos, indicam publicações compartilhadas centenas de vezes nas redes sociais desde, pelo menos, o último 26 de novembro.

Os usuários relacionam esse fenômeno à vacinação contra a covid-19. Mas o cálculo feito para chegar a essa conclusão é enganoso. O comitê da FIFA que registra enfermidades cardíacas fatais afirmou à AFP não ter “detectado uma tendência” nesse sentido. O mesmo foi assinalado pela Federação Alemã de futebol.

“Gráfico registrando casos de morte súbita/infarto em atletas. Em 2021 - e o que aconteceu de diferente nesse ano mesmo? - o número de casos é cerca de 5 vezes maior do que a média dos últimos 20 anos. Coincidência?” e “500% de aumento de mortes - SCD/SUD de jogadores da FIFA em 2021. Não são 24 atletas, nem 30, nem 75 - desde dezembro, 183 atletas profissionais e treinadores repentinamente colapsaram! 108 deles morreram!”, indicam as legendas de publicações, compartilhadas no Facebook (1, 2, 3), no Twitter (1, 2) e no Instagram (1).
Captura de tela feita em 30 de novembro de 2021 de uma publicação no Facebook
Captura de tela feita em 30 de novembro de 2021 de uma publicação no Facebook ( . / ) (foto: Reprodução/Rede social)

Publicações similares também circulam em francês e espanhol.

Desde que o jogador de futebol dinamarquês Christian Eriksen sofreu um infarto durante uma partida da Eurocopa, em junho de 2020, - quando ainda não estava vacinado, como foi verificado pela AFP -, multiplicaram-se as acusações às vacinas contra a covid-19 devido aos problemas cardíacos dos atletas.

O caso do atacante argentino do Barcelona Sergio “Kun” Agüero, que foi dispensado por um problema cardíaco, também foi alvo de publicações contra os imunizantes.

O cálculo

As publicações viralizadas mencionam como fonte um artigo do site israelense RTnews, que faz referência a diferentes atletas que se recusaram a tomar as vacinas contra a covid-19 e afirma que 108 esportistas faleceram repentinamente desde o início das campanhas de imunização.

No Twitter, a israelense Yaffa Shir-Raz, autora do artigo, que se apresenta como jornalista especializada em saúde, explicou o seu cálculo em uma sequência escrita em inglês e compartilhada mais de 3 mil vezes desde que foi publicada, em 15 de novembro.

1/ Breaking news: 500% increase in deaths - SCD/SUD of FIFA players in 2021

Not 24 athletes, not 30, nor 75 - Since December, 183 professional athletes and coaches have suddenly collapsed!

108 of them died!

The Israeli "Real-Time News" reports.https://t.co/VgMPM8l4kfpic.twitter.com/BvuwIo2TRK
— Yaffa Shir-Raz (@YaffaRaz) November 15, 2021

Shir-Raz compilou uma lista de 108 publicações em diferentes idiomas que informam sobre a morte súbita de atletas em 2021.

Embora a equipe de verificação da AFP não tenha verificado esses 108 casos, muitos dos quais provêm de blogs, meios de comunicação desconhecidos ou tuítes sem fonte, selecionou aleatoriamente cerca de trinta links, nos quais não é especificado se o atleta foi vacinado, ou não se estabelece uma relação causal entre a morte e a vacina.

A partir dos artigos, a autora afirma ter identificado 21 jogadores de futebol que morreram de parada cardíaca. Em seguida, procura comparar esse valor com o de anos anteriores para definir uma tendência. "Para descobrir quantas mortes realmente ocorreram nas últimas duas décadas entre jogadores da FIFA (2001-2020), usamos a Wikipédia", disse, utilizando o link desta “Lista de jogadores de futebol falecidos em campo” da enciclopédia colaborativa.

“De acordo com a Wikipédia, entre 2001 e 2020, houve uma média de 4,2 mortes por ano atribuídas [a doenças cardíacas fatais]. Em contraste, em 2021, de acordo com nossa lista, houve 21 casos entre jogadores da FIFA”, disse. Em outras palavras, teriam ocorrido “cerca de cinco vezes mais” mortes desse tipo em 2021 do que nos anos anteriores, concluiu.
Captura de tela feita em 26 de novembro de 2021 de um tuíte de Yaffa Shir-Raz
Captura de tela feita em 26 de novembro de 2021 de um tuíte de Yaffa Shir-Raz ( . / ) (foto: Reprodução)

Jean-Marie Vailloud, cardiologista de uma clínica de reabilitação de Marselha, França, garantiu à AFP que a conclusão da autora israelense “não é baseada em nada” e que usar publicações online muito diferentes para construir uma amostra base “e, em seguida, pegar uma lista da Wikipédia para comparar e extrair tendências dela” vai “contra a prática científica”.

“Não há mais mortes do que antes da pandemia”

A fim de obter esclarecimentos sobre esses rumores recorrentes de um aumento repentino de doenças cardíacas no futebol, a AFP contatou no último outubro o comitê encarregado do “registro de mortes cardíacas súbitas” no futebol, vinculado à Federação Internacional de Futebol (FIFA).

Trata-se de um grupo de trabalho da Universidade de Saarbrücken (Alemanha), liderado pelo médico desportivo Florian Egger, que havia identificado “617 casos de morte súbita” entre 2014 e 2018, ou seja, mais de uma centena por ano, segundo este estudo publicado no British Journal of Sports Medicine (BMJ), e não 4,2 como afirma Shir-Raz.

Para uma verificação anterior da AFP, Egger já havia explicado que agora “não há mais mortes entre jogadores de futebol do que antes da pandemia” de covid-19.

As cifras oficiais de mortes súbitas cardíacas em campos de futebol para 2021 ainda estão sendo analisadas, informou ele em um e-mail à AFP em 25 de novembro passado, mas esclareceu: “Não vemos nenhuma dinâmica particular" em comparação com os anos anteriores.

Tim Meyer, presidente da comissão médica da Federação Alemã de Futebol (DFB) e médico da seleção alemã, disse à AFP em 19 de outubro: “Na minha opinião, a alegação de que as mortes no esporte ou no futebol em particular aumentaram depois da introdução de vacinas contra covid-19 é infundada”.

Problemas cardíacos no esporte

A morte súbita em esportes de alto nível não data do aparecimento da covid-19 e das vacinas contra essa doença. Nos últimos anos, diversos episódios no campo de jogo abalaram o mundo do futebol, como o do camaronês Marc-Vivien Foé em 2003, o do brasileiro Caetano “Serginho” em 2004 e o do espanhol Antonio Puerta em 2007.
Médicos atendem o atacante argentino do Barcelona Kun Agüero durante a partida contra o Deportivo Alavés no estádio Camp Nou de Barcelona, em 30 de outubro de 2021
Médicos atendem o atacante argentino do Barcelona Kun Agüero durante a partida contra o Deportivo Alavés no estádio Camp Nou de Barcelona, em 30 de outubro de 2021 (foto: AFP / Pau Barrena)

“Sempre houve mortes no esporte, mas foram e são muito raras”, explicou Meyer. Segundo ele, os atletas são, em média, mais saudáveis do que os outros, mas “infelizmente também há doenças cardíacas inadvertidas” que podem desencadear esses problemas repentinos.

“Do ponto de vista cardiovascular, a atividade física traz um enorme benefício. Mas pode haver um risco adicional para pessoas que praticam em alta intensidade e que têm doenças cardiovasculares diagnosticadas ou silenciosas" das quais a pessoa não tem conhecimento, detalhou Jean-Marie Vailloud. Por isso, o cardiologista insiste na necessidade de obter o atestado médico de um profissional de saúde para praticar uma atividade de forma intensiva.

Efeitos colaterais das vacinas

Desde o início da vacinação contra a covid-19 em pessoas com mais de 12 anos de idade nos Estados Unidos, França e Bélgica, foram notificados às agências de farmacovigilância vários casos de miocardite (uma inflamação do coração) em adolescentes vacinados. Ocorreram principalmente em homens jovens, após receberem a segunda dose.

No último mês de junho, especialistas americanos analisaram 323 casos de inflamação cardíaca em adolescentes após serem vacinados com a Pfizer/BioNtech e com a Moderna. Eles concluíram que havia uma “provável” relação entre essas vacinas e os casos raros de miocardite, mas que a maioria dos casos eram “leves, e os indivíduos geralmente se recuperavam por conta própria ou com tratamento mínimo”.

Em um comunicado publicado em agosto, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos relataram a decisão dos especialistas: "Em 23 de junho de 2021, o Comitê Consultivo em Práticas de Imunização (ACIP) dos CDC revisou os dados disponíveis e concluiu que os benefícios da vacinação contra covid-19 para as pessoas e para a população superam os riscos de miocardite e recomendou o uso contínuo da vacina em pessoas com mais de 12 anos".

Esses e outros efeitos adversos continuam a ser monitorados pelas agências de farmacovigilância dos diferentes países (1, 2, 3).

Esta verificação foi realizada com base em informações científicas e oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis na data desta publicação.

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